O som do telefone estremeceu o silêncio da casa. Tocou uma vez, duas vezes, três vezes… quando é que desligam? Não suporto o som estridente daquele telefone, não desde que deixou de me chamar gentilmente, de me sussurrar “atende, é ele. Não o deixes esperar”, e passou a gritar-me que atenda porque é publicidade, é do trabalho, é a minha mãe! Calou-se.
Preciso de café, de uma caneca de café forte capaz de acordar um morto, preciso de despertar, sentir a energia que me falta, mesmo quando durmo 12horas seguidas. O calor líquido e a cafeína sempre me souberam consolar.
A rotina dos meus dias consome-me e tem-me feito tomar consciência de uma aparente impossibilidade física que é a de estar a andar em duas direções opostas. No momento em que me encontro, sinto-me nos antípodas de mim mesma, como se o dom da ubiquidade me tivesse sido dado por uma qualquer fada madrinha que se atrasou em fadar-me desde o berço. Como foi que aconteceu? Não sei. Mas aconteceu.
Passo os dias rodeada de pessoas, falo com elas, ensino-as, encorajo-as, levanto-lhes a moral, sou a melhor claque que alguma delas teve a sorte de encontrar. O meu telefone não para, o meu nome é pronunciado a toda a hora, relembram-me a montanha de papéis que tenho de ler-escrever-simplificar, passam-me circulares de reuniões e perdas de tempo, sou o epicentro de um terramoto que promete arrasar tudo à minha volta. Ainda assim, surpreendentemente constato que estou cada vez mais sozinha. Todos me querem, mas ninguém me quer na verdade.
Preciso de outra chávena de café. Se ao menos o telefone parasse de tocar…
Olho-me no espelho, a minha pele branca está lívida, as olheiras profundas e os lábios descolorados. Devia ir ao cabeleireiro, mudar o penteado, mudar a minha cara, mudar a minha vida.
Gosto de acumular tralha. É um facto, extensível a grande parte dos seres que se dizem humanos, e desde pequena que o faço e guardo um sem fim de objetos a que chamei "tesouros", "preciosidades", "recordações". À medida que cresço, essa tralha acompanha-me em forma de peças de roupa em duvidoso estado, mas que ainda hão de ser moda; potes de asas quebradas; tampas sem frascos e frascos sem tampas; pedaços de tecido, botões, molduras que só precisam de um pouco de cola, espelhos lascados, ratos de computador cujo cabo ainda pode ser útil, eletrodomésticos vários, enfermos alguns, cadáveres a maioria; despensa, escritório, garagem cheia de nadas que ocupam todo o espaço e deixam de fora o que é realmente importante.
Maldito telefone que não se cala! E a minha pele cada vez mais triste, mais pálida…
Tenho de me livrar dessa tralha, arrumar a casa, reorganizar tudo, arejar o que é importante. Simplificar!
O mesmo com o coração. Atulhei-o com amizades doentias, sentimentos de rejeição, amores que não me quiseram, fragmentos de memórias menos boas, pedaços de mágoas, algumas angústias, medos q.b.. No somatório disto tudo, sobra-me pouco espaço para novas amizades, novos amores, novos sentimentos, até novas dores.
Esta falta de espaço isola-me, ou são os outros que me afastam? Dizem que sou complicada, que deveria viver a vida ao momento, num absurdo carpe diem que só serve para desculpar a irresponsabilidade! Querer dá trabalho e as pessoas são muito mais interessantes quando tudo está bem. As perguntas de circunstância “como estás?” aterrorizam-se que lhes respondam “mal, muito mal”. Quererá de facto alguém saber como o outro está, como se sente? E por que tenho eu de carregar o peso da miséria alheia, quando o meu peso me esmaga e a minha miséria me sufoca?
Ninguém quer saber de ninguém. A menos que se chame Dona Clarinda e exerça a profissão liberal da coscuvilhice pro bono. Pelo que passo os meus dias a dar, dar, dar, a dar-me e o que eu recebo em troca não equilibra os pratos da balança. Perdi já a conta das vezes em que os estou a ouvir, sorrindo, dizendo o que é certo e a minha mente vagueia por outros sítios, procurando outras pessoas, outros lugares, outras conversas.
Há alturas em que as coisas pesam pesos terríveis. O momento antes de dormir é muitas vezes uma mistura de estranho e doloroso. Preciso de um espaço, de um momento, de uma bolha de ar onde possa respirar e sentir que estou viva. Preciso de largar o meu lastro, arrumar a casa, a vida, arrumar-me a mim.
O meu coração era enorme, tinha o tamanho do mundo, agora já não.