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05/11/2023

Saudade

 É provável que seja só de mim.

04/05/2021

Talvez apenas três

e que no final poucas coisas contam, talvez apenas três:
com quanta paixão amaste, quão suavemente viveste
e com que elegância conseguiste deixar para trás
coisas que por fim soubeste não te serem destinadas.

José Luís Borges de Almeida, in Dédalo






(a republicação impunha-se)

16/07/2019

Marco Polo, sê gentil

e leva-me para uma cidade invisível.

Zobaida, cidades invisíveis
Aquarela em papel 21x29.7 cm

11/12/2017

Negar o sal

Olho para este blogue e não o reconheço. Não me reconheço. É um amontoado de pedras que me enche os bolsos e me impede de caminhar em frente. Castra-me todas as ideias, as vontades, as palavras que quero, e às vezes preciso, de escrever. É o cadáver que arrasto amarrado ao tornozelo, infectando tudo à volta. Não consigo voltar aqui, não para escrever o novo que acontece nos dias dolentes, não para o pontilhar das certezas que se vão juntando. Preciso de o largar, cortar esta amarra, livrar-me da pele de Uma Rapariga Simples e inaugurar outro espaço, mais arejado, mais limpo, mais puro. É hora de separar a bagagem tóxica e depositá-la nos devidos contentores do esquecimento -- sem medo, sem arrependimentos, negando o sal. O fim deste ano é o limite para muitas coisas terem o seu termo. O fim deste ano é o limite para a existência deste blogue. Em Janeiro, recomeço: a vida, o amor, a família, os sonhos e, quem sabe, um novo espaço virtual. Sem medo. Sem arrependimentos.

06/11/2017

Nidificação

Dizem os livros da especialidade que o desejo de nidificação -- arrumar e limpar a casa como se não houvesse amanhã -- é um sintoma de parto eminente. Não desdigo, mas não valorizo sobremaneira. Muito antes do meu pequeno músico ser uma realidade, já os meus dias eram acometidos de vontades extremas de arrumar e limpar coisas. Se bem pensar, os últimos quinze anos têm sido uma constante de momentos em que os espaços onde estive sofreram mudanças drásticas e foram deixados, nos vários caixotes designados para o efeito, sacos e sacos de lixo e de lastro. Aprendi com o tempo que não podemos carregar todo o passado às costas, sob pena de não haver espaço para o futuro. Foi uma aprendizagem muito útil. especialmente por ter uma casa onde cabia eu e tudo o que arrastei durante anos, mas onde não havia espaço para um marido e um filho. A decisão não foi difícil, talvez pelos anos de treino em desapego, e entre eles e os objectos, ficaram as memórias e espaço para o que virá.

08/09/2017

O mundo às riscas

Começaste por ser um insistente cansaço, acompanhado do sono que às 21h me prostrava. Depois, uma intrigante sensibilidade aos cheiros, especialmente os muito florais, que me deixava o estômago às voltas. Passaste a ser um «será?» desconfiado, confirmado nas risquinhas azuis daquela espécie de tubo branco. Foi assim que soubemos que eras mesmo, uma pequena existência que, como o vento, não víamos, mas começávamos já a sentir os efeitos. Enchi-me então da esperança de que te haveria de encher de laços e fitas e folhos com florzinhas miúdas; quebrarias o reinado másculo de ambos os lados da família e serias uma pequena princesa fofa nas nossas vidas. Trouxe-vos às duas, a ti e à esperança, todos os dias de espera até ao momento em que me deitei naquela cama estreita que enchia o pequeno espaço escuro, senti o frio do gel a arrepiar-me a pele, a pressão da sonda do ecógrafo na minha barriga e a tua imagem, pela primeira vez, projectada no ecrã em frente. Foi naquele momento, sem que ninguém mo dissesse, que vos perdi às duas -- contra toda a esperança, o futuro será feito de calções, riscas e muito azul. E eu mal posso esperar para que assim seja.



06/09/2017

Da relativa importância de pensar e falar por escrito

Estou a deixar este espaço morrer devagarinho. Não é por falta de assunto ou de histórias, que esses acontecem diariamente e com salpicos de surrealismo consideráveis. Também não é por falta de ter o que dizer, porque nunca falei tanto na vida toda, o dia inteiro. Talvez resida aqui o problema: o silêncio é uma realidade cada vez mais estranha, não há, pois, a necessidade de o fintar com diálogos mudos.

Depois, existes tu e nós. Nós, que começámos com dois e estamos em rápida progressão para sermos três. Essencialmente tu, meu confidente, aturador de neuras, porto de abrigo, pilar forte da minha vida, delicioso parceiro de aventuras, solucionador de 90% dos problemas que vão aparecendo pelo caminho, o meu amor imperfeitamente perfeito para mim. Tu, que reduziste o passado a uma memória longínqua e difusa, de importância relativa. Tu, que me deixas recados que me inundam os olhos e me dás a mão enquanto dormimos. Tu, que andas às voltas com parafusos, porque é preciso que a cama fique bem segura, e analisas exaustivamente as características dos colchões. Tu, que eu amo com um amor tão intenso e retribuído que às vezes dói. Tu, a quem eu posso dizer tudo, sem o deixar registado de outras formas.

Sim, vamos ser velhinhos, os dois, juntos!

16/06/2017

A primeira vez

Em nove anos de blogue, muitas vezes questionei a continuidade deste espaço, mas nunca estive perto da decisão de o eliminar de vez. No fundo, sabia que me seria necessário, que haveria sempre qualquer coisa para partilhar. Até agora. Tenho, por estes dias, questionado seriamente se tenho energia ou vontade suficiente para alimentar este bicho que veio cá para casa com a promessa de ser um pinscher e afinal aconteceu ser um dogue alemão que já não cabe em lado nenhum. 

09/06/2017

É tudo muito cansativo

Ter de pensar, organizar, escrever, ser eloquente, ser engraçado, sem deixar de ser sério e compenetrado, esmiuçar o sofrimento que não se quer nem lembrar quanto mais dissecar, pontuar, corrigir, ser coerente, no mínimo coeso, revelar, relatar, partilhar, ser culto e tornar conhecido os suportes da pretensa cultura, escrever mais, um bocadinho mais, interagir, dar e receber, justificar, e escrever ainda mais. Cansativo.

10/05/2017

Como um bambu chinês

A minha vida sempre se precipitou. Desde que me lembro. As coisas aconteceram-me sempre muito depois de acontecerem à maioria (essa medida exacta do valor da nossa vida) e tudo ao mesmo tempo. Sou uma espécie de bambu chinês que precisa de grandes saltos temporais para avançar. 2016 deu o mote, 2017 há-de trazer de uma vez tudo aquilo que tenho esperado por anos. Se me assusta? Nem por isso, só me deixa expectante.

10/04/2017

Estacionamento em paralelo sem bater em ninguém

autor desconhecido

29/03/2017

Mais um ano

Ao abrir a pasta dos Rascunhos, encontro esta mensagem escrita há muito. Abro-a e percebo num repente que me esqueci de assinalar o meu aniversário, no blogue. Não é grave, só passou um mês e oito dias.



24/03/2017

Fedora

Indiscutivelmente, a tua fedora fica-me melhor a mim

autor desconhecido

09/03/2017

Ser ou não ser um robot

Gosto quando o Blogger me pede para confirmar que não sou um robot. É um momento inesperado de tomada de consciência, um estremecimento nos pilares do meu auto-conhecimento. Quem sou eu? Posso não alcançar respostas absolutas, bastará que saiba o que não sou, não sou um robot. É um descanso para a alma saber que não fui criada para os automatismos, nem para a ausência de sentimentos, e que há veias e órgãos vários dentro de mim, em vez de fios e rodas dentadas. Confirmo na caixa de diálogo que não sou um robot e o meu pensamento escrito é aceite sem mais (a menos que o meu pensamento não vá avec o pensamento do dono do blogue).

08/03/2017

Banho

Preciso de tomar banho. Tenho o corpo dorido e o cabelo numa lástima. Não consigo concentrar-me quando sinto o cabelo menos limpo. Incomoda-me o raciocínio e provoca-me olheiras. Por isso, preciso de tomar banho. Urgentemente. Sentir a água quente a correr na pele, o cabelo envolto em espuma perfumada, ensaboar-me e lavar o cansaço e as olheiras. Vestir uma roupa lavada e secar o cabelo até ao brilho final. Preciso tanto de tomar banho! E já o teria feito, não fora enganar-me a dar ordem de aquecimento ao depósito amigo do ambiente.


A woman uses a crooked back brush equipped with front and rear-view mirrors, 1947.
(Allan Grant—The LIFE Picture Collection/Getty Images)

07/03/2017

Mais que nunca

Tenho vivido mais que nunca. Amado mais que nunca. Rido mais que nunca. Passeado mais que nunca. Planeado mais que nunca. Feito coisas mais que nunca. Intensamente, mais que nunca. E escrito menos que nunca. Porque a vida vai acontecendo do lado de cá, não é preciso registá-la de outra forma.

03/03/2017

Cada vez mais

Incomoda-me a escrita musculada, demasiado trabalhada para parecer complexa, cheia de parêntesis e palavras excessivas. Resisto cada vez mais a textos incapazes de se adequarem à conversa que têm comigo, como se se imbuíssem de uma superioridade professoral enfadada pela minha ignorância. Diminui-me a paciência para a pseudo-intelectualidade. Fujo-lhes. Cada vez mais. Mas mergulho com todo o prazer nos textos aparentemente simples, inteligentes e cultos, que me desconcertam com a palavra certa, no lugar certo. Sabem sempre falar-me do que desconheço, com a sabedoria dos velhos, humildes. Procuro-os. Cada vez mais.

15/02/2017

Dia após dia

Não há como fugir. As responsabilidades estão todas aqui, à minha frente, a exigirem que as assuma e faça o que tenho de fazer. E eu assumo e faço. Faço tudo o que sei e vou inventando à medida que as horas avançam. Dia após dia é assim. Prefiro ignorar as vezes em que quase me fizeram desistir, as vezes em que desejei desistir, as vezes em que estive por um fio. Tem sido um peso difícil de carregar em braços e as promessas de ajuda não se cumpriram, porque há toda uma tradição burocrática que é preciso manter. Mas vieram mãos inesperadas a dar forma ao sonho. E vieste tu a combater a rotina dos dias com uma rotina nova, estimulante e apaixonada. O cursor pisca na folha parada, branca para a frente, à espera que a tua voz desvende todos os mistérios do meu mundo. Entre orçamentos e números de telefone, dizes que me amas e todos os números fazem de repente sentido. Falta pouco! Falta pouco!, dizes, embalando-me o medo, adormecendo a dúvida pequenina que insiste em sentar-se na beira da mesa. Dia após dia é assim. Porque falta pouco, falta realmente pouco. Tu prometeste.

11/02/2017

Estado de espírito do dia

ver o pêlo da alcatifa crescer.


autor desconhecido