Tudo o que me podia ter corrido bem ou mal aconteceu numa
estação de comboio. Para ser justa e sincera, nem tudo, houve alguns momentos
deliciosos em terminais dos autocarros, mas fora esses, as estações dos
comboios representam o início e o fim das minhas sofridas relações amorosas.
Têm de acontecer. É bom que aconteçam. Nem todas são contos de fadas. Nem todas
são descidas aos infernos. Acontecem. Começam, duram o seu tempo e depois
terminam. Entretanto há uma série de lugares e um incontável número de coisas
que se tornam inesquecíveis. Exagero, não é um número incontável, eu é que me
engano e esqueço o que contei e conto as mesmas coisas vez após vez.
Há um conselho recorrente na fase de rescaldo de um amor
perdido: nunca voltar ao lugar onde fomos felizes, ou infelizes, acrescento
eu. Tentei muito tempo seguir essa máxima sem notar melhoras em lidar com a
bagagem do passado que me pesa toneladas. Se o evitar não ajuda, é no enfrentar que
se há de ter algum tipo de resultado. Por isso, decidi enfrentar os meus fantasmas
e visitar cada uma dessas estações, sentar-me em cada um dos bancos e recordar
todos os momentos tatuados no tecido da minha memória, tão profundamente que,
por muito que os queira eliminar, deixaram marcas eternas.
Hoje foi um desses dias. Depois do pequeno-almoço, peguei no
leitor de mp3, nos óculos de sol, apertei o casaco, compus o cachecol e
caminhei todos os passos necessários até chegar àquele banco em particular e me
sentar a observar quem passa. Gosto de me sentar a ver as pessoas passar, há
uma infinidade de pessoas apressadas a saírem e a subirem para comboios que
chegam e partem no tempo de um ai. Trazem malas ao ombro, mochilas às costas,
malas de rodas apressadas. Vão concentradas num objetivo que tanto pode ser
sair da estação e diluir-se pela cidade, como entrar noutro comboio rumo ao
desconhecido ou simplesmente conseguir apanhar o cavalo de ferro que resfolga
de impaciência na linha 2, sentido Lisboa.
Gosto do som dos trolleys no cimento, o arrastar cadenciado
pelos passos, imagino-os cães obedientes, seguindo os donos pela trela, cheios
de vontade de correr pela gare, esticar as pernas, serem por fim livres. Pelo
menos aquela bagagem pode ser facilmente poisada. É com notório alívio que os
seus donos a fazem descansar ao seu lado. Sei que é assim, sentia o mesmo em
todas as viagens que fazia, ansiava pelo momento em que finalmente poisaria
aquele peso tremendo que me endurecia os ombros, esquecendo-me dele até à
estação de saída.
Se ao menos as malas do passado fossem tão facilmente
esquecidas. O assunto das malas e das bagagens deu-me que pensar muito tempo,
foi até bastante angustiante, por ter chegado a pensar que nunca me livraria de
alguns pesos. Depois a vida muda, a realidade choca-nos e perdemos tudo: as
malas, o medo, a coragem, vai tudo. Por uns tempos.
Nestas coisas de malas e bagagens, quem nos conhece nunca é
bom conselheiro, nem que trabalhasse numa loja de uma reputada marca de malas
de viagem. Já se sabe, os ditos funcionários da loja de uma reputada marca de
malas não são os mais indicados para nos darem conselhos sobre as mesmas, não
devemos esquecer que eles querem vender, daí que o objetivo seja convencer-nos
a levar sempre a mais cara, mesmo que não seja necessariamente a melhor. A
opinião deles visa o lucro, é tendenciosa por princípio. A opinião de quem nos
conhece visa desvalorizar os nossos carregos. Ou transportamos o passado em
grande estilo ou vivemos como se não existisse. Nenhuma das opções me agrada.
Resta-me ir substituindo as malas conforme a necessidade, aliviando até o peso
de algumas, mas carregando-as sempre nos braços, até doer, para não me
esquecer que as minhas decisões têm um preço que pode ser demasiado alto
para o prazer que me deram.
Lembro que estava um dia de sol e calor no dia em que me
sentei neste banco pela primeira vez. Nesse dia eu intuía já que o fim estava
ali ao virar da curva, tão real e destruidor quanto a máquina de um comboio.
Inocentemente ignorei a intuição e enchi-me de esperanças. Até àquele dia de
inverno, anos depois, muito frio, em que o vento nos cortava os lábios e
avermelhava a pele, subia pela roupa e gelava os ossos. Até àquele dia de
inverno em que tivemos de nos esconder atrás das placas de informação, para nos
abrigarmos daquele vento gelado, até àquele comboio que chegou, até àquele
adeus que me pesou nas mãos por tempos que só o medo me impede de medir, e
ainda pesa.
Há uma criança a chorar, ao colo da mãe. Acabou de passar um
comboio sem paragem na linha onde há de chegar outro que vai parar e onde vai
embarcar. A fúria com que passou quase a arrancou dos braços da mãe, fez voar
pontas de cachecóis, abrir casacos mal apertados, segurar os sacos e as malas
com mais força, fechar os olhos e virar as costas, para minimizar os danos. Mas
a criança teve medo, medo que aquela fúria a levasse consigo e o colo da mãe
se tornasse uma saudosa recordação do passado, a memória de um lugar onde tinha
sido plenamente feliz.
Foi num dia cinzento de inverno que eu disse o adeus mais
triste de que tenho memória. Lembro tudo, o estacionamento da estação, a fila
para comprar bilhete e as explicações sobre horários, trocas de linhas, preços
e o tempo do trajeto. "Não fica cara a viagem". Não ficava. Não se
repetiu. Lembro do café em frente, do balcão alto, das mesas de madeira escura,
da televisão a fazer companhia ao silêncio. Lembro de nós sentados naquela
mesa, à espera que o tempo passasse. Lembro que os teus olhos se escondiam dos
meus e eu não sabia porquê. "Tudo o que te disse é verdade. Quero tudo.
Quero a sério." Lembro daquele abraço apertado que durou menos tempo que o
necessário - devia ter durado uma semana inteira. Lembro que o comboio chegou,
as pessoas correram pela gare, eu peguei os sacos. "Quando chegares, liga.
Adeus." Lembro tudo o que veio depois e que nunca irei esquecer.
Por trás dos óculos escuros, há lágrimas magoadas que teimam
em fugir, sempre que penso nisto. Talvez fosse mais sensato deixar de
frequentar estes lugares, melhor seria deixar de lembrar. Há momentos em que o
passado me é tão estranho que nem o reconheço, outros em que mal o lembro.
Ainda assim, pesa-me horrores e sinto que, mais do que nunca, estou presa neste
passado assustador. Parece-me tudo demasiado presente, ao mesmo tempo muito
distante, como se as coisas não me acontecessem a mim e eu fosse só uma
espectadora de um mal-amanhado teatro de aldeia, onde só há tragédias de faca e
alguidar e os atores são piores do que o argumento.
"O comboio que
vai dar entrada na linha 1 é o Alfa Pendular com destino a...". Vão
embarcar. Todas aquelas pessoas sabem exatamente para onde vão. Invejo-as. Eu
não sei. Não sei para onde devo comprar o bilhete, nem o número do comboio que
me há de levar. Lá vão elas, com mais ou menos bagagem. A vida tem destas
coisas, feitas as contas acabamos a levar o passado para todo o lado e as
pessoas que conhecemos como uma constante companhia.