Sem fazer planos - Adriana
30/05/2015
28/05/2015
26/05/2015
Epifanias lamentosas
É quando a máquina depiladora avaria que uma mulher finalmente percebe a falta que lhe faz ter um homem em casa.
Do excessivo consumo de água benta e presunção
Diz-se repetidamente que o consumo da presunção e da água benta não tem limite e depende do gosto do freguês. Será verdade, como é verdade que, muito ocasionalmente, me espantem as coisas que escrevo, como se não fossem minhas, como se não as reconhecesse.
às vezes perco as chaves de casa
as ruas são então labirintos opacos e solitários
sigo o trilho das migalhas que me leva para o meu avesso
a minha casa é um pequeno barco que o vento sopra para longe
soltam-se cordéis dos meus dedos gastos pelo tempo da espera
afundam-se búzios de conversas abandonadas
o mar não chega à minha rua, um Minotauro recolhe garrafas
com recados antigos, ri-se por saber que são todos para mim
tenho chaves de todas as portas que fechei quando deixei a tua rua
uma fogueira ensandecida arde na areia da praia
a taurina figura dança danças desajeitadas e ri alto
-- nunca saberás as razões! -- olhos de sangue como facas
o inverno vem todo junto, de uma vez, uma enxurrada de água
que me arrasta para me desaguar num caminho ermo
sacudo os pés no tapete da entrada
às vezes acho chaves de casas
ainda não encontrei a minha
25/05/2015
Indecisões
Tenho cinquenta frascos vazios à minha espera. Cinquenta frascos que me olham com olhares esbugalhados de dourado, do alto do armário. Frascos que não sei se encha com fruta, se com a polpa dos meus dedos vazios.

22/05/2015
Tudo isto se põe
mas há quem insista em colocar à bruta! Diz que é moda linguística.
pôr em dúvida
pôr em ordem
pôr à venda
pôr à mostra
pôr em acção
pôr em dúvida
pôr em ordem
pôr à venda
pôr à mostra
pôr em acção
pôr ao corrente
pôr a par
pôr em campo
pôr-se a salvo.
pôr a limpo uma questão
pôr as cartas na mesa
pôr a boca no mundo
pôr as barbas de molho
pôr o coração (ou as tripas) pela boca
pôr o dedo na ferida
pôr mãos à obra
pôr na boca de alguém
pôr na rua
pôr o carro adiante dos bois
pôr o preto no branco
pôr em pratos limpos
pôr as mãos no fogo por alguém
pôr no olho da rua
pôr nas nuvens.
21/05/2015
Luz do sol
| foto minha |
Quando eu estiver com as raízes
chama-me com tua voz.
Irá parecer-me que entra
a tremer a luz do sol.
20/05/2015
Motivo fútil
Não são sempre fúteis os motivos pelos quais perecemos às mãos dos que amamos?
| Gerlinde Salentin |
Especulação humana
"Em amor costuma dizer-se: «Hoje amo-te mais do que ontem, mas menos do que amanhã», por isso a única lógica racional de que alguma coisa suba amanhã porque subiu hoje deveria aplicar-se apenas ao amor, que é o único infinito deste mundo. Bem, além do amor também a estupidez humana é infinita, como dizia Einstein."
Fernando Trías de Bes, O Homem que Trocou a Casa por Uma Tulipa. Editorial Presença
19/05/2015
Que farei com este livro?
«Era demasiado curto para ser um romance, demasiado desconexo para ser um conto, demasiado realista para ser um poema.»
Yann Martel, Beatriz e Virgílio. Editorial Presença
18/05/2015
Lista para quando atingir o sucesso # 3
A popularidade é boa, não necessariamente eficaz, se no fim não ajudar a pagar as contas.
17/05/2015
16/05/2015
Coincidências
Adormeci no fundo da gaveta um poema escrito sem vontade, depois li isto. Há coincidências assim. (entretanto, o poema saiu da gaveta)
Se não tens vontade de escrever um poema, escreve-o.
A poesia é a procura que o coração não quer fazer.
Fácil é desviar os olhos das flores, impedir os perfumes de se revelarem,
fechar o sol com a persiana.
Escreve, escreve como quem canta aquela canção da qual só sabes metade da letra.
Escrever um poema é inventar a letra até ao fim.
roubado ao Nuno Costa Santos, o marginal ameno
A poesia é a procura que o coração não quer fazer.
Fácil é desviar os olhos das flores, impedir os perfumes de se revelarem,
fechar o sol com a persiana.
Escreve, escreve como quem canta aquela canção da qual só sabes metade da letra.
Escrever um poema é inventar a letra até ao fim.
roubado ao Nuno Costa Santos, o marginal ameno
14/05/2015
Queimem essas bruxas!
Basta a insinuação, a suspeita da prática de artes mágicas, para que a turba cega de raiva e sedenta de justiça se lance em matilha sobre a prevaricadora. Acontece, não poucas vezes, que a vítima de tais ímpetos mora na casa ao lado, na melhor das hipóteses, ou na cidade vizinha. Para a populaça, pouco importa, o que é mesmo preciso é que haja sangue e alguém dê as costas ao pau que desce sobre elas sem piedade.
Ridícula esta turba justiceira, que esquece valores tão essenciais como a amizade e o benefício da dúvida. Há mais Marias na terra, estúpidos! Vão para casa e deixem-se de tristes figuras.
Depois duvido
12.12.99
Foz do Douro
Antes de conseguir adormecer -- as luzes fechadas, os olhos fechados, o corpo fechado -- ponho-me a brincar com palavras ou as palavras põem-se a brincar comigo. Construo frases que vou colando umas às outras com pontos e com vírgulas. Na manhã seguinte não me lembro de nada. Era porque não era importante, penso. Depois duvido.
in Saudades de Nova Iorque, Pedro Paixão, 2000, Livros Cotovia, pág. 25

13/05/2015
O engano do seu coração é o que eles vos profetizam
Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
Não te encurvarás a elas nem as servirás.
Êxodo 20, 4-5
título: Jeremias 14, 14
Falhas no entendimento
São pequenos reizinhos, impantes de poder, pondo e dispondo à sua vontade. Confundem respeito com submissão e falham em entender que a autoridade de que se gabam cabe ao posto que ocupam, não à pessoa que são.
12/05/2015
No fim de tudo
Quando uma mulher se veste, não se veste só para si, ou para os outros, nem para o homem a quem espera, mais ou menos secretamente, provocar. Todos os dias de manhã, enquanto combina peças, cores, formas, materiais, uma mulher veste-se para a ocasião. Ela sabe que uma escolha bem feita pode fazer toda a diferença entre um dia bom e um dia desastroso. Não acreditam?
Ontem, enquanto me vestia, tive de considerar várias variáveis: uma viagem de comboio, um percurso a pé, deambulações num centro comercial e um jantar com várias pessoas, noutra cidade. Era preciso que a escolha fosse confortável, não muito quente, elegante e prática ao mesmo tempo. Eu, como sou simples, decidi-me pelo vestido preto consideravelmente curto e saltos altos. Achei, numa linha de pensamento pouco explícita que a bainha subida ia bem com o calor que transpirava na rua, o preto ser sempre elegante e os saltos de salto porque preciso de renovar as escolhas mais frescas e eram os que estavam mais à mão.
Para não parecer que ia para um funeral, um casaco salmão, a chegar aos joelhos, muito leve, muito fluido. Maquilhagem nenhuma, só um ligeiro bronzeado que já se nota e rímel, camadas e camadas de rímel -- gosto de pestanas dramáticas, bem teatrais, que gritam «maquilhagem» por todos os cílios. E, se com um vestidinho preto eu nunca me comprometo, com dois muito menos.
O dia foi pródigo em ocasiões que seria uma chatice enumerar. Mas a última, caríssimos, essa foi de me levar à histeria, não fosse a minha escolha avisada de indumentária.
Depois de sobreviver a uma espera de mais de meia hora por um comboio, num apeadeiro perdido nos campos do Baixo Mondego, a ouvir bocas de uns trabalhadores da EDP e a encarnar as bochechas; depois de ter conseguido manter os saltos presos aos sapatos durante a caminhada de vinte minutos pelos passeios mal calcetados da Figueira -- odeio a calçada portuguesa! --; depois de ter finalmente desbloqueado um dos telemóveis reminiscentes e de ter conduzido para Coimbra, com um trânsito infernal, uma operação STOP, muito calor e uns sapatos a darem-me cabo dos pés; depois de tudo isto, quando já me dirigia serenamente para o jantar e a escassos metros de estacionar; depois disto, caríssimos, a desfazer a última curva depois dos semáforos, quando foi preciso meter a primeira, o pedal da embraiagem fica em baixo, o carro começa aos solavancos e eu só tive tempo de o enfiar para o único estacionamento livre de uma rua apinhada de carros e em obras, antes de ele estacar de vez.
-- O teu pai vai matar-nos!
Disse a minha mãe, para ajudar à festa. E o carro quase, quase, bem estacionado, mas assim ainda com a traseira de fora, e tudo a apitar, porque eu, que sou simples e tinha um vestido que mal me tapava as pernas, não tinha dois dedos de testa para estacionar mais à frente!
Respirei três vezes, pedi ajuda a pessoas amigas que já estavam no jantar e liguei para a assistência em viagem.
Meia hora depois apareceu o taxista que nos haveria de trazer de volta para casa -- como ele conduzia mal!, e o reboque.
Foi então que a minha escolha se revelou acertadíssima. Do reboque saiu um rapaz todo composto, cabelo espetado, muito moreno, aperto de mão forte, que carregou sozinho a minha Peugeot 306, deu um ligeiro ar de riso, certamente a pensar «mulheres!», e ainda me deixou o número do telemóvel -- foi só porque precisava de saber onde estava, ainda assim...
No fim disto tudo, pensei para comigo, pelo menos tinha um vestido curto e saltos altos.
11/05/2015
Correspondência íntima XX
E onde está a memória do coração? Para mim, durante muito tempo, a separação, mesmo quando era eu a provocá-la, era como uma espécie de morte.
A memória do coração transita para a memória por si só. Claro que guardo um carinho enorme, talvez uma espécie de amor, pelos homens que amei e perdi, mas é só. Essa dor, como se a separação fosse uma espécie de morte, já desapareceu. Ou atenuou até à imperceptibilidade.
A memória do coração transita para a memória por si só. Claro que guardo um carinho enorme, talvez uma espécie de amor, pelos homens que amei e perdi, mas é só. Essa dor, como se a separação fosse uma espécie de morte, já desapareceu. Ou atenuou até à imperceptibilidade.
08/05/2015
Tanta virtualidade mata
Não é preciso viver num sítio recôndito para sentir a solidão. Nem é preciso viver numa ilha para sofrer o complexo de ilhéu. Basta que haja um ahahah escrito em vez de um riso solto; um aparelho que cospe sons, em vez de um corpo que fala com as mãos, os olhos, a boca; cafés de faz-de-conta em salas assépticas de azul e branco, em vez de cadeiras que se arrastam pelo chão e chávenas que batem nos pires. Basta que falte o abraço apertado, a conversa solta, o real em andamento. Tanta virtualidade mata. A mim anda-me a matar devagarinho.
07/05/2015
Lista para quando atingir o sucesso # 2
Este país adoptou um modelo de gestão baseado no mistério: toda a gente sabe que para tudo há muita burocracia envolvida, só não sabe realmente qual é.
06/05/2015
Há relações que não se podem deixar a meio
Sabemos por experiência comprovada que nem todas as relações que iniciamos chegam a bom porto. Não tem de ser mau ou lamentável, se pensarmos que muitas foram bastante questionáveis de pontos tão diversos que seria uma canseira elencá-los. Por isso, pode a desistência ser um bom fim a dar a grande parte dos vínculos. Não a todos, certamente.
Por volta dos seis anos, iniciei uma relação de muito amor e companheirismo com a minha corda de saltar. A intensidade era tal que a levava para todo o lado e conseguia fazer o percurso casa-escola primária, escola-primária-casa em saltitos certos e incansáveis. Tínhamos sido feitas uma para a outra e tínhamos tudo para dar certo.
Sucedeu-nos o que sucede todos, a certa altura, sem que saiba explicar bem como ou porquê, desinteressei-me dela e ela de mim. Creio que a culpa terá sido do elástico, que surgiu na minha vida lá pelos dez anos, mas não posso assegurar. O certo é que eu segui outras vias -- mais tarde veio a piscina, depois as intermináveis caminhadas, depois um ginásio ou outro, depois a falta de vontade até para mexer os olhos -- e a corda foi usada para outros fins (acho que acabou no tractor do meu pai).
Em Setembro do ano passado, porque precisava de me enfiar num vestido de cerimónia e ficar bem nas fotografias do casamento do meu irmão do meio, de quem também fui madrinha, enchi-me de coragem, surripiei uma corda que acho que até tinha comprado muitos anos antes, fiz alongamentos e aquecimentos, que a idade não perdoa, e tentei com todas as minhas forças voltar à paixão incial.
Muitos saltos depois, muita falta de ar depois, muita transpiração e umas pernas um bocadito mais firmes depois, voltámos a olhar-nos com a mesma ternura de antigamente. Era desta que íamos viver o sonho americano!
Entretanto chegou o frio e a chuva e, adivinhem lá!, a coisa esfriou.
Mas esta semana! Ah, esta semana isto vai mudar!
| esta sou eu, quinhentos anos a saltar à corda depois, em jejum perpétuo |
p. s.: desejem-me carregadões de sorte e mandem-me uma botija de oxigénio, sff.
05/05/2015
absolutely fabulous
fábula de
carla
colheres e compotas não te
afastam da acidez do poema:
resiste em ti essa dualidade
latente, não poderes adoçar
a palavra que se sabe amarga
por josé luís, ali, no blogue de leitura obrigatória, novas cartas de marear
Este homem, este homem! Então não é que ele até parece que sabe? ((:
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As musas devem estar loucas,
Da poesia,
Universo feminino
Sou péssima a criar títulos
Dizem-me «não gosto do título, furos abaixo do poema» e eu, que sou rapariga humilde, para além de simples, concordo. Tenho sempre muitas dificuldades com os títulos e tenho pena.
Se alguma vez discordarem de algum que leiam, em qualquer dos blogues, digam e dêem sugestões. Aceitá-las-ei com toda a alegria.
04/05/2015
Os dias têm-se revoltado
| Nigel Scott - Tirage, United Kingdom - 1996 |
uma revolta que veio com a força de uma nortada,
agredindo tudo em redor com chicotes feitos de água
02/05/2015
He Gave Me the Brightest Star
| Adrian Borda ~ “He Gave Me the Brightest Star” |
a forma branca dos sonhos puros
01/05/2015
Lista para quando atingir o sucesso # 1
Nestes últimos meses em que tenho tentado pôr de pé um projecto que muito acarinho, percebi duas coisas:
Pode ser que seja assim com toda a gente. Pode ser que seja só porque é comigo.
- os que me estão mais próximo são os que menos querem saber do que faço;
- os que me estão mais longe são os que mais querem saber do que faço.
Pode ser que seja assim com toda a gente. Pode ser que seja só porque é comigo.
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