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12/03/2019

Homem

não me espartilhes em comemorações vazias
pequenas cedências da tua masculinidade intocável
um par de calças condescendido por saberes que todos
os outros nos armários serão inequivocamente teus

não me chames «mulher» como se fosse um insulto,
sintoma de doença nervosa, quando pensas em segredo
que «as mulheres permaneçam caladas» onde quer que
seja o seu mundo – novo ou antigo, doméstico ou laboral

não me endeuses, não me pendures nas paredes,
nem me assentes em pedestais – sossegada, quieta,
inofensiva, agradável à vista dos teus amigos que fumam
charutos e bebem uísques com sabor a misoginia

não me dês flores nem atenções vazias em dias
marcados no calendário, como se fossem pílulas
douradas, da prescrição masculina contra a histeria,
suplemento vitamínico do sexo fraco

não aceito ser reduzida a um dia. quero o ano inteiro
para ser a mulher que sou eu, quero as mesmas
oportunidades, as mesmas lutas, a mesma retribuição do

meu trabalho, apesar do género que trago marcado no corpo

21/10/2016

O pássaro teimoso

fosse eu uma escritora dotada e há muito que teria discorrido sobre ti, pequeno ser alado que insistes em bater contra o vidro da janela. não sei o que vês, o que tanto te atrai nesses quadrados sujos que resistem ao teu bico. há três meses que teimas em fazer parte dos meus dias -- mais coisa menos coisa, que eu sei que tiraste um mês de férias e me deixaste só do lado de cá. já estive para te deixar entrar, ouvir as tuas razões, mas não creio que nos fôssemos entender. és pequeno, todo negro à excepção da mancha branca que começa no teu pequeno pescoço de pássaro e te cobre a cara toda (não sei se os pássaros têm cara, para o enfeito, tu tens). porque é que és tão insistente? por que não desistes? os homens que amei largaram-me com uma facilidade que disse muito do quanto me amavam de volta e tu, pena negra e branca, não arredas pé. será que me trazes a felicidade e eu ainda não percebi?

12/09/2016

O fim do sótão

A rapariga que vivia num sótão, no meio da cidade, contemplou a vida do lado de lá da janela alta, por muitos dias. Junto ao chão, as pessoas moviam-se em ondas para dentro e fora dos edifícios; os carros seguiam a ordem dos semáforos e um vapor acinzentado subia às alturas. Não olhava para cima -- o céu era as barras invisíveis que a mantinham presa. Numa manhã clara, com restos de calor, abriu os olhos e espantou-se do sótão, da janela, do céu, de tudo. Porquê viver tão alto?, tão longe de tudo?, tão perto de nada? Arrastou caixas vazias pelas escadas acima, empurrou caixas cheias pelas escadas abaixo, esvaziou o sótão e mudou-se. Antes de sair, queimou a caixa de cartão escondida debaixo da cama, aquela que tinha jurado não voltar a abrir e depois abriu mais vezes do que as recomendadas por qualquer pessoa sã. Viu-a arder, crepitando as reminiscências do passado, até ser um montículo de cinza fria. Guardou a cinza dentro de um saco preto, trancou o sótão vazio, desceu as escadas numa pressa fugitiva, abriu a porta do prédio como quem busca a liberdade, deixou que a porta se fechasse atrás de si com estrondo, para sobressalto dos ex-vizinhos do primeiro andar, e afastou-se. O saco ficou largado no primeiro caixote do lixo que encontrou. Agora, a rapariga vive numa casa junto ao mar. É no avesso do céu que deposita as resoluções finais: nunca mais dar nada de seu, quem lhe quiser o mar, pague renda elevada, com contrato vitalício. Se não quiser, não perturbe, não chateie -- as mudanças são cansativas e a rapariga que vive numa casa junto ao mar só quer viver de futuro.

24/08/2016

Ainda o sótão

Depois que fechou a janela, a rapariga que vivia num sótão, no meio da cidade, experimentou muitas formas de trazer de volta a luz aos seus dias. Comprou candeeiros, pintou sóis e céus nas paredes, vestiu-se de branco, para se sentir mais luminosa. Nada funcionou. Contra tudo o que tinha decidido, a rapariga que viva num sótão aproximava-se da janela, no exacto ângulo de antes, quando o homem que pintava céus se sentava no banco de madeira e pintava o que via, fechava os olhos e esforçava-se para mais uma vez o imaginar ali. Depois recriminava-se pela decisão imatura e afastava-se durante dias. Ao fim de muito tempo, quebrou outra promessa e rastejou por baixo da cama, à procura de uma caixa de cartão que tinha jurado não voltar a abrir. Na primeira vez que a abriu, quase se afogou nas lágrimas inesperadas que lhe correram dos olhos como rios excessivos. Já a lua ia alta a iluminar o sótão, quando a rapariga fechou a caixa e limpou as lágrimas. Passou um tempo comprido. Quando o céu fica mais negro, a rapariga que vivia num sótão, no meio da cidade, ainda abre a caixa de cartão escondida debaixo da cama (onde guardou restinhos de tintas, pincéis e esquissos), enganando a solidão com a lembrança do homem que pintava céus e já não mora ali.

17/08/2016

Um sótão e um céu

Todas as histórias têm um inicio. Algumas, por vezes, não se sabe dizer quando realmente começaram, deu a surpresa de serem percebidas em estado avançado. Havia uma rapariga que vivia num sótão de um prédio, no meio da cidade. Não se sabe muito mais sobre ela, só que um dia conheceu um homem que pintava céus. Bateu-lhe à porta e pediu permissão para ver o fim da tarde do alto da janela do sótão. Espantada, deixou-o entrar e observou-lhe com atenção o cuidado com que misturava as cores. Posso voltar amanhã? Pois, sim, voltasse. Ele voltou. Todos os dias, várias vezes, sempre para ver o céu tão próximo, tal era a altura da janela. Este céu é meu, disse-lhe, preciso dele, não mo tires. Se me impedires de ter este céu, morro. A rapariga que vivia no sótão guardou aquele pedaço de céu só para ele. Às vezes, vinham outros homens bater-lhe à porta, mas ela não os deixava entrar, podiam roubar-lhe o céu que já não lhe pertencia. Dele não sabia muito, para além de pintar céus e de ter ficado com o céu da sua janela. Vivia os dias a esperá-lo e, quando as visitas começaram a rarear, convenceu-se que era por razão das coisas muito dele, as coisas de que ela não sabia. Um dia, o homem que pintava céus deixou de bater à porta da rapariga que vivia num sótão. Passaram-se muitos dias de vigia à janela, o coração perto da porta, o céu a perder a cor. Num fim de tarde de Inverno, cheio de nuvens carregadas e luz barroca, a rapariga que vivia num sótão viu o homem que pintava céus debruçado numa janela de um quarto andar, vários prédios abaixo. O céu da rapariga que vivia num sótão de um prédio, no meio da cidade, anoiteceu e para sempre ficou trancado do lado de fora da janela. Fim.

10/07/2016

Teoria de Atar Pontas - aplicação prática

kulturtava:
“ Miguel Cuesta
”
Miguel Cuesta

É preciso que passe significativo passado para que se entenda a história que se viveu. Só a abundância da água correndo por baixo da ponte pode limpar a visão turva do que ficou, amaciar as arestas, desgastar a mágoa.

Agora, quando já passaram anos que não cabem nos dedos de uma mão, e te vou votando ao esquecimento, sei que posso remexer no lastro que me deixaste, sem medo de me ferir. Posso analisar-te à lupa, peneirar-te os defeitos, estender-te ao sol da minha verdade.

Desde o primeiro dia em que me deixaste medir a profundidade dos teus olhos verdes vi a minha vida inteira. Vi o futuro de muitas décadas. Vi-nos velhos, mesmo velhos, de rugas elegantes, os meus cabelos brancos presos no carrapito da pressa, os teus ombros curvados sobre o tabuleiro de xadrez.

Haverias de me ensinar a paciência das peças que se movem segundo um rigor que desconheço e eu, que sempre te obedeci em quase tudo, haveria de aprender com afinco e jogar até te vencer. Depois, jogaríamos às cartas, porque o amor resulta em muito de uma boa mão.

Conversaríamos demoradamente as nossas conversas íntimas, aquelas coisas só nossas, carregadas de ironia, ácidas como só o nosso humor sabia ser.

Teríamos chá às 5 e bolo fresco, todos os dias. E seríamos daqueles tais velhos muito velhos, como só os velhos que se amam sabem ser.

Agora, quando já passaram anos que não cabem nos dedos de uma mão, posso dizer-te num murmúrio apagado pela culpa que procurei no fundo de outros olhos um futuro assim. Não o encontrei, a profundidade ocular dos remexidos mal me cobriu os tornozelos.

Roubaste a minha velhice. Há seis anos que não consigo dar rumo à minha vida.

30/06/2016

Depois da histeria, um pouco de serenidade

Agora que passou o choque da emoção e esta aventura já vai no segundo dia - uma fartura de tempo, portanto, parece-me importante fazer uma pausa e contextualizar aquele texto que pode, ou não, ver a luz do dia.

Não há em mim qualquer vontade de ser famosa, até porque sei muito bem que fama não significa mérito ou qualidade. Também não pretendo começar uma carreira ligada à escrita, por saber que não seria capaz de o fazer.

Tanto assim é que partilhei aqui no blogue, em 2013, uma troca de opiniões com um querido amigo que me incentivava a atirar-me às letras.







Noell Oszvald


Se assim é, porquê este livro?

Este livro é sobre mim (grande novidade) e um acontecimento muito violento que vivi. Foi a forma que tive de entender o que aconteceu, gastar o sofrimento que dali adveio e, de certa forma, arrumar assunto e pessoa. Até conservar-lhe uma série de características que começo a esquecer, quatro anos passados.

Por isso, este é um livro que detesto, profundamente. Quase odeio. A que não consigo voltar, que me deixou prostrada quando escrevi o último ponto final e que quase deu cabo do resto quando há uns meses o revi para a editora dar início ao processo do crowdpublishing.

Mas este livro é também o resultado da última ordem do meu morto. «Escreve», disse ele, depois morreu-me e escrever foi a única forma de o manter vivo dentro de mim. E, por causa desta ordem, comecei mesmo a escrever no blogue, a assumir os meus poemas, a perder a vergonha de dizer «isto é meu!».

Por isso, este é um livro que amo, profundamente. Se chegar a ser papel impresso, guardá-lo-ei junto dos livros que ele me deixou e então o ciclo ficará completo.


Se me agrada ter quase de impingir às pessoas que comprem um livro que desconhecem e podem nem vir a gostar? Nem por isso. 
Se há coisas que gostava que tivessem sido diferentes? Também.
Mas é o que há.

Se gostarem, se quiserem ajudar, claro que ficarei muito feliz. Senão, aceito com toda a naturalidade.


Um amor morto é uma estranha companhia, está na hora de o deixar em paz.

28/06/2016

Uma emoção sem limites

Já aqui tinha deixado duas coisas que me aconteceram e que não contava com elas: escrever um conto para a Preguiça Magazine e ter um programa singelo na Foz do Mondego Rádio. Faltava uma, para acabar a trilogia de atropelos inesperados à paz dos meus dias: o meu livro.

Meus queridos leitores, comentadores, anónimos e todos os que por aqui passam, é com muita emoção e uma pontinha de orgulho e muitos pozinhos de medo que vos apresento aquele que foi um dos projectos mais difíceis que levei a cabo e quase acabou de vez que a minha sanidade mental...




~


O livro está na plataforma de crowdfunding, é certo, e se quiserem ajudar a que ele veja a luz, é convosco. Eu só queria mesmo contar-vos a novidade.


Agora vou ali contar a novidade à família, já volto. :))

27/06/2016

Incerteza

Não sei o que foi feito do mistério. Desapareceu na noite, dissipou-se no ar. Foi levado para o lado negro dos dias, arrastado pelo cansaço das noites. Não sei que foi feito de ti. Desapareceste na noite, dissipaste-te no ar. Não sei o que te arrastou, nem o destino que escolheste. Um cansaço.

Guillaume Kayacan

15/06/2016

O ciclo do pó

Primeiro és pó em estado sólido. Barro duro. Confias a medo nas mãos que te seguram, desejas que não te larguem, enquanto estremeces cada vez que os dedos perdem a força e quase cais. És barro, frágil como o pó solto. Depois, sentes a água ensopar-te os cabelos, escorrer pelas costas, cair-te aos pés. O medo engoliu o desejo, as mãos deixaram-te ao desamparo na rua e seguiram a sua vida, em silêncio. És barro mole. Desfazes-te lentamente debaixo da humidade do tempo, não és mais do que uma papa informe. Que te sobra? Criares duas mãos hesitantes e reconstruires-te, enquanto aguardas com paciência pelos raios do sol. Hás-de voltar a ser duro.

hagakuremarco:
“ lambertmoiroux:
“ Villa Borghese
Rome
avril 2016
”
Rome Caput Mundi
Lambert Moiroux, Villa Borghese, Rome, avril 2016

11/06/2016

De memória

untrustyou:  Jordan Tiberio
Jordan Tiberio

Conheço de memória o teu corpo.
É contra a luz que o vejo nítido.

A distância que vai do meu corpo
à tua ausência
é um nada de caminho
apertado.


31/05/2016

Tive a certeza de que morreria

No dia em que me deixaste plantada a olhar para um rectângulo estático na minha mão, tive a certeza de que morreria. Foi um pensamento exagerado, daqueles que se têm quando se perde o primeiro amor. Não que eu não soubesse que estavas a um passo de o fazer, claro que sabia. Deixa-me dizer isto de outra forma, a minha metade racional sabia, a minha metade emocional estava no auge da negação. Assim faz mais sentido, até porque, como bem sabes, funcionámos sempre às metades e pela metade – só os fracos precisam de coisas inteiras.

Não é de admirar, por isso, que metade de mim se tivesse conformado e a outra metade quase falecido. O que não sabes é que, durante mais de um ano, vivi como se não tivesse lado direito: a cavidade torácica estava vazia e o braço parecia que nem era meu. Fatalidades que só uma descendente de uma linhagem de mulheres passionais e trágicas é capaz de conhecer.

É agora que fazes aquela expressão de quem não diz, mas pensa, tu és realmente muito estranha.

Não foi bonito o que fizeste. Nem nada elegante, vindo de um homem que gostava dos pequenos rituais burgueses e apreciava a formalidade dos gestos. Não foi bonito, não foi sensato, não foi eficaz. Foi cruel, mesquinho e desrespeitoso. Também cobarde.

Naquela altura, ainda não tinha aprendido a arte de deixar cair, deixar ir. Ainda achava, ó inocência!, que uma palavra era suficiente, que devia haver uma certa consideração entre pessoas que se quiseram bem, que as histórias precisam de um fim, quando as personagens sabem que não vai haver continuação.

Talvez agora entendas a reacção exagerada de quase falecimento, e possas até perdoá-la. Era ingénua, era crédula, uma optimista irritante, até me teres ensinado o sofrimento. Continuo igual, só menos ingénua, menos crédula, menos optimista.

Depois que recuperei o meu lado direito, fiz tudo o que me disseste: arranjei um gajo do Norte, um bonzão, culto e tal. Agora é que ia ser! Não foi… Morreu-me! Isto é, morreu-se ele mesmo sem ajuda de ninguém. Achas isto bem? Previste-o nesse teu futurismo certo e inabalável do que eu seria?

Ironicamente, também ele me deixou plantada a olhar para um rectângulo estático, à espera do que não veio. Eu sei que insistias muito na teoria da ciclicidade da História, podias era ter-me dito que seria a minha história a girar neste looping enjoativo.

Não vais levar a mal que te diga que vocês se confundiram um bocadinho, que a voz que me disse a morte dele também me disse a tua, que o lugar onde o deixei também te deixei a ti.

Depois disto, tive a certeza que morreria, não de amor, mas de desgosto. De mágoa. De decepção. Fez-me tanta falta, naquela altura, a habitação do teu abraço, onde tudo fazia sentido, e as tuas palavras a dizerem que tudo ficaria bem, que sobreviveria.

Outra coisa que não sabes é que, por princípio, não acredito nas pessoas. Elas podem elogiar-me, destratar-me, cantar-me, o que de bom e de mau for, que eu não acredito. Não as levo a sério – se for em forma de elegia, menos ainda. Mas em ti eu acreditava.

No outro dia, enquanto procurava informações na nave-mãe, encontrei-te – bolas, continuas um totó de primeira! Depois, fechei a janela e não voltei a querer saber de ti. Então, porquê este texto? Porque me ocorreu escrever sobre isto, enquanto limpava a louça. As minhas motivações sempre foram um pouco estranhas (ou estou só a espantar os meus fantasmas).

Tudo isto lembra-me aquele poema do Vasco Graça Moura, «Blues da morte de amor», que não me fez qualquer sentido quando o li antes de ti e agora, depois de ti, parece ter-me sido dedicado.

já ninguém morre de amor, eu uma vez 
andei lá perto, estive mesmo quase, 
era um tempo de humores bem sacudidos, 
depressões sincopadas, bem graves, minha querida. 
mas afinal não morri, como se vê, ah, não, 
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes, 
ah, sim, pela noite dentro, minha querida. 





Olha, safei-me! Mesmo que não veja para onde, pelo menos larguei-te – a ti e a todos.



O atropelo da maravilha #1

Há coisas que acontecem na vida sem que as imaginássemos (mesmo que até tenhamos tido alguma responsabilidade, por nos termos chegado a elas). Acontecem. O sentimento que fica é de um delicioso atropelo de espanto.

Para iniciar esta série de atropelos de acontecimentos inesperados, uma ligação para a Preguiça Magazine, onde podem ler um conto meu. 

Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. De 15 em 15 dias, há ficção na Preguiça Magazine.

Quero agradecer ao Paulo Kellerman pela oportunidade, ao João Pedro Coutinho pela ilustração, e à querida pessoa que tornou isto tudo possível.


(vou continuar a olhar para a página e maravilhar-me...)

25/05/2016

Pede-se gentilmente...

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A alguém que escreva a minha história e me conte já o fim.

Obrigada.
2 Dezembro 2008



(agarrada a este post que já tinha sido replicado em 2013 veio uma conversa com uma pessoa que nunca vi na vida e de quem só soube o nome, mas que me fez rir com o seu sentido de humor. lamentavelmente, parei o diálogo (que de tão público que era não tinha em si maldade alguma) por causa de valores mais altos. na verdade, fiquei sem a conversa e sem os tais valores, o que me levou à conclusão que, desde que a consciência esteja em paz, nunca se devem perder coisas bonitas por pressão de outrem. anónimo h., se me lês, peço imensa desculpa)

04/04/2016

Podia ser tudo muito passional

Podia ser tudo muito passional. Faces afogueadas, roupa em desalinho. Palavras gritadas na fúria frustrada, talvez uns estalos, uns apertões. Podia haver acusações infundadas, talvez umas lágrimas, as explicações que de nada servem, Podia ser assim. Podia levar-se nos bolsos o eco das perguntas repetidas, desesperadamente repetidas, como estranho consolo nas noites pardas, a adoçar os travos amargos. Não costuma ser assim. As faces sempre pálidas, a roupa composta. Não há palavras, nem ditas, nem gritadas, muito menos repetidas. Há o silêncio asfixiante e a distância que cresce até ao esquecimento. Há uma esponja que apaga tudo, menos a desilusão. É assim que costuma ser. Tudo muito frio, tudo muito racional.

banishedfromcamelot:

Photo by Yo Vo
Yo Vo

30/03/2016

O caminho não se faz a direito

zannycat:


Soft Sand by © Anne Ueland
Soft Sand by © Anne Ueland

Fugimos ao cativeiro do nosso passado antigo com a promessa de um lugar novo, onde viveremos aquilo que não tivemos. Saímos, levando areia nos bolsos, perseguidos pelos fantasmas das pequenas decepções. Haveremos de passar muitos dias no deserto, enterrando os pés na areia, como âncoras, para não voltarmos atrás; lavando os vestidos com a água da nossa mágoa. Os dias hão-de correr, enquanto perseguimos oásis enganadores e apagamos os passos que a areia falha em conservar. Desistiremos do caminho que fazemos para a frente, recuperando o que deixámos para trás. Desistiremos novamente do retrocesso e seguiremos rumo à maravilha, com vigor renovado. Ignoraremos os marcos de pedra que nos gritam que um dia vivemos presos e estão por todo o lado, lembrando aos outros a nossa vergonha. E seguiremos, apesar de tudo, com duas certezas em mente: haveremos de chegar, é a primeira. A segunda: o caminho não se faz a direito.

29/03/2016

Não sei como explicar

Francesca Woodman @Foam Amsterdam
Angel Series, Rome, 1977-1978



Gastei as palavras, não sei como explicar
o que o meu coração sente. É silêncio
que falo, é silêncio que escrevo. Presa num vácuo
que se dilata à medida que o meu corpo se
movimenta.
As folhas dos meus cadernos estão vazias, nos
dicionários os vocábulos têm cores desmaiadas.
Sinto sentimentos que não sei definir, um cansaço
na alma e um peso nas mãos.
Não sei do que falo.
Eu não falo.
Tudo é silêncio. Árido, frio,
silêncio que ensurdece.
Gastei as palavras. Não sei como explicar
o que o meu coração sente.

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Silêncio.

12/03/2016

Larga-se

autor desconhecido

Quando não há mais nada a fazer,
quando é vazio o que enche os olhos
e é agreste o que humedece a boca,
abrem-se as mãos e larga-se.

No forro do coração, guardada
a sete pontos de linha branca,
a esperança de que seja
pela última vez.

07/03/2016

tenho chaves de todas as portas que fechei

quando deixei a tua rua

turnkey symphony
Fotografia de brookeshaden no Flickr

29/02/2016

O meu mar

Mergulho a vista num mar amarelo de ondas sulcadas e navegadas por casas. A espaços bem longos, submarinos de quatro rodas estremecem a quietude que descansa sobre todas as coisas. Os gatos espreguiçam-se ao sol sereno, os pássaros são pequenos peixes alados que habitam a vastidão da terra seca. É bonito este meu mar. Calmo e seguro como o chão, a perder de vista.