26/06/2012

A minha avó

A minha avó sorri-me do papel da fotografia em
que habita, numa moldura em tons dourados e rosa pálido.
A avó que me sorri do papel tem ainda o rosto
de menina que não teve tempo de ser mulher,
entretida que ficou a pousar para a fotografia que a
aprisionou no dia em que a Lei lhe deu permissão
para crescer. A avó que me sorri do papel tem
os meus olhos – ou sou eu que tenho os olhos dela? – a 
mesma forma, a mesma cor acastanhada de escuro,
arredondada e grande. Partilha comigo o nariz, o feitio da testa, 
o jeito do cabelo apanhado e os lábios, mais fino o de cima,
mais cheio o de baixo. A avó que me sorri do papel, sentada à 
janela daquela moldura bonita, não sabe de mim, nem do
que nos aproxima, não sabe que são minhas também as suas 
pernas, de coxas cheias, apenas mais longas. A minha
avó sorri, mas eu não. Tenho nas mãos os brincos
dela, aqueles que ela julga usar no retrato em que
sorri, e sinto saudades dela, a avó que eu não conheci,
que não sabe de mim, que não sabe dos outros netos, que
não sabe que o filho hoje também é avô. A minha avó,
sorrindo no papel, foi-se embora cedo demais. 23 anos era
só o início do tanto que ainda havia para viver.