que habita, numa moldura em tons dourados e rosa pálido.
A avó que me sorri do papel tem ainda o rosto
de menina que não teve tempo de ser mulher,
entretida que ficou a pousar para a fotografia que a
aprisionou no dia em que a Lei lhe deu permissão
para crescer. A avó que me sorri do papel tem
os meus olhos – ou sou eu que tenho os olhos dela? – a
mesma
forma, a mesma cor acastanhada de escuro,
arredondada e grande. Partilha comigo o nariz, o feitio da
testa,
o jeito do cabelo apanhado e os lábios, mais fino o de cima,
mais cheio o de baixo. A avó que me sorri do papel, sentada
à
janela daquela moldura bonita, não sabe de mim, nem do
que nos aproxima, não sabe que são minhas também as suas
pernas, de coxas cheias, apenas mais longas. A minha
avó sorri, mas eu não. Tenho nas mãos os brincos
dela, aqueles que ela julga usar no retrato em que
sorri, e sinto saudades dela, a avó que eu não conheci,
não sabe que o filho hoje também é avô. A minha avó,
sorrindo no papel, foi-se embora cedo demais. 23 anos era
só o início do tanto que ainda havia para viver.
sorrindo no papel, foi-se embora cedo demais. 23 anos era
só o início do tanto que ainda havia para viver.
