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20/07/2015

Sê inteiro!

15/12/2013

Chamem-me Alberta

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

10-7-1930
O Pastor Amoroso”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
  - 100.

05/11/2013

Tudo é ridículo, até os e-mails de amor

Todos os e-mails de amor são
Ridículos.
Não seriam e-mails de amor se não fossem
Ridículos.

Também escrevi em meu tempo e-mails de amor,
Como os outros,
Ridículos.

Os e-mails de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículos.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
E-mails de amor
É que são
Ridículos.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
E-mails de amor
Ridículos.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Desses e-mails de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).


24/10/2013

Let the rain fall

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Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.
Alberto Caeiro

25/06/2013

Para os citadores compulsivos de Pessoa

Citar Pessoa, quer seja em citação normal ou encaixada numa imagem profunda, tornou-se numa espécie de moda, de atestado de cultura e conhecimento literário. Infelizmente, há que dizê-lo com toda a frontalidade, o resultado costuma ser diverso e o citador apresenta-se apenas como um pseudo-literato que não distingue Pessoa dos muitos apócrifos que circulam livremente  no mundo cibernético, nem se dá ao trabalho de verificar as fontes.

Não temam, ousados citadores! A pensar em todos nós e na nossa boa figura literária, a Casa Fernando Pessoa, estendeu-se aos blogues e tem uma hiperligação para um laboratório de citações pessoanas que inclui o acesso ao texto original.

Vá! Ide lá citar o Fernando, mas com juízo!

13/06/2012

Finge tão completamente


Hoje, se fosse vivo, Fernando Pessoa completaria 124. É uma idade considerável para quem quisesse manter a sanidade mental num país como o nosso.
É, do meu ponto de vista, dos autores portugueses que menos consenso gerará. Se por um lado uns o amam à saciedade, por outro  lado outros odeiam-no com todas as forças do seu ser. Neste último grupo estão muitos alunos do 12º ano que estremecem só de pensar que Fernando Pessoa possa sair no exame, o que sucede frequentemente. No primeiro grupo, poderia incluir os pseudo-leitores do poeta que espalham supostas frases e pensamentos que, se eles realmente lessem Pessoa, saberiam que não têm qualquer ligação com os outros escritos. Por isso, esses não contam.

Para comemorar a data, deixo-vos Autopsicografia, o poema que tem feito estremecer de medo-pânico muitos examinados, os tais de que já falei. 

Durante anos não o entendi, não fui capaz de absorver a sua simplicidade tão complexa. É certo que o estraçalhei em análises temáticas e formais, é certo que o li à luz de todas as luzes que sucessivos professores e estudiosos acenderam, para me iluminar o caminho, sem que eu saisse da escuridão. Depois eu própria comecei a escrevinhar e a escrevinhar sobre assuntos que me eram tão caros que, embora precisasse de os pensar escrevendo, não me podia permitir mostrá-los tal e qual eram. Foi aqui que tudo fez sentido, no confronto entre o coração e a razão.


Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.