Tenho uma incapacidade assumida de lidar com os silêncios que não compreendo ou que não me são explicados. São na minha vida como uma pedra dentro do meu sapato, uma nódoa negra profunda que não sara e onde tudo, por mais suave que seja, vai bater -- com o agravante de não conseguir transformar os escolhos em preciosas pérolas, porque não passam de pedras.
Ocorreu-me isto ao ler a Isabel, sobre o desvirtuar da oferta de disponibilidade ao nível das relações interpessoais.
Comentei, com toda a sinceridade já ter desistido de entender por que razão me brindam com estas formas tão pouco honestas de relacionamento. Foi a resposta da Isabel que causou o punch que me tem andado no pensamento desde então: Carla, para mim estes silêncios não têm nada para lutar; é deixar cair e ir à vida.
Será que se consegue que seja sempre assim? Ou o descuido do outro bate-nos em cheio como a traição de Brutus?
Digo, pela minha experiência, que o processo é tão ou mais doloroso e longo quanto eu acreditava na pessoa em causa e não esperava dela aquele comportamento. Não é que não perceba o que me está a ser feito; não é que não saiba ler os sinais que vão surgindo: o aumento gradual da distância, a diminuição do tempo partilhado, o decréscimo de assuntos essenciais nas conversas, o aumento de todas as contrariedades e chatices; as horas que se tornam dias, que se convertem em semanas, que redundam em meses de silêncio mascarado de qualquer coisa que não chego a perceber.
Claro que eu percebo. Claro que eu sei o que vai sair dali. A luta está em forçar um bocadinho, ir tentando perceber o que se passa a ver se há algum mal-entendido que possa ser resolvido. Mas a luta acaba, porque o cansaço leva a melhor. Percebe-se e engole-se em seco.
Tu quoque, Brute, fili mi!
Porque o que fica disto tudo é a decepção. Esperava de todos menos daqueles em particular e é dali que vem, é exactamente dali que me ferem até à morte. Sou César espantada e incrédula. Não era preciso isto, bastava dizer que não se queria mais.
Haverá vida depois disto tudo, mas é uma vida muito mais cautelosa.



