Descobriu o poder da palavra «Mãe» e de como ela lhe abre portas para a novidade. Descobriu também a entoação certa para captar a atenção e ter as respostas que precisa.
«Mãaee, fkfgsldjÇ?»
«Sim, é uma maçã.»
«Mãaee, lhksjsal?»
«Sim, é uma uva.»
«Mãaee, kfkgjjasj?»
«Sim, é uma pera.»
E daqui vai toda uma conversação, por horas e horas.
Queríamos trocar a leitura, ambos embirrávamos com outras escolhas e suspirávamos por uma mudança. Um presente que afinal não o foi podia ser a nossa salvação. No entanto, tínhamos de escolher quem começava e quem esperava. Tarefa difícil, tendo em conta o autor e a curiosidade que nos roía. Decidimos ler ao mesmo tempo. Agora, todas as noites, antes de dormir, eu leio páginas após páginas e ele ouve. Assim vamos namorando - rindo das piadas ao mesmo tempo, comentando o texto, devagarinho, apaixonadamente. E é tão bom.
De repente, o passado estranha-se. Está já tão longe, tão remoto na memória que só um exercício rebuscado de reflexão o pode resgatar - não por inteiro: partes, resquícios, fragmentos. Mais que perfeito, finalmente arrumado para não voltar a interferir no futuro.
Gastamos-lhe o nome. Some-se em segundos, com uma agilidade de gato. Esconde-se nos espaços esconsos da casa. como fosse um rato. É um bichinho-carpinteiro que só sossega quando dorme. Nem à chamada do nome responde. Às vezes, apenas ri.