Era altura de este texto ver a luz do dia. Assim se tece a teia com os fios da imortalidade.
Long Time - The Gift
'Cause they
say home is where your heart is set in stone
where you go
when you’re alone
Gabrielle
Aplin, Home
Não sei o que vim fazer a
casa. Não sei o que vim fazer aqui. Vim levada por um qualquer impulso de
encontrar o que me falta e o que me falta és tu. Não posso não rir com este
pensamento que é em si mesmo tão certo como esta necessidade de voltar geograficamente
a este lugar e rio porque tentar encontrar-te na minha casa é como querer neve
em pleno agosto.
Ainda assim, percorri os
quilómetros que se intrometeram entre o lugar para onde fugi – de ti, do
passado, de mim –, e o espaço físico que delimita a minha casa, a casa que
moldei com as minhas mãos e onde desejei albergar-te. Não sei dizer por que
caminho vim, por quem passei, quantas rotundas contornei. Não sei dizer o tempo
que demorei, quantos carros me passaram, nem quantos passei. O negro da noite é
tudo o que sei dizer. E a tua imagem em cada árvore, em cada estrela, em cada
pedaço de alcatrão, em cada sinal, em todo o lado.
Subo a rua, remexo a mala,
tateio o molho à procura da chave certa, introduzo-a na ranhura e sinto
fugir-me das mãos a porta. Paro à entrada. Há um instante insano que me prende,
me tolhe o passo necessário que me falta dar, me aguça os sentidos à espera que
tu te movimentes. Ao instante de esperança louca, segue-se todas as vezes a
desilusão. A minha casa nunca te viu, nunca te sentiu, nunca te cheirou. A
minha casa não sabe a que soa o teu riso, nem te reconhece pela música, nem
pela cadência dos passos.
Fecho a porta, poiso tudo o
que trago no chão da cozinha, subo as escadas. E tu fechas a porta comigo,
poisas o que trazes no chão da cozinha, sobes as escadas atrás de mim, segues
para a varanda com vista para os telhados das outras casas, fumas um cigarro,
paras o tempo. E eu paro contigo. Um instante que se suspende e onde se repetem
todos os momentos do passado, uma pausa em movimento perpétuo, circulando por
todas as memórias boas, polindo os momentos maus ou incómodos até ao sublime da
saudade, escrevendo em vidros embaciados as intenções de futuro que hão de ter
sempre a perfeição da irrealidade.
A minha casa é uma concha
vazia, um somatório de paredes e chão e janelas e portas, divisões desprovidas
de alma, de calor, de corpos respirando vida, transpirando vida, criando vida.
A mesma casa que gerou muitas conversas, alguns risos, afirmações irrefutáveis,
devaneios e muitos planos, está agora ornamentada com silêncio, mágoas e
fragmentos do que te pertenceu e eu trouxe nos olhos e espalhei pelos espaços.
Continuo sem saber o que vim
fazer aqui. A tua presença manifesta-se pela tua não presença, tu não estás
aqui, vieste comigo. Sou eu que te levo para todo o lado, mesmo quando quero
fugir de ti. Sou eu que guardo nas mãos os pedaços do que não foi e eu quis
tanto que tivesse sido. Sou eu que te prendo, que te enlaço, que te teço na
pele, que te fundo nas veias, que te respiro e imprimo em mim. Sou eu que tenho
como futuro um pretérito mais que perfeito, porque o futuro não existe e foi
vivido todo no presente que passou.
E o negro da noite cá
dentro. E a tua imagem em cada parede, em cada luz, em cada pedaço de chão, em
cada objeto, em todo o lado. E eu parada no cimo das escadas. E eu sem
conseguir mover-me em qualquer direção que seja, para me perder de ti.
Fecho os olhos e ouço-te
límpido e claro como se estivesses comigo. Chove-me nos olhos, chove-me por
dentro; trovejam-me soluços que me estremecem, encharcam-me as lágrimas que a
tua ausência chora; escurece-me os ossos a tristeza da tua perda. Estou tão
cansada. Foge-me o entendimento necessário para alcançar o que vim fazer aqui,
para discernir que impulso perverso me trouxe a este lugar, para determinar as
razões que te tornam tão presente quando eu tenho feito tudo para seres
passado.
Num mesmo momento,
censuro-me, enfureço-me, choro de raiva, de saudade. Revolto-me contra a minha
incapacidade de seguir um caminho que não este, de escolher partir sem
remorsos, nem incertezas. Porque o coração pesa-me no peito e a minha mente é a
minha pior inimiga. As coisas ganharam um tom desmaiado, afiguram-se-me fiapos
de qualquer coisa antes grandiosa, têm pouco valor, menos sentido. Vejo-as
desgastarem-se sem pena, as ruínas do meu mundo que compõem o caos em que me
tornei. Limpo as lágrimas dos olhos, mas elas insistem em correr. Não deveria
haver razão para tanto sofrimento, não deveria ser possível que alguém
infligisse a outro tanto tormento. Eu deveria ter sido mais rápida a antecipar
o dano que me causarias, negligenciei a minha intuição, ceguei-me
propositadamente para os indícios que se espalharam à nossa volta. Agora o
tempo segue o seu curso de se arrastar pelas horas e de me arrastar com ele.
Afogo soluços teimosos e cedo perante o inevitável que é a falta que me fazes.
O tempo continua parado. A
minha casa está vazia. Eu estou vazia.
Tu não estás aqui.