O silêncio espalha-se como leite derramado pelo chão, a respiração é rápida e leve porque qualquer movimento mais agressivo a pode quebrar. Os olhos perdem-se pelo espaço. Ela não vê nada, não ouve nada, não sente nada, só aquele contínuo de sofrimento que toma conta de todos os ossos e músculos e pedaços de si, aprisionado pelos lábios apertados na força do equilibrio que lhe foge. Não sabe o que pensa. Nega-se à realidade. Às veze veem-na andar, não sabem que são as pernas que a levam, que a carregam sem vontade de voltar. Fecha os olhos, perde-se no tempo.
- Tens de esquecer e seguir em frente.
Duas orações que a agridem, copuladas na boa-vontade, que lhe abrem bruscamente os olhos e a fazem pestanejar. Esquecer. Seguir em frente. Esquecer. Pensar noutras coisa. Esquecer... O comentário piedoso que as bocas deveriam guardar para si. Não entende o sentido do que lhe dizem. Como é que se esquece? Como é que se continua a viver, fazendo de conta que uma parte do seu passado não existiu? Como é que se substituem as pessoas que se amaram?
Fecha os olhos, aquieta-se, suspende-se do mundo que a rodeia e continua a girar indiferente.
Sente-se agoniada, fisicamente enferma de uma chaga que lhe consome a alma.
Não entende de que serve viver se a existência de cada um é apagada no dia em que morre. Não entende para que se ama, se gosta, se cuida, se tudo o que resta é esquecer. Não entende esta violência que nos torna nada, nem pensamento, nem saudade, nem cicatriz na memória. Que legado é o nosso no mundo?
Ouve-os sem os escutar, os olhos secos. Quer gritar-lhes que melhor seria que nos deixássemos todos, vivêssemos isolados e sem contacto, desistíssemos de nos dar e de querer receber. Melhor seria que fôssemos apenas indivíduos sem nome, tornados lápides e números no cemitério da cidade. Não grita. Olha-os com tristeza e mágoa. Ignorantes! Não sabem nada, não veem que também eles serão esquecidos, que também a vida deles é inútil.
Continua calada, inerte. Num futuro que há de acontecer sem hora marcada, sabe que lamentará menos, chorará menos, sentir-se-á menos magoada. Esquecer, não esquecerá.
