Sempre
gostei de azeitonas. Desde pequena que me seduzem com a sua cor, forma e sabor,
embora as comesse em quantidades controladas, por ser frequente engolir os
caroços, acidente de percurso que nem pais nem avós viam com bons olhos. Para além
disso, diziam-me que faziam mal, causavam borbulhas, constrangiam as cordas
vocais, davam dores de estômago e maleitas afins que atacavam criancinhas
gulosas, mas poupavam os adultos, talvez porque a doença seja ela também muito
velha e se queira vingar da juventude das crianças pequenas.
Preferi
durante muitos anos as pretas imaculadas, lustrosas, grandes. Torcia o nariz às
retalhadas, mais pequenas, imperfeitas e irregulares. Diziam-me que faziam
melhor, não eram tão ácidas, mas a minha arrogância ignorante – é uma parceria
comum, que vive muito da partilha de estados – rejeitava o produto da oliveira
abaixo da perfeição. Há uns anos, aprendi a gostar das verdes, sempre das
tamanho XL, sempre as mais perfeitas.
No entanto,
se há algum conveniente na passagem do tempo e do progressivo envelhecimento –
ou amadurecimento, se tiverem alguma questão mal-resolvida com a palavra
«velho» - está na capacidade de apreciarmos o que antes rejeitávamos: o prazer
de comer azeitonas retalhadas.
O sabor
é diferente, perdem-se na boca e são o casamento perfeito para pastéis de
bacalhau, presunto, chouriça assada, pão simples e tudo o mais que queiramos
combinar, porque o amor de uma azeitona está acima dos tipos convencionais.
Aconteceu-me
o mesmo com as pessoas. Na minha infantilidade juvenil, acreditei que as mais
perfeitas e agradáveis à vista eram as melhores; hoje sei que o prazer da
degustação está nas retalhadas, nas que têm cicatrizes e golpes e marcas
muitas, lastro mais, que não são perfeitas, nem uniformes, que têm um quê de
outsiders, que sabem o que é isto de viver, pelo menos não se negaram, e por
isso são menos ácidas, menos iguais, mas muito mais saborosas e vão bem com
todos os estados de alma.