31/03/2014

Todas as noites

Silvia Grav




todas as noites volto para uma cama vazia, invariavelmente vazia, com duas almofadas para um só corpo e espaço a mais que nunca é ocupado. todas as noites volto para uma cama vazia, onde pontualmente se deita um gato, onde pontualmente se perde um livro, onde nem sempre o sono vem.





29/03/2014

Sorria!

polaroid_by_michellis13


Retrato

Matilde Rosa Araújo

Vá! Sorria! Sorria!
E meteu a cabeça na manga negra.
E eu sorri para tirar o retrato
Sem vontade nenhuma.
E morreu um passarinho dentro da máquina.
Sem um pio, porque sorri assim.
E o fotógrafo, coitado,
Tirou a cabeça da manga negra,
Com os olhos cheios de penas do passarinho.
Clic! Já está…
(Que modo triste de ganhar a vida…)
Sorria! Sorria!

28/03/2014

Campanha SÓ MAIS UM!

Para que o número dos seguidores atinja os 200 - a bem do meu equilíbrio mental, é que me perturba vê-lo ali estacionado sem andar nem desandar (claro que pode desandar, mas isso é o risco inerente).


26/03/2014

Quando por fim vier o fim

autor desconhecido

Quando chegar o fim e eu já não reconhecer as minhas mãos,
quando o meu coração se cansar de sentir e os meus olhos de imaginar,
quando as folhas de todos os livros ficarem em branco
quando as palavras desaparecerem
então, pegarei em objectos antigos e inventarei
novas formas de me perder.

24/03/2014

Esta noite, dormirei com um gato

Farfas - o único gato com tomates, cá em casa

21/03/2014

Perdoem-me a imodéstia

Hoje é Dia Mundial da Poesia e, para celebrar, partilho o álbum dos meus poemas no Facebook. «Oh!, pelos deuses, rapariga! Mas quem está interessado em saber?» Sei lá eu? Talvez um caça-talentos literário que se vai interessar tanto pelos meus poemas que os vais querer publicar e eu vou ficar rica e famosa! Não? Ah... mas vocês são tramados! 

Aproveito para dizer que o blogue Rimas Imperfeitas agora é Cais das Letras -- quem quiser actualizar a ligação, esteja à vontade.

Agora que já pratiquei o meu auto-elogio diário, deixo-vos com este pensamento: «a poesia come-se a todas as refeições, nunca façam dieta»!


deadendsoul


O teu respirar é belo

O teu respirar é belo
como belos são os raios de sol na tua pele
ao nascer da manhã que descubro do lado de lá das cortinas.

20/03/2014

Era a primavera que chegava






No bosque onde costuma correr, as árvores sentiram as raízes estremecer e agitaram os ramos, celebrando o tempo novo que se adivinhava. Num ramo novo de uma árvore antiga, a primeira folha despontou. Era a primavera que chegava.

Num original que há-de circular por aí... 

Vontades que despontam com a primavera

Jeanloup Sieff, Paris 1956

Quero fazer contigo
o que a primavera faz com as cerejeiras.

Pablo Neruda

14/03/2014

Queremos a Seleção De Bigode No Mundial


É o nome de uma página no Facebook, como não podia deixar de ser, para a qual acabaram de me convidar. Podemos ler que a intenção da página é «De forma a identificar a nossa seleção com as raízes, pretendemos que este ano os jogadores levem um tradicional bigode para o mundial. Seria algo bonito.»



Ora bem, seria bonito para quem? Para os jogadores? Adeptos? Fotógrafos? Mulheres que não sejam propriamente adeptas a não ser do sexo masculino?

E em que é que o bigode confirma a nossa portugalidade (o que quer que isto seja)?

E os jogadores que não tiveram a sorte de serem bafejados por uma barba de fazer concorrência ao Barbas ou ao Adamastor fazem o quê? Implantes? Como os hipsters?

Nesse caso, não estaremos a estragar a vida a um movimento underground que se quer afirmar por usar um adereço facial que já não lembra a ninguém?

Já agora, bigode, mas que bigode? Um daqueles farfalhudos à labrego (perdoem-me os meus leitores que tenham um) ou um bigodinho à francês? Nesse caso, onde é que enfiamos a portugalidade?

Estou petrificada com tanta dúvida. Pelo sim, pelo não, é melhor levarem um bigodinho moda Alemanha Anos 30, até porque é para lá que vai o recibo da festança -- a factura pagamos nós.

11/03/2014

Kiss me till the end of time

Depois de ver este vídeo partilhado por alguns amigos, resolvi-me a clicar na ligação e a vê-lo.



O cerne do vídeo não é o primeiro beijo no sentido de ser O primeiro, mas o primeiro que se partilha com alguém. Confesso que sorri o tempo inteiro, por me rever no embaraço, na dúvida, naquele aproximar desejoso, no tocar dos lábios pela primeira vez.

Não é que precise de muito esforço para voltar a um dia particular de muito grata memória, mas hoje -- porque hoje há beijos que precisam de ser dados em silêncio -- foi como se voltasse novamente àquele lugar, àquela hora, àquela mistura de medo e vontade (e se ele não quer e eu quero tanto?). As mãos ainda me tremem um bocadinho, assim como as pernas e o coração, e o frio na barriga (talvez seja o bater de asas das borboletas) não passou.

Depois do medo vencido, dos lábios tocados, de um suspiro que não se segura, o calor de um corpo que nos ampara, a consciência plena do outro e dos efeitos que nos causa - mesmo que um relógio suspenso continue a debitar realidade na passagem dos minutos.

O primeiro beijo que se dá a alguém é bom e eu permito-me repeti-lo a cada reencontro.

10/03/2014

Um chá de limão e uma aspirina

É nas alturas em que me sinto doente, ou que estou comprovadamente doente, que sinto mais falta das pessoas que me faltam. Há todo um esforço heróico de resistência à saudade que se esvai em menos de nada. Os estados de doença prestam-se a fragilidades emocionais mais vincadas do que súbito abaixamento do número de glóbulos brancos no sistema -- não me lembro de um único episódio de Era uma vez o Corpo Humano em que as defesas da alma lutassem contra diabretes negros em forma de S (Saudade ou M (Melancolia). No fundo, o que um corpo a resistir a um vírus quer é mimo, abraços apertados, carinhos no cabelo, beijos na testa, como quando está são.

Podia trocar-lhe o género

Haverá maior fortuna do que a de encontrar uma mulher que nos fascine o bastante para que corrijamos tudo e sejamos melhores?

A mulher sagrada
Valter Hugo Mãe, revista 2, Jornal Público, Domingo dia 9 de Março de 2014.

07/03/2014

Diálogos improváveis

-- Ambrósio!
-- Sim, senhora.
-- Apetecia-me tomar algo...
-- Quer que lhe traga um Ferrero Rocher?
-- Não, Ambrósio, o que eu queria era algo melhor!
-- Melhor?
-- Sim, o que eu queria era abrir uma excepção.

06/03/2014

A importância de escolher uma boa azeitona

Sempre gostei de azeitonas. Desde pequena que me seduzem com a sua cor, forma e sabor, embora as comesse em quantidades controladas, por ser frequente engolir os caroços, acidente de percurso que nem pais nem avós viam com bons olhos. Para além disso, diziam-me que faziam mal, causavam borbulhas, constrangiam as cordas vocais, davam dores de estômago e maleitas afins que atacavam criancinhas gulosas, mas poupavam os adultos, talvez porque a doença seja ela também muito velha e se queira vingar da juventude das crianças pequenas.

Preferi durante muitos anos as pretas imaculadas, lustrosas, grandes. Torcia o nariz às retalhadas, mais pequenas, imperfeitas e irregulares. Diziam-me que faziam melhor, não eram tão ácidas, mas a minha arrogância ignorante – é uma parceria comum, que vive muito da partilha de estados – rejeitava o produto da oliveira abaixo da perfeição. Há uns anos, aprendi a gostar das verdes, sempre das tamanho XL, sempre as mais perfeitas.

No entanto, se há algum conveniente na passagem do tempo e do progressivo envelhecimento – ou amadurecimento, se tiverem alguma questão mal-resolvida com a palavra «velho» - está na capacidade de apreciarmos o que antes rejeitávamos: o prazer de comer azeitonas retalhadas.

O sabor é diferente, perdem-se na boca e são o casamento perfeito para pastéis de bacalhau, presunto, chouriça assada, pão simples e tudo o mais que queiramos combinar, porque o amor de uma azeitona está acima dos tipos convencionais.


Aconteceu-me o mesmo com as pessoas. Na minha infantilidade juvenil, acreditei que as mais perfeitas e agradáveis à vista eram as melhores; hoje sei que o prazer da degustação está nas retalhadas, nas que têm cicatrizes e golpes e marcas muitas, lastro mais, que não são perfeitas, nem uniformes, que têm um quê de outsiders, que sabem o que é isto de viver, pelo menos não se negaram, e por isso são menos ácidas, menos iguais, mas muito mais saborosas e vão bem com todos os estados de alma.

Universo feminino

Tenho sonhos burgueses; n’alma simples




05/03/2014

Natureza humana

Let me be your ruler, you can call me queen bee
And baby I'll rule I'll rule I'll rule I'll rule
Let me live that fantasy
Royals - Lorde




04/03/2014

Proibição do dia

Não perderás nunca o fôlego a meio de coisas importantes.

02/03/2014

Natureza humana







Não é preciso muito, para me habituar às coisas boas.
Não é preciso muito, para logo lhes sentir a falta.