Sou, de momento, uma pessoa muito indignada. Tão indignada que estou quase a cair na tentação de falar de mim na terceira pessoa, bem ao gosto de muitos jogadores de futebol, até porque é de futebol que se trata este irritado texto.
Sempre defendi que os jogadores de futebol, treinadores e afins, ganhavam dinheiro a mais para o que faziam. Sempre me estarreceu a facilidade como lhes perdoam erros de bater com a mão na testa e maus resultados. Qualquer um que tenha a felicidade de estar a trabalhar sabe que se estiver dois anos a acumular erros gravosos no seu trabalho tem a porta da rua como promoção. Mas os queridos, não! É sempre culpa de alguém que as alminhas se arrastem pelo campo e rematem sem convicção e falhem golos de fazer saltar lágrimas. Os jogos são duros? Ser jogador é duro? Pois, ser agente da autoridade neste país também - um dos que cometeu o erro de falhar o disparo está preso! -; pois, ser médico e trabalhar horas sem fim também é; pois, todos dão o litro naquilo que fazem, ganham muito menos e perdoa-se-lhes infinitamente menos.
Acabam as competições e os senhores vão para férias de luxo e, se preciso for, na próxima época vão jogar para a concorrência, porque o dinheiro move o mundo do futebol.
E depois há os idiotas dos adeptos e dos simpatizantes que andam a fungar pelos cantos e vão ter uns diazinhos da caca, sem férias de luxo, sem salários que lhes permitam afogar as mágoas em disparates.
E depois há os idiotas que são capazes de viver mal, mas o lugar está sempre cativo no estádio e o clube é seguido como uma religião.
Estou indignada. Não, estou indignadíssima!
Quando treinava uma equipa de futsal, vi aqueles miúdos dar tudo por tudo, jogarem com dores, esfolarem-se todos, pelo prazer de jogar futebol, por uma medalha no fim, pela responsabilidade que sentiam por toda a equipa, porque eu acreditava que eles eram os melhores e eles não me queriam deixar mal.
Sofríamos, gritávamos, perdíamos e ganhávamos. Mas no fim, todos tínhamos a consciência que não conseguiríamos fazer mais.
Se calhar, é isto que faz falta, voltar ao pré-Lei Bosman, baixar consideravelmente os salários e exigir de todos profissionalismo - no mínimo - e respeito por quem se dispõe a acreditar neles.