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19/07/2019

Dos papões

Atrás da porta, erecto e rígido, presente,
Ele espera-me. E por isso me atrapalho,
E vou pisar, exactamente,
A sombra de Ele no soalho!


-"Senhor Papão!"
(Gaguejo eu)
"Deixe-me ir dar a minha lição!
"Sou professor no liceu..."

Mas o seu hálito
Marcou-me, frio como o tacto duma espada.
E eu saio pálido,
Com a garganta fechada.


Perguntam-me, lá fora: "Estás doente?"
- "Não!", (grito-lhes)... "porquê?!" E falo e rio, divertindo-me.
Ora o pior é que há palavras em que paro, de repente,
E que me doem, doem, doem..., prolongando-se e ferindo-me...


Então, no ar,
Levitando-se, enorme, e subvertendo tudo,
Ele faz frio e luz como um luar...
E ouço-lhes o riso mudo.


- "Senhor Papão!"
(Gaguejo eu) "por quem é,
"Deixe-me estar aqui, nesta reunião,
"Sentadinho, a tomar o meu café...!"



Mas os mínimos gestos e palavras do meu dia
Ficaram cheios de sentido.
Ter de mais que dizer..., ah, que maçada e que agonia!
Bem natural que eu seja repelido.


Fujo. E na minha mansarda,
Volvo-lhe: - "Senhor Papão!
"Se é o meu Anjo-da-Guarda,
"Guarde-me!, mas de si! da vida não."



O seu olhar, então, fuzila como um facho.
Suas asas sem fim vibram no ar como um açoite...
E até no leito em que me deito o acho,
E nós lutamos toda a noite.


Até que, vencido, imbele
Ante o esplendor da sua face,
De repente me prostro, e beijo o chão diante de Ele,
Reconhecendo o seu disfarce.


E rezo-lhe: - "Meu Deus! perdão...: Senhor Papão!
"Eu não sou digno desta guerra!
"Poupe-me à sua Revelação!
"Deixe-me ser cá da terra!"



Quando uma súbita viragem
Me faz ver (truque velho!...)
Que estou em frente do espelho,
Diante da minha imagem.


José Régio


27/06/2019

Capital

Nova Iorque - David Yu



Casas, carros, casas, casos.
Capital
              encarcerada.

Colos, calos, cuspo, caspa.
Cautos, castas. Calvos, cabras.
Casos, casos… Carros, casas…
Capital
               acumulado.

E capuzes. E capotas.
E que pêsames! Que passos!
Em que pensas? Como passas?
Capitães. E capatazes.
E cartazes. Que patadas!
E que chaves! Cofres, caixas…
Capital
                acautelado.

Cascos, coxas, queixos, cornos.
Os capazes. Os capados.
Corpos. Corvos. Copos, copos.
Capital,
              oh! capital,
capital
             decapitada!



David Mourão-Ferreira (1927-1996)

23/05/2019

O aviador interior

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O AVIADOR INTERIOR

O ar não se vê
não se sente não se ouve
mas quanto mais se sobe
mais não sei quê

E quando se sobe
sem sair do chão?
quando a cabeça se move
e o resto do corpo não?

A cabeça subindo
pelo lado de dentro
e o teu pensamento
tão limpo e tão lindo

Tão maravilhoso
como o dum matemático
tão rigoroso
como o dum mágico

Embora às vezes não pareça
embora te digam que não
tens um campo de aviação
dentro da tua cabeça.

Manuel António Pina

21/03/2019

O grande mistério que há na luz do dia



Assim que te despes - Cristina Branco
poema: David Mourão-Ferreira

Assim que te despes
As próprias cortinas
Ficam boquiabertas
Sobre a luz do dia

Os teus olhos pedem
Mas boca exige
Que te inunde as pernas
Toda a luz do dia

Até o teu sexo
Que negro cintila
Mais e mais desperta
Para a luz do dia

E a noite percebe
Ao ver-te despido
O grande mistério
Que há na luz do dia

08/02/2019

O silêncio tomou conta da casa

o silêncio tomou conta da casa

encontro vazio no lugar das tuas roupas
na outra metade da cama

os chinelos alinhados em cima do tapete
são pequenos buracos onde faltam os teus pés

ficou o teu perfume agarrado ao quarto
e à minha pele

a vida continua lá fora, ruidosa
cá dentro o meu coração bate no compasso da saudade

e eu amo-te

21/03/2017

Eu ontem vi-te

Eu ontem vi-te…
Andava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno a mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo, amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse,
Fulgor assim.


Ângelo de Lima (1872-1921)

11/01/2017

A luz dos teus olhos

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Mario de Biasi


Pela luz dos olhos teus
Vinicius de Moraes

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

13/12/2016

Haiku de Bashô

36
os visitantes dentro do templo
ignoram
que as cerejas floresceram



(Interpretação da lançadora de haiku: os astros dizem que está na altura de largar os esoterismos metafísicos e sair para a rua e rebolar-se na relva)



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12/10/2016

Na gravidade dos meus dias

Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.


Rui Costa, em A Nuvem Prateada das Pessoas Graves

09/07/2016

Movimento "Queremos ouvir as vozes dos bloggers a declamar poesia"


Li no blogue da Cuca, que o Pipoco Mais Salgado estava a lançar um desafio provocado pela Palmier Encoberto. Depois de ter ouvido poemas tão bons, declamados por bloggers com vozes daquelas que fazem uma pessoa ter pensamentos indecentes, achei que podia esbardalhar isto tudo com a minha participação esganiçada.
Ei-la! (para vosso prazer e deleite. ou não)

14/06/2016

De pernas para o ar

No meu poema ficaste
de pernas para 
o ar 
(mas também eu 
já estive tantas vezes) 

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão 
do meu poema 
e os pés tocando o título 
(a haver quando eu 
quiser) 

(...)


Ana Luisa Amaralin «366 poemas que falam de amor»

22/04/2016

Os amigos já não nos gabam os cabelos

arsvitaest:


“Washing the Hair”

Author: Itō Shinsui  (Japanese, 1898-1972)Date: published in 1953Medium: Color woodblock print
“Washing the Hair”, Itō Shinsui (Japanese, 1898-1972), published in 1953


Fui eu, madre, lavar meus cabelos
a la fonte e paguei-m'eu d'elos
e de mí, louçana.

Fui eu, madre, lavar mias garcetas
a la fonte e paguei-m'eu delas
e de mí, louçana.

A la fonte e paguei-m'eu deles,
alo achei, madr', o senhor deles
e de mí, louçana.

Ante que me eu d'alí partisse,
fui pagada do que me el disse
e de mí, louçana.

29/03/2016

Não sei como explicar

Francesca Woodman @Foam Amsterdam
Angel Series, Rome, 1977-1978



Gastei as palavras, não sei como explicar
o que o meu coração sente. É silêncio
que falo, é silêncio que escrevo. Presa num vácuo
que se dilata à medida que o meu corpo se
movimenta.
As folhas dos meus cadernos estão vazias, nos
dicionários os vocábulos têm cores desmaiadas.
Sinto sentimentos que não sei definir, um cansaço
na alma e um peso nas mãos.
Não sei do que falo.
Eu não falo.
Tudo é silêncio. Árido, frio,
silêncio que ensurdece.
Gastei as palavras. Não sei como explicar
o que o meu coração sente.

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Silêncio.

12/03/2016

Larga-se

autor desconhecido

Quando não há mais nada a fazer,
quando é vazio o que enche os olhos
e é agreste o que humedece a boca,
abrem-se as mãos e larga-se.

No forro do coração, guardada
a sete pontos de linha branca,
a esperança de que seja
pela última vez.

26/02/2016

A beautiful thing

breezingby:

… and Cherish those Few ~

14/02/2016

Inexistência permanente

Marina Schneider


deita-se todas as noites virado para o lado vazio da cama
acorda todas as manhãs do lado vazio da cama
entre um lado e outro há um frio de ausência
que manta alguma aquece
nem gato
nem saco de água quente
recordação fugidia
o outro lado em contínuo desacerto
num rodopio de inexistência permanente
o avesso da poesia como nunca a imaginou

25/01/2016

Os pássaros




os pássaros correm pelos céus
voam loucos
apanham balanço na força do coração
sobem nas alturas da esperança
cortam o medo com a liberdade das suas asas
e riem.
alguma vez ouviste um pássaro rir?
eles riem, riem porque lá de cima
todos os homens são menos do que eles
e as misérias do mundo são borrão que não os perturba
e o cheiro azedo da hipocrisia não sobe tão alto.

os homens não têm asas, têm de voar com os pés.


daqui e daqui

Foi dos primeiros poemas que escrevi e assumi. Já lá vão quase quatro anos e ainda me espanto e ainda gosto tanto como da primeira vez.

04/01/2016

E quando as perdemos estão sempre / Ao nosso lado

Há pessoas que nos morrem mais depressa
do que outras.
Há pessoas que nos morrem e lentamente nos
levam aos pedaços para parte incerta.
Há pessoas que nos põem um fruto negro
no lugar do coração.




O pão
Rui Costa

Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.


(04-01-2015)

15/12/2015

A trapezista

 
 


Começou a subir aos telhados.
Começou a resolver neles muito tempo.

(Primeiro, os dedos na janela mais acima.
Depois, era o cabelo que subia.
Um pulso a içar a alma para outra cidade.)

Daqui vê-se tudo.
Os gatos deitam-se e lambem-me os pés.

Os pés sobem molhados pela chuva.
Os homens congeminam negócios estendidos nas mulheres.

As crianças gritam dentro das casas quando os sonhos
lhes arrancam pedaços das costas.

Os homens caminham com quadros pendurados nos joelhos
As pessoas escrevem artigos nas revistas
sobre o que seria o mundo se alguém do outro lado as ouvisse

E é então que eu saio
e sobre os ombros das árvores disponho a economia
cravando-lhe os dentes ou
roçando apenas o meu sexo
no trapézio

Inclino-me sobre a sua demência particular
neste dia emparedado entre sucessos e crisântemos
e as crises
e ouço as ruas onde lá em baixo uma pessoa
ajeita um pouco melhor os ossos

Aquela mulher fabricou uma cozinha resistente a tudo
atravessou os séculos assoberbada de electrodomésticos
inexpugnáveis – ao fim-de-semana envolvia-os em celofane e espanava
um pouco melhor os filhos.

Mais à frente o parque onde as estratégias se apresentam -
o presidente à frente, seguido pelo hidrogénio ou o hélio
– conforme a posição do sol no buço da democracia –
e o écran reflectindo o écran e a
maresia.

Aqui no alto rodo os pés e alongo mais os braços.
Nos primeiros meses estendia-me com o corpo para baixo e deixava
o sangue inundar a cabeça. Via manchas vermelhas da
menstruação por entre os amigos que prometia esquecer.
Eles traziam-me os seus corpos nus e eu aquecia as suas unhas
cravadas pelo vidro.

Dizem: se os videntes permanecem firmes perante pequenos tiranos
podem chegar a suportar a presença do incognoscível.
Todo o conhecimento é o resultado de uma deslocação.
Se é verdade que todos os caminhos são iguais?
Sim. Pois não te conduzem a lugar nenhum.
Se quiseres fazer como o feiticeiro índio da tribo iaqui,
perguntarás: e esse caminho tem coração?

Perdi a minha agenda de fenómenos electromagnéticos.
Não sei por isso de que lado esperar
este súbito irromper
da melancolia.



rui costa
metphoria
guimarães2012
fundação cidade de guimarães
outubro 2012

 

04/12/2015

Princesa abandonada





fere-me uma dor na alma feita de cinza e olvido
um saco tropeçado no chão a transtornar-me a alegria