30/01/2019

Que descuido meu pisar nos teus espinhos

Há sempre alguém que se ofende com tudo e com nada.

Ouriço - Juliano Holanda

Voltar sem retorno (por enquanto)

Tinha prometido a mim mesma «para lá, nunca mais!». E disse-o, repeti-o e escrevi-o amiúde, para memória futura do meu convencimento. Durante cinco anos consegui manter a promessa, mas este ano... ah, este ano! Por um acaso, uma conjugação de factores estranhos e um alinhamento transcendental dos planetas, vi-me de novo lá. Como se nunca de lá tivesse saído. Os dias organizam-se agora em blocos e intervalos fixos e escadas acima e escadas abaixo e um corrupio de caras que vou tentando não esquecer nem baralhar. Voltei. Sem retorno? Por enquanto...

25/01/2019

Fases

Tem sido sempre assim. As fases da mudança alteram os ritmos e as noites tornam-se curtas. Demasiado curtas. Excessivamente curtas. Há-de vir tudo de uma vez: os dentes, as novas palavras, os passos firmes. E o sono tranquilo há-de voltar também. Até à próxima fase.

22/01/2019

Passo a passo

Pequeno barco na tormenta, resiste à queda e em equilíbrio precário segue corredor fora, na felicidade de conseguir ir de uma ponta à outra sem cair. Atira-se para os braços, portos seguros, rindo. «Olá!», é tudo o que sabe dizer, padrão oral com o qual vai marcando as suas conquistas.

21/01/2019

Insistindo no erro

Ouço na rádio um cientista explicar que a lua de ontem não foi bem uma super lua, foi apenas uma lua um bocadinho maior, e que o desapontamento de muitos observadores do fenómeno estava mais na expectativa errada do que no incumprimento da referida. O jornalista termina o comentário, mencionando a lua tal como o cientista explicou? Nada disso, chamando-lhe super lua, como se o esclarecimento anterior de nada tivesse servido. E não serviu.

16/01/2019

Tentativa e erro

Tentei (afincadamente, diga-se) mudar-me para outra casa que não esta. Escolhi um ponto alto, numa zona nobre, com uma varanda virada ao rio. É bonita a vista da minha varanda: a ponte enevoada pelas manhãs, o rio a espelhar o sol pelas tardes e o convencimento subtil de que a confusão da cidade não chega lá acima. Tentei, é certo. Tentei muito. Desisti. Arrendei a casa por muitos milhares e mudei-me para cá outra vez. Por muito que a vida tenha dado umas grandes voltas, estou mais convencida do que nunca: serei sempre uma rapariga simples.