30/06/2014
Ternura
Poder ser o resultado de um gesto tão simples como dar beijinhos na barriguinha peluda da minha gata bebé e ver o seu ar deleitado.
Cá dentro inquietação, inquietação
Inquietação - José Mário Branco
A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda
Inquietação - A Naifa
Inquietação - Camané e Dead Combo
Inquietação - JP Simões
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Música,
Natureza humana
27/06/2014
Como se ainda pudesses escrever poemas
I
Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.
O mesmo jeito do corpo,
o mesmo jeito do cabelo,
talvez um pouco mais baixo -- talvez
eu um pouco mais agigantada na distância.
Foi preciso navegar um mar de gente
para desembarcar em ti, um mar que me
arrastava da costa quando o meu pé quase
tocava a terra que eras tu.
Então tu viste-me e sorriste com
o mesmo jeito no sorriso.
E falaste com
o mesmo jeito na voz.
Não houve mais mar que me empurrasse
para longe do descanso do teu abraço.
II
Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.
Contaste-me um pequeno segredo que tinha
ficado por dizer, e eu chorei
com os meus braços agigantados na ausência
enrolados em ti, como algas do fundo do mar,
como que a puxarem-te para as profundezas
dos meus abismos.
E tu sorrias e falavas baixinho,
como quem acalma uma criança a quem aconteceu
um sonho mau.
III
Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.
Ainda não acordei.
Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.
O mesmo jeito do corpo,
o mesmo jeito do cabelo,
talvez um pouco mais baixo -- talvez
eu um pouco mais agigantada na distância.
Foi preciso navegar um mar de gente
para desembarcar em ti, um mar que me
arrastava da costa quando o meu pé quase
tocava a terra que eras tu.
Então tu viste-me e sorriste com
o mesmo jeito no sorriso.
E falaste com
o mesmo jeito na voz.
Não houve mais mar que me empurrasse
para longe do descanso do teu abraço.
II
Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.
Contaste-me um pequeno segredo que tinha
ficado por dizer, e eu chorei
com os meus braços agigantados na ausência
enrolados em ti, como algas do fundo do mar,
como que a puxarem-te para as profundezas
dos meus abismos.
E tu sorrias e falavas baixinho,
como quem acalma uma criança a quem aconteceu
um sonho mau.
III
Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.
Ainda não acordei.
26/06/2014
Apagamento da história familiar
Se a preservação da história universal dependesse da minha família, os museus e as bibliotecas, por exemplo, não teriam existência. É à conclusão que chego depois de ter sabido, por intermédio de terceiros, que ambos os meus avôs fizeram parte de grupos de jazz bastante relevantes na região, sem que uma única palavra tivesse sido mencionada em todos os anos da minha vida.
Há quem reescreva a narrativa do seu percurso, cá em casa selecciona-se a narrativa e carrega-se em «delete».
23/06/2014
E ainda assim eles crescem
Os nossos filhos não têm o direito de crescer, de se emanciparem. E quem diz os filhos diz os irmãos mais novos, que são uma espécie de filhos fora de horas, quando o relógio ainda não teve corda suficiente por onde se esticar.
Não, os nossos irmãos mais novos não têm o direito de crescer, nem de se emanciparem. Não têm o direito de nos sair dos braços, de deixar de riscar os nossos cadernos e os nossos livros, de deixarem de querer o colo que era nosso, de não nos expropriarem dos nossos pais, de já não vestirem roupas mais bonitas do que as nossas com a idade deles, nem de atirar para um canto os brinquedos com que nunca brincámos.
Os irmão mais novos deveriam ser sempre meninos acabados de chegar da escola, a precisarem da nossa ajuda para fazer os trabalhos, a subirem para a nossa cama a meio da noite quando troveja no céu.
Os nossos irmãos mais novos não têm o direito de crescer. Muito menos o de se casarem, como se de repente fossem crescidos e os anos tivessem passado por eles e os tivessem levado para longe de nós.
20/06/2014
Receita caseira para a felicidade
Talvez não seja fácil explicar a transparência. Ou o desvanecimento. Nem tão-pouco o emudecimento progressivo. Ainda assim, a transparência, o desvanecimento e o emudecimento progressivo são tão essenciais ao equilíbrio do corpo como beber quatro copos de água por dia.
18/06/2014
Devaneios ao início da tarde
Não releva para o caso se sou feita de sonhos ou das pedras do caminho. Mais importa clarificar que a seda da minha pele tem a resistência da malha de aço.
Vida dura pela manhã
Tica e sua cria -- uma gatinha tão fofa que, ou muito me engano, vai ser uma bolinha de pêlo como o pai -- enfrentam mais um dia de duro labor.

16/06/2014
Nem os que fugiram escapam
Todo o grande homem tem, hoje em dia, discípulos, e é sempre Judas quem lhe escreve a biografia.
Na altura em que li um certo texto evocativo de um poeta morto, não tinha ainda lido esta fala de Gilbert, personagem que dialoga com Ernest no ensaio «O Crítico como Artista», de Oscar Wilde (Intenções, quatro ensaios sobre estética, Cotovia, 1993), no entanto, lembro-me perfeitamente de ter pensado que o tal crítico não passava de um artista armado em Judas. E desprezei-o, com cada célula do meu ser, num profundo desprezo.
13/06/2014
Creio que a abstinência já vai em quatro semanas
O sítio do costume onde toda a gente mostra a cara, na melhor das hipóteses, pelo menos na mais decente, devia chamar-se Vanity Fair. E ter como cor distintiva o dourado, o símbolo todo ele em elegantérrimos cristais Svarovski e muita realeza -- oh! sim, muita realeza --, sem bruxas más, só o lado rosa dos contos de fadas.
11/06/2014
Finalmente
o Formulário de Contacto lá de baixo já funciona.
Como ninguém se queixou, suponho que não tenha sido ainda usado.
Como ninguém se queixou, suponho que não tenha sido ainda usado.
10/06/2014
Sobre o assunto do dia
Que triste é quando um homem aceita vender a sua dignidade e se torna opróbrio entre o povo.
09/06/2014
Ou dançar
| autor desconhecido |
Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.
(Vontade de ser barco ou de cantar.)
07/06/2014
05/06/2014
03/06/2014
Uma questão de pernas
Adormeceu debaixo de mim como que embalada pelo meu silêncio.
Espalham-se livros à minha volta e fios que ligam tudo a todo o lado, só não me ligam a mim ao lado sul do meu destino.
Por enquanto.
Adormeceu, por isso, debaixo de mim como quem não quer ver a desarrumação que vou semeando à volta do computador.
Conto pelos dedos as tarefas que me propus para hoje e sinto que deixei cair alguma.
Tem sido recorrente esta certeza de que me estou a esquecer de alguma coisa, que ainda falta fazer mais não sei o quê.
De vez em quando o vento traz-me conversas do lado sul da minha existência.
Não é de estranhar que tenha adormecido debaixo de mim, assim dobrada como quem suporta o peso da minha dispersão.
02/06/2014
A natureza da blogosfera
As pessoas que nos falam dos outros são normalmente desinteressantes. Quando nos falam de si mesmas são quase sempre interessantes, e, se fôssemos capazes de calá-las quando se tornam aborrecidas, com a mesma facilidade com que podemos fechar um livro de que nos cansámos, seriam absolutamente perfeitas.
WILDE, Oscar (1993). Intenções -- quatro ensaios sobre estética. Lisboa: Edições Cotovia. pág. 85.
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