Ou como se guarda mais um maço de folhas no fundo da gaveta, para memória futura do que não se deve insistir.
No silêncio da noite
Uma arma é disparada na noite escura, o que vem depois disso é
silêncio − o estrondo do tiro, a noite a escurecer de tristeza.
O cão a guiar o dedo, o dedo a fazer recuar o cão, a bala
a atingir o alvo, uma pancada seca a ensurdecer o chão.
Os olhos apertam-se com força para não sentir.
No chão há um pedaço de metal capaz de matar o que mais amamos.
Os vizinhos param os garfos que levam à boca.
Uma criança cala-se. Um grito desesperou a cidade.
A rua é um uivo de sirenes e murmúrios inquiridores:
as perguntas acendem o seu próprio rastilho.
Há olhos que não param de ver,
há ouvidos que ecoam o tiro.
Chove uma chuva miudinha. Inunda-se o chão.
Fotografa-se o circo sem piedade.
Se houvesse respostas, todos iriam embora −
são as dúvidas que atormentam os vizinhos,
não se sabe o porquê. Sabe-se que um partiu.
O outro ficou. No mais do que isto é o silêncio,
sempre o ensurdecedor silêncio. Na cabeça, as vozes não se calam,
uma réstia de culpa. Ninguém saberá nunca o que aconteceu.
Só sabem dele. Que morreu.