Há um baloiço pendurado em caudas de cometas
de onde observas o nosso mundo e questionas,
por certo questionas,
a poeira do espaço e o leite derramado
entre as estrelas.
Inclina-te nesse assento alado,
interessa-te uma vez mais pela rotina
entediante dos dias que passam
em acelerado vagar.
Vês-me? Consegues ver os meus cabelos arruivados, à mesma luz
de janeiro que já passou?
Hoje não me maquilhei, mas vesti a minha saia das pregas
e calcei as minhas meias pretas.
Não foi assim. Hoje calcei as
minhas meias pretas e pintei os olhos
de cinzento escuro
bem carregado pelo negro do lápis,
desafiando a ordem do acaso.
No meu dedo, a prata martelada não cumprirá o seu papel,
foi substituída por duas metades frias de metal que
aproximo à licra negra,
cheias de intenções malignas, e que me
estremecem no ranger do corte:
bem-vindo ao caos!
A perfeição é incomodativa.
Inclina-te mais um pouco.
Vês-me? Vês as malhas da minha meia?
Sou uma punk de saia às pregas e
meias rotas, miragem no deserto de areia,
onde só o vento remexe o tecido,
como mãos grandes e macias que me arrepiam.
Levanto a saia acima da medida
da decência: é preciso que vejas
as marcas nas meias, é preciso
que saibas que elas estão
irremediavelmente quebradas,
que as meias, como eu, não voltarão a ser as mesmas.
Sai desse baloiço e vem ver com o mesmo
despudor da primeira vez
as minhas pernas nuas
aos teus olhos, enegrecidas de espanto!
Não vens? Que faço às meias?
Não servem para nada.
Nada é tudo o que resta,
resto de amargura,
amarga saudade,
saudoso lamento,
lamentável estado
vazio.
Baixo a saia. Aperto o casaco.
O caos mitiga as certezas.
Tudo o que sei é que esse baloiço
está alto demais e eu tenho vertigens
e um diferendo com Caronte.
Balança, pequeno encantador de estrelas,
e pergunta à ursa maior se o frio do inverno
ficará para sempre.
[é impossível que já tenha passado um ano]