21/06/2012

Havia um par de meias


No chão de madeira envernizada há um par de meias atirado ao
acaso, esperando pacientemente o momento de voltar
a abraçar os pés descalços. Sentem um estremecimento
de euforia no chão, sabem que são procuradas, desejadas
pela força da necessidade. Os pés caminham nus no chão
de madeira envernizada, suspirando pelo par de meias que
descalçaram horas antes - sentem a falta do abraço,
abalam-nos a saudade. Os pés encontram uma meia, mas o que
eles querem é o par. Um pé é feliz, o outro sente-se abandonado.
Impacientam-se os pés à procura da meia ausente.
Os olhos oferecem-se para, lá do alto, esquadrinharem o espaço.
Cansam-se. Impacientam-se os pés e os olhos. As mãos esticam-se
solícitas, tateiam o chão, remexem as coisas. Também elas se cansam.
Impacientam-se os pés, os olhos e as mãos. A boca, aborrecida
pela demora e pela fuga da meia, escancara-se: - viste a minha meia?
Ninguém sabe da meia, nem pés, nem olhos, nem mãos, nem boca.
Arrefece na espera, mingua de saudade o pé descalço. Preocupa-se
a meia achada. No chão de madeira envernizada deveria haver um par
de meias atirado ao acaso, esperando pacientemente o momento
de voltar a abraçar os pés descalços. Mas não. No chão de madeira
envernizada há uma meia atirada ao acaso. A outra suspendeu-se no cabide.
Fugiu do chão, passageira clandestina de um lenço que se pendurou
distraidamente e ri-se baixinho do trabalho que dá. Mas os
ouvidos ouviram-na, os olhos encontraram-na, a boca espantou-se,
as mãos seguraram-na e o pé suspirou e por fim aconchegou-se.
Para castigo, foi enfiada numa sapatilha.



[não precisas de perguntar, este é para ti (:]