Lembro-me com bastante nitidez da primeira coisa que quis ser quando fosse grande. Tinha três anos quando soube que a minha profissão seria ser mãe. Foi no dia em que disse à minha mãe que não queria o bebé careca, mas queria um bebé de cane, pedido esse devidamente acompanhado de uma birra que terminou comigo a confortar a tristeza, agarrada a um boneco de plástico, com corpo de pano e esponja. Tinha três anos. Depois, quis ser professora e segui todos os níveis: primeiro era o Pré-Primário, depois o 1º ciclo e por aí fora; circulando pelo inglês, a história e o português. Pelo meio uma vontade de ser arqueóloga que nunca foi para a frente por causa dos filmes do Indiana Jones - se tivesse de ficar pendurada nalguma ravina, morria com toda a certeza. Hoje, sou professora de português, do 3º ciclo e do secundário (até provas em contrário), mas não sou mãe. Facto que os amigos e conhecidos não me deixam esquecer.
Não sou mãe, mas tinha sete anos quando nasceu o meu primeiro irmão mais novo, uma espécie de prenda de anos que veio com dois meses certinhos de atraso. Lembro-me da excitação da notícia, lembro-me das horas passadas a mexer na barriga da minha mãe, lembro-me das conversas que tive com Deus porque eu queria uma irmã e Ele tinha de dar um jeitinho para que isso acontecesse. Lembro-me de ter ido com a minha mãe à única ecografia que ela fez e de ter observado com grande indiferença que o coração do bebé parecia uma manada de cavalos a correr. Lembro-me do ar preocupado da minha mãe quando o médico lhe disse "o rapaz tem uns grandes tomates!" e do jeitinho com que o meu pai me perguntou se um irmão também não era bom. E lembro da resposta que dei: se for um menino, eu mato-o. Não matei. Adotei-o para mim e tornei-me na segunda mãe dele. Mas eu não sou mãe.
Com dez anos, nasceu o meu último irmão, também ele uma espécie de prenda, agora para ambos, seis dias mais tarde do que a data de nascimento do piolho mais velho. Nessa altura já me era indiferente, menino ou menina tanto me fazia. Lembro-me das fraldas e dos beijinhos que lhe dava na barriga gorducha; das noites que passei a embalá-lo, antes de o ir levar à minha mãe para ele mamar. Lembro-me das papas e dos cuidados, de correr atrás dos dois que fugiam um para cada lado. Lembro das muitas fotos que lhes tirei, das vezes que perdi a calma, dos meus posters rasgados só porque lhes apeteceu, de acordar de madrugada com a televisão a berrar desenhos animados, de gritar possessa da vida quando vi a minha coleção de bonecos da Disney a derreter na lareira. Lembro-me que levava os trabalhos da escola por fazer, por não ter tido tempo, e de dizer aos professores que não os tinha sabido fazer. Lembro-me também das noites em que lhes dava banho e os levava comigo para a cama, para ver se adormeciam mais rápido e acordar mergulhada num mar quente e com um odor estranho. Lembro-me que a minha infância passou muito rápido e a adolescência foi um ar. Mas eu nunca fui mãe.
Tenho nítido na memória o primeiro dia que viajei de comboio e os levei, eu teria uns doze anos, um dois e o outro cinco. Lembro do medo terrível que tive que eles caíssem para a linha e do alívio que senti quando cheguei ao trabalho da minha mãe. Lembro-me das manhãs na praia e do susto permanente que tinha de os perder, dos copos com leite de chocolate, das bolachas e das bananas passadas em areia - foi nessa altura que aprendi que se pode ir à praia e não ir à água, sem que seja uma tragédia assim tão grande.
Não consigo esquecer o dia em que lhes disse que o avô tinha morrido e que nesse ano íamos passar a passagem de ano em casa. Duas crianças de cinco e oito anos a estranharem a tristeza à volta delas, sem entenderem a dimensão da perda que todos sentíamos. Lembro-me de os deixar no aeroporto e os ir buscar eufóricos com o que tinham visto, naquelas férias da Páscoa, com a mãe e os tios, no Luxemburgo.
Depois houve os primeiros dias de escola e os trabalhos de casa, os malabarismos para explicar que era um dois três quatro cinco e não um dois três cinco. Houve as quedas, as cabeças partidas, houve férias intermináveis, houve sustos e coisas boas. As perguntas curiosas, os comentários inocentes, os passeios para Lisboa, o ensinar do bom hábito de ter uma mala com tudo e uma carteira para os documentos e o dinheiro. Houve o cuidar-lhes da roupa - a minha mãe perguntava-me de quem era o quê, porque ela se perdia nos tamanhos -, o preparar dos sacos dos equipamentos, o explicar que o desodorizante existia para evitar que eles cheirassem mal e que o usassem a bem da saúde de todos, houve o ensinar como se usava uma lâmina e como é que se fazia o bigode. Houve vacinas e idas ao médico, copos de leite antes de dormir e incontáveis pares de sapatilhas espalhados por todo o lado. Houve os meus meninos a tornarem-se homens, a barba a crescer-lhes, as namoradas a irem e virem, os planos deles a tomarem forma, a emoção de os ver trajados. Houve isto tudo. Eu que nunca fui mãe.
Ainda assim, o meu sonho continua por cumprir-se, 30 anos mais tarde. Eu que sempre pensei que por esta altura teria já uma equipa de futsal em miniatura, que era defensora acérrima de famílias grandes, porque há coisa mais importantes do que uma casa perfeitamente arrumada e roupa nova em todas as estações. Talvez a única coisa que eu soube sempre que queria ser não vá acontecer. Uma parte de mim entristece-se com esta certeza, a outra conforma-se. Acredito que o processo mais difícil é aceitar que houve coisas que quis muito e já não vou poder ter, que a vida me trocou as voltas, que afinal não cheguei lá. Depois de aceitar isto, depois de arrumar o que já não tem sentido, é menos difícil, mais tolerável.
Olho para trás e vejo que não foi tão mau assim, afinal tive-os a eles o que é muito. Há vinte e cinco anos que começou esta aventura. Apesar disso, os amigos que foram pais há um ano, ou dois ou três, continuam a dizer-me que eu não sei o que é ser mãe, que eu nunca experimentei noites sem dormir por causa de um choro que não acaba de forma nenhuma, que eu não sei o que é ter a roupa suja de papa, que eu não sei o que é andar horas com uma criança pequena (e às vezes já não tão pequena assim) ao colo, porque eu nunca fui mãe. Digo que sim, que têm razão, que não sei, que talvez nunca vá saber e sorrio para os deixar tranquilos e de bem com as suas próprias opiniões. "Tu sabes lá o que custa andar sem dormir há meses?". Pois, não sei, é que eu nunca fui mãe.