16/05/2012

Arte no feminino - Helena Almeida

biografia
http://www.artnet.com/artists/helena-almeida/


No início era a pintura – enquanto apresentação fiel da realidade, retrato, postal turístico –, depois veio a fotografia e vaticinou-se o seu fim.

Ao contrário das vozes apocalípticas, a pintura não cedeu completamente o seu lugar à fotografia, passou-lhe a tarefa de registar o real e permitiu-se explorar novas composições formais e cromáticas, novas perspectivas, pensar-se enquanto expressão artística, numa metapintura. Os movimentos plásticos do início do século XX só são possíveis pelo corte desta “obrigação”, o realismo ficara para trás, a viragem do século foi também a viragem para novas abordagens.

No entanto, assumir que a fotografia fez repensar a pintura sem que se desse o fenómeno inverso é redutor. Barthes afirma que “a Fotografia foi e é ainda atormentada pelo fantasma da Pintura” (Barthes, 2006:34); do grego φως [fós] ("luz"), e γραφις [grafis] ("estilo", "pincel") ou γραφη [grafê], Fotografia significa "desenhar com luz e contraste", os quais substituem a tela, o pincel e a paleta de cores da pintura.

As máquinas digitais e os novos programas informáticos de manipulação de imagens permitem-nos hoje recriar, reconstruir uma fotografia, pintando-a com outros fundos, retocando cores e pormenores, corrigindo defeitos, revelando uma fotografia plástica e pouco pura, no sentido de muitas vezes estar longe da fotografia realizada no momento do disparo da câmara.

Este diálogo entre pintura-fotografia, tantas vezes íntimo, outras tantas distante, está presente nos trabalhos de Helena Almeida, artista portuguesa contemporânea que se destaca pela abordagem que faz à pintura e à fotografia.

Originalmente pintora, envereda pela fotografia pela necessidade que sente em ser o centro do seu trabalho, “combater a distância que na pintura existe entre ser e representação, a tirania do corpo ausente do pintor que passa a vida a representar outros corpos, ou então, que cai noutra prisão: a do auto-retrato” (Carlos, 2005:8). 

(excerto de um trabalho meu, só porque dava muito trabalho voltar a escrever tudo)



15/05/2012

Deixem os vivos enterrar os seus mortos


The love that cannot be - Dead Can Dance

Desde o dia em que nascemos que lidamos com perdas, com a finidade das coisas.
Desde o dia em que nascemos que deveríamos estar preparados para a morte.
Mas não estamos.
Nunca estamos.
E o correr dos nossos dias vai somando mortos à nossa vida.
Uns morreram.
Outros estão vivos, mas mortos para nós.
A uns diremos Thalita Kum.
A outros poremos uma pedra em cima.
Quer uns quer outros vão levando pedaços da nossa vida com eles, vão-nos deixando menos vivos e mais mortos, até estarmos mortos de vez.

Hoje enterrei o meu morto.
Pus mais uma pá de terra.
Pus-lhe uma pedra em cima.
Nunca mais lá voltarei.
O meu morto não terá flores.
O meu morto não terá visitas.
O meu morto terá apenas o meu dolorido luto.

Hoje comecei a prantear o meu morto.
Muitos dias virão para o prantear.
Até ao dia em que não haja mais nada para lamentar ou sentir falta.
Até ao dia em que outros vivos vão entrar na minha vida, mesmo que se tornem, também eles, os meus mortos.

Desde o dia em que nascemos que lidamos com perdas, com a finidade das coisas.
Desde o dia em que nascemos que deveríamos estar preparados para a morte.
Mas não estamos.
Nunca estamos.







[este texto foi escrito pela primeira vez a 23 setembro 2008, publicado neste espaço a 13 de maio de 2009, mas nunca me fez tanto sentido como agora, porque nunca esta morte tinha sido física. contra todas as expectativas, hoje foi dia de prantear.]

14/05/2012

Não me fales da morte

Não me fales da morte. Não quero que me fales da morte, que digas que fulano morreu, sicrano já não está entre nós, beltrano acabou de partir. Não te consinto que me informes da necrologia. Deixa-me viver com a ilusão de sermos todos eternos, deixa-me continuar a acreditar que o fulano e o sicrano e o beltrano ainda respiram e riem e choram e vivem.
Não quero que me fales dos mortos. Eles não estão mortos, eles estão vivos. Se pudesses olhar-me o coração saberias que assim é. Se pudesses sondar-me o pensamento, não duvidarias. Os meus mortos estão vivos, todos eles, nem um esquecido. Estão-me nas mãos, eu não os deixo ir. Estão-me no sangue, respiram comigo.
Não me fales da morte. Não quero que me fales da morte. Não to consinto.

12/05/2012

Jogo do esconde


Jogo ao esconde com a memória,
escondo aqui, escondo ali,
passo um pano, limpo-te daqui.

Mas ela, triunfante, encontra-te sempre.
abre os armários, revira as gavetas,
espalha pelo espaço as coisas obsoletas.

Em todos os lugares, pedaços teus,
marcas do passado, bandeira hasteada,
escarninho gozo da vida abandonada.

11/05/2012

Com o girar do relógio

a cabeça conforma-se e ocupa-se de afazeres,
os olhos às vezes ainda lacrimejam nos espaços.
o coração esse já não se altera,
bate no ritmo constante da saudade que não acaba nunca.



10/05/2012

Mas ainda tenho em mente uns cacos de ti

Foram um boa descoberta, pelo menos uma consciente, ontem na Queima em Coimbra. O concerto foi fenomenal e trouxe comigo um CD desta banda de São João da Madeira (pelos vistos, não é normal que os de Santa Maria da Feira gostem dos vizinhos, mas eu só fui lá ver a bola mesmo :).
As letras são muito interessantes e a música suficientemente complexa, para eu gostar. Lá pelo meio, mais uma música para a banda sonora oficial da minha vida.





Etanol - Prana
Há quem beba e não saiba o que faz.
Há quem olhe em frente e não olhe pra trás,
mas ainda tenho em mente uns cacos de ti


De uma garrafa bebo o que ela não tem
e vejo no fundo o difuso alguém
E lembro tudo aquilo...
Tanto que eu perdi.


Tento matar a sede que não quer morrer,
Mais um copo e outro, e então pode ser
que adormeça e pareça que sim.


Bebo, a tudo o que a vida tirou
e a tudo o que hoje eu não sou
e o que eu dava pra te ter.


Bebo, porque ao beber não sinto a dor,
brindando ao diabo e ao amor
e à hora que falta para amanhecer.



09/05/2012

Arte no feminino - Liliana Lourenço

Não vos sei explicar muito bem o impacto que o trabalho desta ilustradora tem em mim, mas de há uns meses para cá que ando fascinada com ele.
Não sei se é das figuras que parecem fotografias, se é por me identificar com as rosetas vermelhas que são a sua imagem de marca, se da delicadeza e inocência com que ilustra, se da poesia que acompanha cada trabalho.
Enquanto descubro e não descubro, vou-me deleitando no Vai mas volta... e onde a puder encontrar.


E é assim que todos os dias esqueço, o que todos os dias não mereço. 
(Tu falas.. e a olhar para ti eu adormeço). **

08/05/2012

A minha casa

Não sei o que vim fazer a casa. Não sei o que vim fazer aqui. Vim levada por um qualquer impulso de encontrar o que me falta e o que me falta és tu. Não posso não rir com este pensamento que é em si mesmo tão certo como esta necessidade de voltar geograficamente a este lugar e rio porque tentar encontrar-te na minha casa é como querer neve em pleno agosto.
Ainda assim, percorri os quilómetros que se intrometeram entre o lugar para onde fugi – de ti, do passado, de mim –, e o espaço físico que delimita a minha casa, a casa que moldei com as minhas mãos e onde desejei albergar-te. 



[ continua num ficheiro .doc, numa pasta do meu PC ]

07/05/2012

Do meu traje, a única coisa que ainda me serve é a capa


Faz este mês 10 anos que o vesti pela última vez.
É, meus caros, estamos velhos.





04/05/2012

A morte de alguém nunca nos compensa da falta que nos fará

valter hugo mãe, "Autobiografia Imaginária", in JL 1079