Continuo a ler-te aos bocadinhos, nos locais que continuam a chamar-me para lá. São de excelência, sei que gostaste de quase todos. Só não me atrevo a ler-te inteiro -- basta a cada dia o seu mal.
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24/10/2017
08/02/2017
Hoje
Devia ter percebido quando vi a música escolhida para análise num determinado programa de rádio. Não o consegui ouvir, confesso, seria perturbar-te demasiado a memória, ainda que na minha assuma o forjamento. Devia ter percebido, mas não percebi. Foi mais tarde, quando os olhos poisaram discretamente no canto inferior direito do portátil, que a lembrança, como um raio, me sacudiu os ossos. Esqueci-me. A segunda vez num ano e eu esqueci-me. O meu maior medo, como uma sombra, já me engoliu os pés. Pelo menos guardei-te em livro.
04/01/2017
Esqueci-me. Este ano, pela primeira vez, esqueci-me do início da tua inexistência. Não que me esqueça de ti, que não o faço, tão-só não me lembrei. É isso, não me lembrei do dia em que marcaste a ferro líquido uma marca de mágoa que o tempo tem demorado em sarar. Mas ela vai sarando, devagarinho e um dia atrás do outro. O pó de estrela que tens soprado dessa nuvem que habitas no céu longínquo começa a fazer efeito: a vida já faz mais sentido.
08/06/2016
A praia
Vejo frequentemente fotografias da praia onde te ensinei a palavra gaivota e me ensinaste a palavra saudade. É uma praia comprida, acompanhada por um corredor de madeira que salva os pés do incómodo da areia e passeia o tempo a mais.
As gaivotas voaram soltas nessa manhã fria de Inverno e tu saboreaste-lhes o nome numa língua que desconhecias. Passeaste o meu tempo a mais no chão de madeira e deixaste-me o incómodo da tua ausência. Nunca mais voltei àquela praia.
03/05/2016
Não julgarás
Somos muito rápidos a julgar. Existe em nós um juiz frustrado que saca do martelo à mínima oportunidade. Todos te julgámos (ou quase), com mais ou menos intensidade, com mais ou menos razões. Hoje, enquanto conduzia, pensei no que seria deixar ir o carro, vê-lo ganhar vida própria até ao limite. Pela primeira vez, meu Aquiles, questionei se deverias ter realmente escolhido a vida longa.
19/03/2016
Só silêncio e ausência e mais nadinha
| Ballerina - Photo by Daryan Volkova |
"É possível deter o momento, fazê-lo entrar na nossa concha, falar-lhe
ao ouvido e contorcê-lo, golpeá-lo no sítio que mais dói só para depois o
deixar ir outra vez e ficar só silêncio e ausência e mais nadinha."
COSTA, Rui (2008). A resistência dos materiais. VNG: Exodus. pág. 5
(publicado pela primeira vez neste blogue a 13/01/2012)
(publicado pela primeira vez neste blogue a 13/01/2012)
11/02/2016
Leio a lista a medo. Sei que vou encontrar lá o teu nome e não queria. Corro a sucessão de números ordenados alfabeticamente, até chegar ao teu. Estás - nome e sobrenome e aquelas duas datas entre dois parêntesis de mágoa. Não se esqueceram, negando a utilidade prática da empreitada, lembraram-se de ti e incluíram-te nos poetas esquecidos. «Há uma coisa mais aviltadora do que o desprezo: o esquecimento», lê-se à entrada. Enquanto as tuas moiras tecerem os fios da tua ausência, deste estarás safo. Já da lista...
08/02/2016
A resistência da memória
Tenho-me esquecido de tudo. Da rua onde vivias, dos pontos de referência que davam à rua onde vivias, o nome da estação de metro que apanhávamos, o nome do café onde esbardalhei o chocolate do croissant na compostura festiva da minha saia e onde te esbardalhaste a rir com a minha cara chocada. Esqueci-me de muitos dos assuntos das nossas conversas, de como fomos de umas às outras. Esqueci o teu número, o teu percurso académico, as minudências da nossa convivência.
Mas não esqueci o hotel ao fundo, visto da altura da varanda, e a rua sempre a rugir de trânsito, nem o peso da manta de lã, nem o cheiro do frango assado, nem o teu joelho dobrado servindo de apoio ao meu queixo, enquanto discorrias sobre a chuva lá fora, nem os teus olhos tristes, nem a última mensagem com a promessa que não cumpriste, nem aquele abraço que depois foi o último, nem o lugar gélido que escolheram para nos encontrarmos pela última vez, nem o som dos meus passos no cimento triste da cidade fantasma onde te abandonei, nem do dia do teu aniversário que deixaste para nós celebrarmos por ti: em silêncio, olhando as velas que se consomem e derretem sobre um bolo que ninguém quer comer..
20/01/2016
Não se escreve
| Paulo H |
Não se escreve a morte numa agenda e é por isso que há datas que ficam em branco. Não se escreve a ambivalência dos sentimentos, a mistura estranha da tristeza, do amargo e do alívio. Não se escreve a luta e a força de um sorriso inquebrável. Não se escreve que existe amor nos cemitérios. Não se escreve que morremos um bocado em cada funeral para podermos viver a vida com mais intensidade. Não se escreve quem constrói fossos sem pontes levadiças à volta do coração. Não se escreve a ordem das coisas e a falta que o amor faz. Não se escreve o esquecimento e o olhar dos que nunca viveram. Talvez não se escreva nada disto mas sei os abraços que apertam e os sorrisos que voltam depois do adeus.
Pedido à talentosa Imprópria para Consumo, dona de um blogue tão bem escrito que me deixa sem palavras.
18/01/2016
04/01/2016
E quando as perdemos estão sempre / Ao nosso lado
Há pessoas que nos morrem mais depressa
do que outras.
Há pessoas que nos morrem e lentamente nos
levam aos pedaços para parte incerta.
Há pessoas que nos põem um fruto negro
no lugar do coração.
O pão
Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.
(04-01-2015)
do que outras.
Há pessoas que nos morrem e lentamente nos
levam aos pedaços para parte incerta.
Há pessoas que nos põem um fruto negro
no lugar do coração.
O pão
Rui Costa
Há pessoas que amamCom os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.
(04-01-2015)
15/12/2015
A trapezista
Começou a subir aos telhados.
Começou a resolver neles muito tempo.
(Primeiro, os dedos na janela mais acima.
Depois, era o cabelo que subia.
Um pulso a içar a alma para outra cidade.)
Daqui vê-se tudo.
Os gatos deitam-se e lambem-me os pés.
Os pés sobem molhados pela chuva.
Os homens congeminam negócios estendidos nas mulheres.
As crianças gritam dentro das casas quando os sonhos
lhes arrancam pedaços das costas.
Os homens caminham com quadros pendurados nos joelhos
As pessoas escrevem artigos nas revistas
sobre o que seria o mundo se alguém do outro lado as ouvisse
E é então que eu saio
e sobre os ombros das árvores disponho a economia
cravando-lhe os dentes ou
roçando apenas o meu sexo
no trapézio
Inclino-me sobre a sua demência particular
neste dia emparedado entre sucessos e crisântemos
e as crises
e ouço as ruas onde lá em baixo uma pessoa
ajeita um pouco melhor os ossos
Aquela mulher fabricou uma cozinha resistente a tudo
atravessou os séculos assoberbada de electrodomésticos
inexpugnáveis – ao fim-de-semana envolvia-os em celofane e espanava
um pouco melhor os filhos.
Mais à frente o parque onde as estratégias se apresentam -
o presidente à frente, seguido pelo hidrogénio ou o hélio
– conforme a posição do sol no buço da democracia –
e o écran reflectindo o écran e a
maresia.
Aqui no alto rodo os pés e alongo mais os braços.
Nos primeiros meses estendia-me com o corpo para baixo e deixava
o sangue inundar a cabeça. Via manchas vermelhas da
menstruação por entre os amigos que prometia esquecer.
Eles traziam-me os seus corpos nus e eu aquecia as suas unhas
cravadas pelo vidro.
Dizem: se os videntes permanecem firmes perante pequenos tiranos
podem chegar a suportar a presença do incognoscível.
Todo o conhecimento é o resultado de uma deslocação.
Se é verdade que todos os caminhos são iguais?
Sim. Pois não te conduzem a lugar nenhum.
Se quiseres fazer como o feiticeiro índio da tribo iaqui,
perguntarás: e esse caminho tem coração?
Perdi a minha agenda de fenómenos electromagnéticos.
Não sei por isso de que lado esperar
este súbito irromper
da melancolia.
rui costa
metphoria
guimarães2012
fundação cidade de guimarães
outubro 2012
10/02/2015
A desistência da memória
Tenho-me esquecido de tudo. Da rua onde vivias, dos pontos de referência que davam à rua onde vivias, o nome da estação de metro que apanhávamos, o nome do café onde esbardalhei o chocolate do croissant na compostura festiva da minha saia e onde te esbardalhaste a rir com a minha cara chocada. Esqueci-me de muitos dos assuntos das nossas conversas, de como fomos de umas às outras. Esqueci o teu número, o teu percurso académico, as minudências da nossa convivência.
Mas não esqueci o hotel ao fundo, visto da altura da varanda, e a rua sempre a rugir de trânsito, nem o peso da manta de lã, nem o cheiro do frango assado, nem o teu joelho dobrado servindo de apoio ao meu queixo, nem os teus olhos tristes, nem a última mensagem com a promessa que não cumpriste, nem aquele abraço que depois foi o último, nem o lugar gélido que escolheram para te encontrar pela última vez, nem o som dos meus passos no cimento triste da cidade fantasma onde te deixei.
20/01/2015
Da lembrança dos dias ácidos
| Yulia Kasban |
o.f. (1967-2007)
José Mário Silva
Do que não precisamos agora é de brilhos fúteis,truques verbais, exercícios de lirismo magoado.
As palavras são só palavras, nem coisas maiores
nem mais altas, apenas pedras que lançamos
ao poço para ouvir como se agitam as águas.
Lá fora o vento e os telhados agrestes, o céu
da cidade ostensivamente idêntico ao dos
dias felizes. Empilhamos, melancólicos,
livros que foram mais transparentes.
Conferimos as margens, a mancha gráfica,
os indícios de uma perfeição talvez inútil.
Mesmo olhada de frente, a ausência
continua a ser cruel, o silêncio uma
ignomínia. Descemos à rua, bebemos
café, fingimos seguir em frente. As
palavras são pedras que afinal ficaram
nos bolsos, guardadas para um inimigo
que se ri e só destapa o rosto medonho
quando está fora do nosso alcance.
17/11/2014
Do presente antigo
Podes morrer, é certo, daqui a poucos dias;
ou ter morrido até neste preciso instante.
Apenas pela rádio, apenas por acaso hei-de saber
da tua morte.
Outras que tu amaste, só porque foi outrora,
já ganhando por isso um estatuto de dignas,
terão sido avisadas, entre lugares-comuns,
não só a tempo e horas, mas até por alguém
da tua família.
A mim me caberá a parte mais secreta, mais ingrata
de luto:
a de passar, anónima, à beira do teu esquife,
para mim lamentando que não seja uma gôndola;
a de ser simplesmente, e entre muitas outras,
a figura provável de alguma antiga aluna.
E só nesse momento sentirei a revolta
de ter sido tão tépida ou, pior, tão sensata
diante da loucura dos mais arrebatados
de teus projectos,
e não ter ensaiado, como dizes, a Fuga,
e não ter transplantado, com maior duração,
os dias de Veneza para outro hemisfério.
É certo: poderias ate ter morrido durante
o caminho, a viagem.
Ao menos, se assim fosse, eu estaria ao teu lado.
David Mourão-Ferreira (2007). Um Amor Feliz. Editorial Presença. pp. 278-279
ou ter morrido até neste preciso instante.
Apenas pela rádio, apenas por acaso hei-de saber
da tua morte.
Outras que tu amaste, só porque foi outrora,
já ganhando por isso um estatuto de dignas,
terão sido avisadas, entre lugares-comuns,
não só a tempo e horas, mas até por alguém
da tua família.
A mim me caberá a parte mais secreta, mais ingrata
de luto:
a de passar, anónima, à beira do teu esquife,
para mim lamentando que não seja uma gôndola;
a de ser simplesmente, e entre muitas outras,
a figura provável de alguma antiga aluna.
E só nesse momento sentirei a revolta
de ter sido tão tépida ou, pior, tão sensata
diante da loucura dos mais arrebatados
de teus projectos,
e não ter ensaiado, como dizes, a Fuga,
e não ter transplantado, com maior duração,
os dias de Veneza para outro hemisfério.
É certo: poderias ate ter morrido durante
o caminho, a viagem.
Ao menos, se assim fosse, eu estaria ao teu lado.
David Mourão-Ferreira (2007). Um Amor Feliz. Editorial Presença. pp. 278-279
28/10/2014
Prurido ocasional
Sem motivo aparente, lembrei-me de ti e contei pelos dedos os meses que passaram desde que nos abandonaste. São já tantos.
Este céu passará
Ruy Belo
Este céu passará e entãoteu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração
foto: minha, céu da Figueira
22/09/2014
As telecomunicações entre os dois lados do rio foram suspensas até nova ordem
Diz-me a razão que os que passam o Aqueronte não acedem a contas de email ou a endereços de blogues dos que ficaram do lado de cá. Diz-me essa mesma razão que serão outros, necessariamente vivos, que o fazem. A razão diz-me, mas de todas as vezes há um fio de uma esperança louca que teima em prender-me ao absurdo. Cérbero roeu os cabos de fibra óptica -- esta é a inalterável certeza.
27/06/2014
Como se ainda pudesses escrever poemas
I
Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.
O mesmo jeito do corpo,
o mesmo jeito do cabelo,
talvez um pouco mais baixo -- talvez
eu um pouco mais agigantada na distância.
Foi preciso navegar um mar de gente
para desembarcar em ti, um mar que me
arrastava da costa quando o meu pé quase
tocava a terra que eras tu.
Então tu viste-me e sorriste com
o mesmo jeito no sorriso.
E falaste com
o mesmo jeito na voz.
Não houve mais mar que me empurrasse
para longe do descanso do teu abraço.
II
Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.
Contaste-me um pequeno segredo que tinha
ficado por dizer, e eu chorei
com os meus braços agigantados na ausência
enrolados em ti, como algas do fundo do mar,
como que a puxarem-te para as profundezas
dos meus abismos.
E tu sorrias e falavas baixinho,
como quem acalma uma criança a quem aconteceu
um sonho mau.
III
Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.
Ainda não acordei.
Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.
O mesmo jeito do corpo,
o mesmo jeito do cabelo,
talvez um pouco mais baixo -- talvez
eu um pouco mais agigantada na distância.
Foi preciso navegar um mar de gente
para desembarcar em ti, um mar que me
arrastava da costa quando o meu pé quase
tocava a terra que eras tu.
Então tu viste-me e sorriste com
o mesmo jeito no sorriso.
E falaste com
o mesmo jeito na voz.
Não houve mais mar que me empurrasse
para longe do descanso do teu abraço.
II
Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.
Contaste-me um pequeno segredo que tinha
ficado por dizer, e eu chorei
com os meus braços agigantados na ausência
enrolados em ti, como algas do fundo do mar,
como que a puxarem-te para as profundezas
dos meus abismos.
E tu sorrias e falavas baixinho,
como quem acalma uma criança a quem aconteceu
um sonho mau.
III
Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.
Ainda não acordei.
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