Hymn for the fallen - Dead Can Dance
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14/11/2015
20/07/2012
Os olhos viram
Hymn for the fallen - Dead Can Dance
Os pés não tinham rumo traçado, apenas
o desejo de flutuarem nas pedras desenhadas no chão.
Caminhavam em passo certo, aquecidos pelo sol da manhã,
ritmados pela música que só os ouvidos ouviam,
sozinhos e ausentes no meio dos múltipos pés que se
cruzavam com eles. Iam. No vagar da manhã que acordou
em paz.
Mas os olhos prenderam-se ao passado e viram
o que só a memória guarda. Os olhos pararam os pés
e, naquele banco virado para o lago, viram-te claramente
na tua verticalidade de quem observa
mais do que é dado à vista.
Os olhos viram os casacos quentes e o vento frio
e a praia deserta. Disseste que fugias do sol,
mas os olhos sabiam que subias
e descias o teu olhar pelo negro das meias que abraçavam as pernas,
as pernas que se espreguiçavam no sol do inverno e fugiam
da saia curta demais para as cobrir.
Os olhos sabiam que sondavas
aquilo que não me disseste.
Os pés caminharam com pressa para aquele mesmo banco, os
olhos esconderam-se numa cortina de água gelada. A boca apertou-se,
para não te chamar e as mãos não te encontraram.Mas os olhos viram-te, encostado àquele banco a observar
aquelas meias negras e a sondares o que não disseste.
15/05/2012
Deixem os vivos enterrar os seus mortos
The love that cannot be - Dead Can Dance
Desde o dia em que nascemos que deveríamos estar preparados para a morte.
Mas não estamos.
Nunca estamos.
E o correr dos nossos dias vai somando mortos à nossa vida.
Uns morreram.
Outros estão vivos, mas mortos para nós.
A uns diremos Thalita Kum.
A outros poremos uma pedra em cima.
Quer uns quer outros vão levando pedaços da nossa vida com eles, vão-nos deixando menos vivos e mais mortos, até estarmos mortos de vez.
Hoje enterrei o meu morto.
Pus mais uma pá de terra.
Pus-lhe uma pedra em cima.
Nunca mais lá voltarei.
O meu morto não terá flores.
O meu morto não terá visitas.
O meu morto terá apenas o meu dolorido luto.
Hoje comecei a prantear o meu morto.
Muitos dias virão para o prantear.
Até ao dia em que não haja mais nada para lamentar ou sentir falta.
Até ao dia em que outros vivos vão entrar na minha vida, mesmo que se tornem, também eles, os meus mortos.
Desde o dia em que nascemos que lidamos com perdas, com a finidade das coisas.
Desde o dia em que nascemos que deveríamos estar preparados para a morte.
Mas não estamos.
Nunca estamos.
[este texto foi escrito pela primeira vez a 23 setembro 2008, publicado neste espaço a 13 de maio de 2009, mas nunca me fez tanto sentido como agora, porque nunca esta morte tinha sido física. contra todas as expectativas, hoje foi dia de prantear.]
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