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22/02/2016

Correspondência íntima XXI

Que tudo corra pelo melhor e que se cumpra a profecia do [...], na estação de Montemor: "O melhor ainda está para vir".


Construíste um oráculo mínimo feito daquela espécie de amor que se guarda pelo passado, vaticinaste o futuro branco e hás-de consegui-lo, nem que seja à força da teimosia do convencimento. O melhor virá -- creio mais pelo medo do que lhe possas fazer que da vontade de vir. Mas virá e esta é uma certeza inquestionável.

11/05/2015

Correspondência íntima XX

E onde está a memória do coração? Para mim, durante muito tempo, a separação, mesmo quando era eu a provocá-la, era como uma espécie de morte.


A memória do coração transita para a memória por si só. Claro que guardo um carinho enorme, talvez uma espécie de amor, pelos homens que amei e perdi, mas é só. Essa dor, como se a separação fosse uma espécie de morte, já desapareceu. Ou atenuou até à imperceptibilidade.

04/12/2014

Correspondência íntima XIX

Não sei quem se lembrou que escrever eleva o espírito, cada vez que o faço só remexo no lixo, naturalmente só me sai porcaria (sim, voltei a pegar naquela tristeza de texto).

23/01/2014

Correspondência íntima XVIII

Há-de ir tudo ao sítio - esse lugar mágico que não sei bem onde fica, mas é para lá que tudo tem de ir -, mais não seja à força ou por inércia, que é a força ao contrário.

15/01/2014

Correspondência íntima XVII

O lado bom da minha compulsão pela arrumação é que nem a cabeça escapa, logo, ou se arruma ou sai fora! Ora, como eu gosto demasiado de chapéus, a ideia de viver sem cabeça não é coisa que me interesse muito.

13/01/2014

Correspondência íntima XVI

De repente surgiram não sei quantos fogos à minha volta que tive de ir apagar - fui nomeada bombeira de serviço à revelia, uma espécie de senhora dos aflitos versão não-católica. Não sei bem como, talvez por excesso de exposição à desgraça, incendiei-me eu e deixei arder - é insuportável o esforço de me atirar acima um copo de água.

19/12/2013

Correspondência íntima - XV

Talvez até vivamos mais na ilusão - o passado é uma fabricação da memória e o futuro uma fabricação da vontade. Já o presente acontece demasiado depressa para se conseguir situar.

26/11/2013

Correspondência íntima - XIV

Sempre foste ótima nessa arte de dissimular o que te vai na canalização emocional. Junte-se a isso a minha eterna dislexia no que diz respeito à leitura de emoções alheias e percebe-se facilmente porque é que não acerto uma. ;)


Qualquer epístola que contenha a expressão «canalização emocional» tem, por força, de ser dada à estampa.

19/06/2013

Correspondência íntima - XIII

Não sei porquê, mas não me agrada

Tens de me conhecer assim tão bem!!

Tu cuidas que eu não te conheço?

O defeito é meu.

Vamos voltar ao mesmo... 

São ossos do ofício, coisas que acontecem.

Hum...


É sempre preciso tão pouco para se dizer tanto. Entretanto, há flores e passarinhos - só pode ser bom sinal.

28/05/2013

Correspondência íntima - XII


As coisas têm uma lógica que não tem a ver com o valor. Que fazer? Abandonar o valor e ir com a lógica, sabendo que sem esse valor, sendo nosso, nos estamos a abandonar e a retirar o prazer que temos em nos reconhecermos no que fazemos? Ou manter o valor e abandonar a lógica, sabendo que o resto do mundo vai atrás dessa lógica?



Hoje entendo melhor os artistas, no verdadeiro sentido da palavra, que criam muito para si, sem grande consideração pelo público, porque o público não passa de uma grande prostituta - contra mim falo, pela facilidade com que ponho coisas de lado.

Ou seja, mantenhamos a lógica do valor contra o valor da lógica. nenhum de nós espera enriquecer à custa destas coisas que faz.

01/04/2013

Correspondência íntima - XI


Dizes-me tu que devia escrever e quem sabe tornar as minhas coisas vendíveis. Há tantos que o fazem. Generosamente questionas-lhes a qualidade, sobes-me à liga dos importantes e insistes que devia montar um esquema tático que me garantisse a vitória e me permitisse jogar taco-a-taco com eles.

Digo-te eu que o meu orçamento não chega para me manter em tal liga. Tenho contra mim uma coisa que eles não têm, nenhuma vontade de me tornar famosa com a escrita. Isto impede que eu escreva em catadupa, sobre tudo e sobre nada, opinando a torto e a direito, fazendo-me notar. O que eu quero mesmo é escrever quando a vida me lixa as voltas e ela tem-me dado umas quantas oportunidades. 

Fiquemo-nos pelas vitórias morais dos elogios afáveis que me deixas no email.*






* Chegou com atraso. Como os comboios da CP, tardou, mas não falhou. (:

13/02/2013

Correspondência Íntima - X

Escrever por escrever não faz parte da minha natureza, as conversas acabam por se esgotar em nadas. Melhor esperar, apanhar balanço e retomar do ponto em que estava.

21/12/2012

Correspondência Íntima - IX

O passado é nosso. E voltamos lá sempre. Quer queiramos, quer não. Há ali um magnetismo. Sim, faz-te doer. Faz-nos doer a todos. Mas voltar a ele nem sempre é mau. Tenta pensar no lado positivo de cada um dos passados que te atormenta.

A minha relação com o passado está-me a escapar por entre dos dedos. Sinto que, se por um lado nada me liga ao passado ou o passado é-me tão estranho que nem o reconheço (há alturas em que mal o lembro), por outro ele pesa-me horrores e sinto que, mais do que nunca, estou presa neste momento assustador. É mais uma coisa que não sei. Mais uma dúvida, mais um assunto à reflexão.


19/12/2012

Correspondência Íntima - VIII

Eu já nem sei o que sou. Sei que estou cansada, que há dias em que me apetecia fechar os olhos e não os voltar a abrir. Pelo menos uma vez na vida as coisas podiam correr bem, sei lá eu. Às tantas estou a ser egoísta, porque haverá gente em situação bem pior, porque as coisas estão como estão e só um grande milagre as fará mudar, porque eu deveria saber melhor. Não sei... Acho que o ano de 2012 vai ficar marcado pelo não sei, desde janeiro que é tudo o que digo. Eu realmente não sei nada.

20/11/2012

Correspondência Íntima - VII

Porque aquilo que apontas como motivo de culpa − a tua extraordinária capacidade de não pressionares as pessoas, nem quereres saber mais do que achas que te é devido − é precisamente a origem do teu encanto.


A única coisa que sei é que parece que não chega e depois é horrível ser assim, porque este dar ar e liberdade é pago por mim em horríveis angústias que não manifesto. Sou eu sozinha a tentar processar as inseguranças, os medos, a saudade, o sentimento de abandono - muitas vezes -, tentando seguir a lógica do respeitar para ser respeitado. Isto, meu caro, é imensamente desgastante, porque não há transferência, fica tudo aqui e leva a outra pessoa a convencer-se que as suas ausências não causam transtornos, porque eu não cobro, pelo menos não com agressividade desmesurada. Feitas as contas, são noites e noites mal dormidas, para além de inúmeros dias de cão.

31/10/2012

Correspondência Íntima - VI


O tédio instalou-se na minha vida. Não tenho nada de relevante para partilhar em lado nenhum. São demasiadas as redes em que me perco, tanto por onde me expressar e tão pouco para dizer. É um bocadinho diferente do que vejo a maioria fazer. Parece que toda a gente anda embrenhada em projetos aliciantes, como se as suas vidas não pudessem ser outra coisa que não alegria e emoção. É o curso natural: quando a nossa vida é minimamente agitada, gostamos de nos gabar disso e espetar no nariz de toda a gente que fazemos e acontecemos. Tendemos a estar calados quando não há por onde gabarolar. Assim estou eu.

11/10/2012

Correspondência Íntima - V

O meu afastamento das pessoas tem a ver com a necessidade me proteger. De momento, não tenho capacidade emocional, nem disposição, para lidar com as minhas coisas, muito menos com as dos outros. Assim, estou presente em doses moderadas e deixo que os amigos estejam nessas mesmas doses. Não tenho nada de novo para dizer, não sou capaz de voltar aos assuntos antigos. O silêncio, ou a presença silenciosa, é o melhor que posso dar no momento.

01/10/2012

Correspondência Íntima - IV

O mês de setembro é como se fosse janeiro para mim, comecei um novo ano. I'm back to basics. Querer ser como toda a gente e agir como toda a gente não me fez mais feliz, só me trouxe deceções e sofrimento, pelo menos, como eu era, era feliz. Quero muito voltar a esse estado de inocência e crença, a essa felicidade. Acredito que vá no bom caminho, tenho-me sentido muito feliz nestes dias. Em resolvendo um último assunto pendente que tenho, fico tranquila.


Nada de paz podre. Odeio guerras frias.

26/09/2012

Correspondência Íntima - III

A minha casa ganhou três velharias novas: a mesa do meu avô, uma cadeira da minha bisa e mais um garrafão de vidro da outra bisa. Tudos coisas a rondar os 100/200 anos, coisa pouca. A entrada já foi mudada outra vez, agora está lá a dita mesa, com a dita cadeira e a minha máquina de escrever em cima. Mesmo a pedir que as pessoas se sentem e escrevam o que lhes vai na alma, ou na ponta dos dedos, às vezes há coisas que precisam de ser escritas e que escapam ao controlo da mente. 

É o corpo a ditar a direção, a emoção a sobrepor-se à razão e a verdade a ser conhecida quando menos se espera.


25/09/2012

Correspondência Íntima - II

Aquele texto foi uma necessidade de processamento. Precisava de me distanciar do que te escrevi, mudar a perspetiva. Mas não podia escrever tudo literalmente, daí que o resultado tenha sido levemente diferente do que caiu na tua caixa de correio. A segunda parte foi um pouco mais egoísta, na verdade. Assim, ficou a dúvida: é sobre mim, não é? A pessoa existe, não existe? Exercício de escrita? O que é aquilo? É o que quiserem ler, embora esteja ficcionalmente descrito o que é.

Como vês, nem sempre os motivos que nos levam à escrita são puros e nobres. A cobardia também pode ser um bom desencadeador de ideias.