Quando uma mulher se veste, não se veste só para si, ou para os outros, nem para o homem a quem espera, mais ou menos secretamente, provocar. Todos os dias de manhã, enquanto combina peças, cores, formas, materiais, uma mulher veste-se para a ocasião. Ela sabe que uma escolha bem feita pode fazer toda a diferença entre um dia bom e um dia desastroso. Não acreditam?
Ontem, enquanto me vestia, tive de considerar várias variáveis: uma viagem de comboio, um percurso a pé, deambulações num centro comercial e um jantar com várias pessoas, noutra cidade. Era preciso que a escolha fosse confortável, não muito quente, elegante e prática ao mesmo tempo. Eu, como sou simples, decidi-me pelo vestido preto consideravelmente curto e saltos altos. Achei, numa linha de pensamento pouco explícita que a bainha subida ia bem com o calor que transpirava na rua, o preto ser sempre elegante e os saltos de salto porque preciso de renovar as escolhas mais frescas e eram os que estavam mais à mão.
Para não parecer que ia para um funeral, um casaco salmão, a chegar aos joelhos, muito leve, muito fluido. Maquilhagem nenhuma, só um ligeiro bronzeado que já se nota e rímel, camadas e camadas de rímel -- gosto de pestanas dramáticas, bem teatrais, que gritam «maquilhagem» por todos os cílios. E, se com um vestidinho preto eu nunca me comprometo, com dois muito menos.
O dia foi pródigo em ocasiões que seria uma chatice enumerar. Mas a última, caríssimos, essa foi de me levar à histeria, não fosse a minha escolha avisada de indumentária.
Depois de sobreviver a uma espera de mais de meia hora por um comboio, num apeadeiro perdido nos campos do Baixo Mondego, a ouvir bocas de uns trabalhadores da EDP e a encarnar as bochechas; depois de ter conseguido manter os saltos presos aos sapatos durante a caminhada de vinte minutos pelos passeios mal calcetados da Figueira -- odeio a calçada portuguesa! --; depois de ter finalmente desbloqueado um dos telemóveis reminiscentes e de ter conduzido para Coimbra, com um trânsito infernal, uma operação STOP, muito calor e uns sapatos a darem-me cabo dos pés; depois de tudo isto, quando já me dirigia serenamente para o jantar e a escassos metros de estacionar; depois disto, caríssimos, a desfazer a última curva depois dos semáforos, quando foi preciso meter a primeira, o pedal da embraiagem fica em baixo, o carro começa aos solavancos e eu só tive tempo de o enfiar para o único estacionamento livre de uma rua apinhada de carros e em obras, antes de ele estacar de vez.
-- O teu pai vai matar-nos!
Disse a minha mãe, para ajudar à festa. E o carro quase, quase, bem estacionado, mas assim ainda com a traseira de fora, e tudo a apitar, porque eu, que sou simples e tinha um vestido que mal me tapava as pernas, não tinha dois dedos de testa para estacionar mais à frente!
Respirei três vezes, pedi ajuda a pessoas amigas que já estavam no jantar e liguei para a assistência em viagem.
Meia hora depois apareceu o taxista que nos haveria de trazer de volta para casa -- como ele conduzia mal!, e o reboque.
Foi então que a minha escolha se revelou acertadíssima. Do reboque saiu um rapaz todo composto, cabelo espetado, muito moreno, aperto de mão forte, que carregou sozinho a minha Peugeot 306, deu um ligeiro ar de riso, certamente a pensar «mulheres!», e ainda me deixou o número do telemóvel -- foi só porque precisava de saber onde estava, ainda assim...
No fim disto tudo, pensei para comigo, pelo menos tinha um vestido curto e saltos altos.