Podemos prever o dia em que o caos começa, com dificuldade
acertamos no dia em que atinge o auge. Desenha-se nas pequenas coisas, nos
pequenos esquecimentos, nos pequenos desleixos, nos pequenos sarcasmos que se
intrometem nas conversas em público. Começa sempre com pequenas coisas, não vem
de repente, não acontece de imprevisto. Há sempre a possibilidade de prever e
de evitar. Nem sempre se presta atenção aos indícios, nem sempre se evita.
Ele sabia que ela estava a pensar acabar com aquilo que
tinham - não tinha como definir melhor a história que ambos arrastavam há anos,
uma história que começou num acaso, se desenvolveu entre o tumulto e resistia
por causa de uma frustrante química que os queimava em fogo lento. Ia deixá-lo.
Percebia-o pelas conversas que iam encurtando e circulando à volta de
banalidades. Percebia-o pela forma como se despedia e pelos sorrisos que
rareavam. O caos estava no início e ele não tinha como o impedir. Compôs o cabelo,
ao espelho. Lembrou-se das mãos delas a desenharem aquele mesmo gesto.
Suspirou. Estava eminente, isso ele sabia.
Ela tinha-lhe dito muitas coisas, ela tinha deixado muitas
por dizer. Ninguém diz tudo, ninguém sabe de si com certezas absolutas. Ele
dissera mais do que tinha querido e calara mais do que era necessário. As
palavras são sempre de menos quando se quer convencer alguém a ficar, são
sempre de mais quando se quer explicar o que não tem explicação. Ele sabia
que ela nem sempre estava consciente do impacto que causava nos outros e
perdoava-a por isso, por aquela mistura de inocência e ignorância que a faziam
ser assim, como ele gostava. Pegou no livro descuidadamente poisado em cima da
mesa. Tinha-o ido buscar por muitos motivos, porque gostava de o ler, porque
era do seu autor preferido, sem admitir, contudo, que o tinha feito porque ela
também o tinha lido e tinha citado uma frase desconcertante que o estremeceu.
Entre eles não haveria Paris, mas tinha havido Lisboa e aquele livro e outros
do mesmo autor e pequenas confidências que valiam o mundo. Estava a secá-la,
isso ele também sabia.
Era um solitário. Gostava de se sentar no silêncio escuro e
pensar, gostava de pensamentos torturantes e tortuosos, gostava de pensar nela.
Não gostava quando os olhos dela ficavam tristes e eles ficavam muitas vezes
tristes. Esfregou os olhos com as mãos, também ele estava cansado. Tentou
concentrar-se na leitura, mas a luz fraca e a dor de cabeça que se insinuava
impediam-no de se concentrar. Depois havia as coisas ditas e os mal-entendidos
que persistiam, por muito que tentasse esclarecê-los. Acusou-o de a ter como o
seu vício privado. Sabia que o tinha dito com mágoa, com deceção. Explicou-lhe
que não, que ela não estava a avaliar as coisas como deviam de ser, vícios
daqueles tinha tido muitos - quase todos privados - mas nenhum deles era ela.
"Sabes que és muito mais do que isso. Os meus vícios posso largá-los bem,
que sei que virão outros iguais atrás. Já tu... sei que quando te perder de vez
não voltarei a ter ninguém igual. Estás num lugar da minha vida que eu não
consigo bem definir, mas sei apenas que é bom e quero que por lá fiques".
Ela não acreditava, outra coisa que ele sabia.
Na vida dele não cabiam pessoas. Não precisava delas, tinha
muito em que pensar, tinha muito que fazer, tinha compromissos e planos e mais
compromissos e ainda mais planos. As pessoas atrapalhavam-no. Gostava de estar
com ela, dos beijos que trocavam, da loucura com que ela planeava aqueles
momentos roubados ao tempo, de saber que ela o desejava tanto quanto ele a ela.
Indiscutivelmente gostava do que faziam quando a porta da rua se fechava. Mas o
que o completava verdadeiramente não era nenhuma dessas partes isoladamente,
era a experiência de ESTAR com ela, como um todo. Desde o primeiro momento em
que diziam olá e trocavam um beijo tímido, até ao último instante em que se
despediam com um beijo desesperado, talvez com receio de que fosse o último de
todos. Ainda assim, não sabia lidar com a presença constante dela, por isso se
esquivava e doseava o tempo que lhe dava. As pequenas coisas somavam-se, como
ele o sabia.
Ela estava no limite. O auge do caos. Nada daquilo era justo
para ela. O combinado era deixá-la seguir com a sua vida, esperar que ela
conhecesse outras pessoas que a preenchessem e lhe fizessem bem. Foi o que
tinha tentado fazer durante anos. Deixou-a ir uma e outra vez. Geriu a raiva de
saber que havia outros, mesmo que fossem melhores do que ele. Ouviu-a
apaixonada, ouviu-a desapontada. Era nestas alturas que complicava as promessas
feitas e a puxava, e se puxava, para o lado mais íntimo da sua vida. Estavam a
repetir os erros do passado, a deixar que a vontade ultrapassasse a razão, a
prometer o que não conseguiam cumprir e, com isto, iam-se envenenando um ao
outro. Isto não augurava nada de bom, o que ambos sabiam.
A noite escorreu nas horas com a lentidão de quem não tem
por que se apressar, sem vontade de ceder o seu lugar à aurora. Ele sentado,
com a roupa da véspera, o livro no colo, a luz enfim apagada, os olhos abertos
numa insónia crónica, à espera. A persiana corrida a esconder a timidez do sol
que por fim acordara, o trabalhar do computador a sobrepor-se ao silêncio, os
olhos abertos, uma calma estranha. Uma hora a procurar com preguiça outra hora.
Plim. Uma mensagem na caixa do correio eletrónico. O corpo a levantar-se com esforço, as mãos a abrirem a tampa
do computador. O email dela no remetente, nenhum assunto. "Olá".
Por fim, o caos. Mas isso ele já sabia.
