15/02/2014

Cartas para o meu futuro - 3

Caro Futuro,


houve um dia, saberás qual, deixaste-os todos para trás, pegaste no pouco que te pertencia e foste. Quebraste as correntes subtis que te prendiam ao medo e a uma responsabilidade imputada à tua revelia; desataste os laços de um jugo disfarçado de amor. Recusaste-te a ser sal, por isso, te revoltaste com a fraqueza da mulher de Ló e não olhaste para o que ficou, não lamentaste a destruição de uma única pedra, não choraste as vidas que pereceram, não desejaste o que tinhas sido até ali.

Houve um dia, só tu saberás qual, que te encontraste contigo mesma, que te despiste da vergonha, da mágoa e do temor, que encaraste as cicatrizes, lhes tocaste sem empatia, as aceitaste como uma estética não-canónica e marcaste no calendário o início de uma nova era.

13/02/2014

A visitação da saudade

Chega em silêncio, disfarçada,
não diz claramente ao que vem,
vagueia pelo quarto e olha como se
não procurasse nada.
Pega uma fotografia,
borrifa o ar de perfume,
canta músicas partidas em refrões
e lembra conversas,
com a postiça inocência de quem não sabe o que faz.

Vem sempre em silêncio, disfarçada,
nunca diz claramente ao que vem,
vagueia pelo quarto e apaga os limites
da existência, sobe aos cumes do mundo frágil
– enganadora Tétis –, para melhor
apontar as delícias do passado.

(sujeito a obras de reescrita)

12/02/2014

A propósito de

Se há locução prepositiva que me mexe com os nervos, me encaracola o cabelo, rebola os olhos e dá comichão no esófago é «a propósito de». Já não suporto ver um título de um texto ou início de texto explicativo que comece com «a propósito de». Sei que dá jeito, está sempre à mão, cai sempre bem, não há como enganar, mas custa muito experimentar um «sobre...», «referindo...», «pegando em...», «continuando...», custa?

11/02/2014

A minha vida dava uma banda sonora #20

De alguma forma que escapa à minha compreensão, é sempre a distância que se impõe. Não a emocional, apenas a física - como se fosse pouco, como se não causasse constrangimento suficiente, como se não fosse custoso de suportar.


When I need you - Leo Sayer

When I need you
Just close my eyes and I'm with you
And all that I so want to give you
It's only a heartbeat away

10/02/2014

Shane Koyczan - another way to tell the time

Sair da lista habitual de leituras, ter um lugar secreto onde se pode ler e ver o que sai do costume, é uma necessidade que tenho. Gosto de visitar e comentar blogues que poucos conhecem e/ou comentam, gosto de descobrir pérolas de qualidade que estão tão longe do que toda a gente quer que me fazem abrir o computador e ler, ver, ouvir.

Numa dessas viagens virtuais a um espaço que visito só pelo prazer de ver fotografias fantásticas, tropecei em duas músicas que me fizeram pesquisar mais de uma hora, para saber de quem eram. Uma só consegui saber, interpelando directamente o gestor do espaço; a outra veio ter comigo, sem esforço.


Shane Koyczan


A música – melhor será dizer o poema – é de Shane Koyczan, um canadiano quase nos quarenta que escreve e diz a sua poesia, acompanhado por música da boa, como a dos The Hort Story Long, no álbum Remembrance Year (2012). Em 2013, participou nas Conferências TED, com «To this day».
Os seus poemas são uma mistura de sentimentos, do desalento à esperança, da tristeza à alegria, porque são poemas sobre pessoas e a transversalidade do sentir:
If you think for one second no one knows what you’ve been going through; be accepting of the fact that you are wrong, that the long drawn and heavy breaths of despair have at times been felt by everyone - that pain is part of the human condition and that alone makes you a legion., Instructions for a bad day.
Muitas vezes afrontam as certezas e confrontam-nos com a morte e as nossas limitações:
He never greets me with silence, only smiles and a patience I've never seen in someone who knows they're dying. And I'm trying so hard not to remind him I'll be out of here in a couple days, smoking cigarettes and taking my life for granted. And he'll still be planted in this bed like a flower that refuses to grow. I've been with him for 5 days and all I really know is that Louis loves to pull feathers out of his pillow, and watch them float to the ground. Almost as if he's the philosopher inside of the scientist ready to say, "It's gravity that's been getting us down., The crickets have arthritis.


Move Pen Move e My Darling Sara


Inevitavelmente quem usa as várias formas de arte para se expressar e se entender acaba por, mais criação menos criação, entrar pelo lado mais íntimo e sofrido da sua intimidade. Este percurso poderá resultar em trabalhos admiráveis para o público, feridas sempre abertas para quem cria.

Nas apresentações que faz, Shane Koyczan evita voltar a dois poemas que são dos mais procurados e conhecidos: Move Pen Move e My Darling Sara. O primeiro porque é a sobre a morte da mãe, o segundo sobre a morte da namorada, duas perdas em questão de dias.

They can’t stop the bleeding and the failing use of Sara’s heart isn’t actually the failing use of Sara’s heart... it’s just another way to tell the time.
My darling Sara, I was holding your hand when you died and even though the failing use of my right hand prevented me from feeling you leave... I tried., My Darling Sara

Revejo-me nesta incapacidade de encarar o que se escreveu como um produto artístico. É quase uma maldição que os textos que foram escritos com sangue, veias, entranhas, lágrimas, pedaços de pele, sejam os mais desejados e aqueles a que já não se consegue voltar, porque são uma violência constante, um reviver dos acontecimentos de uma forma mais profunda, porque já fazem parte de todo um processo de tomada de consciência em relação à perda.

Mas eles tiveram de ser escritos, foram parte de um luto e tiveram de ser marcados no papel, a bem da manutenção de uma sanidade mental que às vezes parecia demasiado fugidia.

08/02/2014

Que farei com as velas que ainda ardem?




Espectros

Os amigos que perdi,
aqueles cujo coração já não bate,
são os que vivem mais intensamente
dentro de mim.




Until the Ribbon Breaks - I Will Remember You

07/02/2014

A minha vida dava uma banda sonora #19

Quando se aceita um contrato a tempo parcial, é certo que nenhum horário é boa escolha, porque qualquer horário não inteiro sabe a pouco. Sabe a nada.



Pedro Barroso - Amantes Clandestinos

Amei-te nas horas, minutos contados
Na rota de dias muito mal dormidos

06/02/2014

Distracções de nível asiático

Sou um bocadinho, assim muito, distraída. Piora esta distracção se for na rua ou estiver parada muito tempo a fazer qualquer coisa - perdi já a conta ao número de pessoas que me acena na rua e eu não vejo, aos sustos que apanhei com os avisos de novo email, as chávenas de café que entornei por calcular mal a distância, os lamentos de um amigo que já desistiu de me acenar quando passa por mim de carro porque nunca o vejo, enfim... sou aquilo que se chama uma despassarada.

No entanto, esta minha característica fofinha, digo eu!, começa a assumir contornos assustadores, visto provocar-me sofrimento por horas e horas. 

Passo a explicar: é muito raro ter dores de cabeça, daquelas que mal conseguimos pensar, mas, porque me constipei à grande, ontem, pela hora do almoço, tinha uma dor fininha do lado direito que me estava a incomodar supinamente. Decidi tomar um comprimido de dose cavalar e arrumar com o assunto. Para que o comprimido não me caísse desamparado no estômago, fiz um lanchinho e toca de engolir aquela coisa enorme.

Contra todas as expectativas, a dor de cabeça conseguiu atingir os picos mais elevados da cordilheira da dor, ao ponto de quase não conseguir ter os olhos abertos, mas como já tinha tomado aquela dose tão forte aguentei firme e forte.

Ao fim da tarde, comentei com os meus irmãos que me doía a cabeça, apesar de ter tomado o  tal comprimido.

- Qual comprimido?

- Um daqueles brancos, da caixa azulada.

- Tens a certeza de que o tomaste?

- Tomei!

- Tens a certeza que não é este comprimido que estava em cima da mesa?

Pois, meus caros, tirar o comprimido da caixa até que tirei, tomá-lo, nem por isso...

04/02/2014

No Facebook também há coisas giras

Sempre tive a ideia que quando há um movimento a puxar para um lado, começa de imediato um movimento que puxa para o outro. Será o equilíbrio necessário para que a histeria não impere, mas não deixa de ser curioso observar o fenómeno. Lembro-me assim de repente de três exemplos: o fenómeno House, o fenómeno CR7 e o fenómeno FB. Sobre o primeiro já escrevi, sobre o segundo já falei, sobre o terceiro... bem, o terceiro custa-me mais a entender, tendo em conta que só lá está quem quer e condená-lo pela infidelidade e pelo número de pseudo-interessantes que por lá grassam equivale, quanto a mim, a condenar as operadoras móveis, os CTT, os transportes públicos e a via pública pelas mesmíssimas razões.

Posto isto, não resisti a partilhar aqui um desafio lançado por uma queridíssima pessoa com quem, pasmem-se lá!, tenho mantido o contacto às custas do supra mencionado causador dos maus costumes e desvio das pessoas honradas.

Sugeria-me, então, uma amiga que listasse os livros que mais me marcaram - tenho alguma dificuldade em dizer «da minha vida», porque todos são importantes, porque com todos se aprende qualquer coisa, mais não seja a não voltar a escolher o estilo ou o autor. 

Escolho 10, porque com o meu jeitinho para os nomes, lembrar-me destes já é uma sorte:

1) Bíblia – não há palavras para explicar;

2) Aventuras de João Sem Medo, José Gomes Ferreira – li-o aos 13, aos 18, aos vinte e pouco, aos vinte e muitos, cada leitura uma aventura, uma descoberta;

3) Ensaio sobre a cegueira, Saramago – um livro violento que me violentou da capa à contracapa;

4) Uma rapariga simples, Arthur Miller – porque contém a melhor descrição de mim mesma que já li;

5) Memórias de uma gueixa, Arthur Golden – a reinvenção das metáforas ou como a beleza do amor existe e resiste;

6) Fazes-me falta, Inês Pedrosa – por ter dito tudo o que quis verbalizar e não soube como;

7) O remorso de Baltazar Serapião, valter hugo mãe – pela colecção de personagens masculinas mais terríveis que li desde que me lembro;

8) De profundis, valsa lenta, José Cardoso Pires – no dia em que perdemos a consciência de quem somos, poder-se-á dizer que ainda somos?;

9) Raio de Luar, Luiz Pacheco – porque a sua leitura foi um prazer indescritível;

10) A resistência dos materiais, Rui Costa – porque nunca nenhum livro foi aberto nem lido pela primeira vez como este.


Se alguém quiser continuar o desafio, pois que o faça.

03/02/2014

Filosofia portuguesa pós-moderna

O nível frustracional é proporcional ao inconseguimento.

Estar vivo é o contrário de estar morto.

O nível frustracional de estar vivo é proporcional ao inconseguimento de estar morto.

O nível frustracional do contrário de estar morto é proporcional ao inconseguimento de estar vivo.

O nível frustracional de um copo meio vazio é proporcional ao inconseguimento de o manter todo cheio.

A palavra despedida

Brett Walker


Crespúsculo
David Mourão-Ferreira

É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.