A rapariga que vivia num sótão, no meio da cidade, contemplou a vida do lado de lá da janela alta, por muitos dias. Junto ao chão, as pessoas moviam-se em ondas para dentro e fora dos edifícios; os carros seguiam a ordem dos semáforos e um vapor acinzentado subia às alturas. Não olhava para cima -- o céu era as barras invisíveis que a mantinham presa. Numa manhã clara, com restos de calor, abriu os olhos e espantou-se do sótão, da janela, do céu, de tudo. Porquê viver tão alto?, tão longe de tudo?, tão perto de nada? Arrastou caixas vazias pelas escadas acima, empurrou caixas cheias pelas escadas abaixo, esvaziou o sótão e mudou-se. Antes de sair, queimou a caixa de cartão escondida debaixo da cama, aquela que tinha jurado não voltar a abrir e depois abriu mais vezes do que as recomendadas por qualquer pessoa sã. Viu-a arder, crepitando as reminiscências do passado, até ser um montículo de cinza fria. Guardou a cinza dentro de um saco preto, trancou o sótão vazio, desceu as escadas numa pressa fugitiva, abriu a porta do prédio como quem busca a liberdade, deixou que a porta se fechasse atrás de si com estrondo, para sobressalto dos ex-vizinhos do primeiro andar, e afastou-se. O saco ficou largado no primeiro caixote do lixo que encontrou. Agora, a rapariga vive numa casa junto ao mar. É no avesso do céu que deposita as resoluções finais: nunca mais dar nada de seu, quem lhe quiser o mar, pague renda elevada, com contrato vitalício. Se não quiser, não perturbe, não chateie -- as mudanças são cansativas e a rapariga que vive numa casa junto ao mar só quer viver de futuro.