Distraidamente revejo-lhe a figura vertical, o jeito do riso
que lhe semicerra os olhos. Pergunto-me: como foi possível amar tanto alguém
que me quis tão pouco.
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05/10/2016
10/07/2016
Teoria de Atar Pontas - aplicação prática
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| Miguel Cuesta |
É preciso que passe significativo passado para que se entenda a história que se viveu. Só a abundância da água correndo por baixo da ponte pode limpar a visão turva do que ficou, amaciar as arestas, desgastar a mágoa.
Agora, quando já passaram anos que não cabem nos dedos de uma mão, e te vou votando ao esquecimento, sei que posso remexer no lastro que me deixaste, sem medo de me ferir. Posso analisar-te à lupa, peneirar-te os defeitos, estender-te ao sol da minha verdade.
Desde o primeiro dia em que me deixaste medir a profundidade dos teus olhos verdes vi a minha vida inteira. Vi o futuro de muitas décadas. Vi-nos velhos, mesmo velhos, de rugas elegantes, os meus cabelos brancos presos no carrapito da pressa, os teus ombros curvados sobre o tabuleiro de xadrez.
Haverias de me ensinar a paciência das peças que se movem segundo um rigor que desconheço e eu, que sempre te obedeci em quase tudo, haveria de aprender com afinco e jogar até te vencer. Depois, jogaríamos às cartas, porque o amor resulta em muito de uma boa mão.
Conversaríamos demoradamente as nossas conversas íntimas, aquelas coisas só nossas, carregadas de ironia, ácidas como só o nosso humor sabia ser.
Teríamos chá às 5 e bolo fresco, todos os dias. E seríamos daqueles tais velhos muito velhos, como só os velhos que se amam sabem ser.
Agora, quando já passaram anos que não cabem nos dedos de uma mão, posso dizer-te num murmúrio apagado pela culpa que procurei no fundo de outros olhos um futuro assim. Não o encontrei, a profundidade ocular dos remexidos mal me cobriu os tornozelos.
Roubaste a minha velhice. Há seis anos que não consigo dar rumo à minha vida.
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