21/01/2013

Há árvores e telhas entre os tombados. Salvaram-se as almas

Começou por ser um vento forte e uma chuva fria e persistente. 
A noite gemeu e chorou todas as horas em que o sol esteve ausente. Dir-se-ia magoada com alguma coisa, tal a fúria com que invocou os elementos. Pela manhã, havia já algumas árvores tombadas, mostrengos verdes de boca escancarada pelo meio da estrada e algumas telhas ausentes.
Mas a manhã acordou zangada com o minúsculo homem e castigou-o com  a escuridão. Nuvens cerradas a tapar o sol, janelas cerradas a proteger os vidros, interruptores mortos sem conseguir cumprir a sua função.
E o dia tombava mais árvores que arrastavam fios e partiam tubos, derrubavam chaminés, arrancavam telhados e fustigavam as posses dos homens. Carros presos, sem combustível nem passagem; corpos sujos, sem água nem conforto. Só as vetustas velas ardiam trémulas.



Há quem já tenha luz. Há quem já tenha água. Há quem já tenha telefone e telemóvel com rede e ligação à Internet. Há quem nem tenha tido tantos estragos assim.

Mas ainda há quem esteja às escuras e assim vá continuar mais dias. Há quem ainda não tenha água, nem o telefone a funcionar. Há quem tenha perdido muito.

Há paisagens irreconhecíveis. As árvores foram vencidas pelo cansaço.