30/11/2012

Os dias de chuva entristecem-me

Os dias de chuva entristecem-me. Não porque haja uma tradição literária e sentimental de desgraça e desapego a eles associados, mas porque os momentos tristes da minha vida aconteceram em dias de chuva, por extensão, em dias de inverno. Factos reais concorreram com a ficção, como se uma e outra fossem indissociáveis e tão verdade que por nada se negariam. É nesta certeza que volto a Wilde e à sua afirmação de que, qualquer coisa como isto, a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.

Por isso, os dias de chuva entristecem-me. Uma lembrança chama outra que chama outra e por aí fora, espirais de memórias de acontecimentos passados trazidos à luz por um mesmo sentir. Não conservo ilusões. Não há dores que se sintam em compartimentos estanques: agora esta, agora aquela, agora a outra. Não, elas são uma só a levarem-me a um patamar superior de sofrimento. Sentir uma perda é sentir todas as perdas. Chorar uma morte é chorar todas as mortes. Quebrar ao peso da saudade é quebrar ao peso da saudade inteira, feita de saudades mínimas. 

Este dia de chuva está a entristecer-me. Mesmo que esteja abrigada da chuva, mesmo que cá dentro esteja quente. Há uma chuva miúda de desapego que me encharca a roupa. Há uma corrente de ar frio que me arrefece os pés. Todos os meus fantasmas, vivos e mortos, se sentaram comigo, respiram por cima do meu ombro, leem com atenção tudo o que escrevo. Nem eles querem estar aqui, mas voltam sempre, pelo prazer de me mortificarem. 

A chuva cai lá fora. Creio que os céus estão solidários comigo.