A Maria é a pessoa estranha que mora no fundo da rua, na casa azul. Eu
nunca lá vi ninguém a visitá-la, mas só tenho sete anos e ainda não vivi nada e
ainda tenho uma memória curtinha, como diz a minha avó. Eu acho que não tenho
nada uma memória curtinha, porque me lembro das vezes todas que a avó me
prometeu que fazia pudim de chocolate e depois não fez, por isso, posso confiar
na minha memória quando digo que nunca ninguém visita a Maria. Não sei se é por
ser negra, pode ser que as pessoas tenham medo da cor da pele dela. Perguntei
isto à minha mãe no outro dia e ela olhou para mim com um daqueles olhares
torcidos que me arrepiam os cabelos e chamou-me “Ana Catarina! Isso não se diz,
estás a ser preconceituosa, as pessoas não se definem pela cor da pele com que
nasceram, definem-se pelo carácter que se forma dentro delas!”. Eu acho que foi
isto que a minha mãe disse, ela às vezes diz umas palavras complicadas e eu
tive de ir ao dicionário ver como se escrevia pre-con-cei-tu-o-sa e o significado,
mas não era nada disso que eu queria dizer e a minha mãe é uma exagerada. Não é
porque a Maria é escura na pele que as pessoas devem ter medo dela, é porque
ela é escura no coração.