16/11/2012

A Maria

A Maria é a pessoa estranha que mora no fundo da rua, na casa azul. Eu nunca lá vi ninguém a visitá-la, mas só tenho sete anos e ainda não vivi nada e ainda tenho uma memória curtinha, como diz a minha avó. Eu acho que não tenho nada uma memória curtinha, porque me lembro das vezes todas que a avó me prometeu que fazia pudim de chocolate e depois não fez, por isso, posso confiar na minha memória quando digo que nunca ninguém visita a Maria. Não sei se é por ser negra, pode ser que as pessoas tenham medo da cor da pele dela. Perguntei isto à minha mãe no outro dia e ela olhou para mim com um daqueles olhares torcidos que me arrepiam os cabelos e chamou-me “Ana Catarina! Isso não se diz, estás a ser preconceituosa, as pessoas não se definem pela cor da pele com que nasceram, definem-se pelo carácter que se forma dentro delas!”. Eu acho que foi isto que a minha mãe disse, ela às vezes diz umas palavras complicadas e eu tive de ir ao dicionário ver como se escrevia pre-con-cei-tu-o-sa e o significado, mas não era nada disso que eu queria dizer e a minha mãe é uma exagerada. Não é porque a Maria é escura na pele que as pessoas devem ter medo dela, é porque ela é escura no coração.