13/06/2012

Finge tão completamente


Hoje, se fosse vivo, Fernando Pessoa completaria 124. É uma idade considerável para quem quisesse manter a sanidade mental num país como o nosso.
É, do meu ponto de vista, dos autores portugueses que menos consenso gerará. Se por um lado uns o amam à saciedade, por outro  lado outros odeiam-no com todas as forças do seu ser. Neste último grupo estão muitos alunos do 12º ano que estremecem só de pensar que Fernando Pessoa possa sair no exame, o que sucede frequentemente. No primeiro grupo, poderia incluir os pseudo-leitores do poeta que espalham supostas frases e pensamentos que, se eles realmente lessem Pessoa, saberiam que não têm qualquer ligação com os outros escritos. Por isso, esses não contam.

Para comemorar a data, deixo-vos Autopsicografia, o poema que tem feito estremecer de medo-pânico muitos examinados, os tais de que já falei. 

Durante anos não o entendi, não fui capaz de absorver a sua simplicidade tão complexa. É certo que o estraçalhei em análises temáticas e formais, é certo que o li à luz de todas as luzes que sucessivos professores e estudiosos acenderam, para me iluminar o caminho, sem que eu saisse da escuridão. Depois eu própria comecei a escrevinhar e a escrevinhar sobre assuntos que me eram tão caros que, embora precisasse de os pensar escrevendo, não me podia permitir mostrá-los tal e qual eram. Foi aqui que tudo fez sentido, no confronto entre o coração e a razão.


Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

11/06/2012

ODEIO A CALÇADA PORTUGUESA!

ODEIO A CALÇADA PORTUGUESA!!!!
ODEIO.
ODEIO.
ODEIO!

Não é a calçada no seu todo, não incluo as praças habilmente calcetadas, os espaços bonitos que os turistas fotografam à saciedade.

O meu ódio é dirigido aos passeios desnivelados, com buracos, com falhas, calcetados às três pancadas, que nos fazem andar numa montanha russa de pedra, quais artistas de circo equilibrados no arame.

Tenho TODOS os dedos dos pés cobertos de bolhas, bolhas essas que rebentaram e sangraram. Tenho umas capas novas nos sapatos, tudo generosamente patrocinado por esse arremedo de arte que se espalha por todas as zonas pedonais.

Ah, que saudades de Perugia, em que os passeios eram todos de cimento ou alcatrão.



A divisão das partes


Divide-se o ser em partes iguais. Duas metades agridoces,
em formas aparentemente semelhantes. Uma que,
insurgindo-se contra o tempo, persistirá na saudade,
no lamento, revivendo em contínuo os microssegundos
de uma existência que coube, toda ela, na palma
da mão. Pelejando o esquecimento, perdurará na lembrança, 
no afago, tecendo cada memória nos músculos do
coração. Coexiste com esta a outra parte, a metade
derrotada pelo tempo e pelo cansaço da espera vã. A metade
que enxugou as lágrimas com as costas das mãos e largou o
que já não era seu. A metade que se começou a levantar, a
juntar os pedaços, a caminhar com passos lentos,
para parte incerta. Certa de que é necessário
que volte a viver.

08/06/2012

A Florencia hoje disse tudo

Shake it out - Florence ande The Machine

"And I've been a fool and I've been blind
I can never leave the past behind
I can see no way, I can see no way
I'm always dragging that horse around
All of his questions, such a mournful sound
Tonight I'm gonna bury that horse in the ground
So I like to keep my issues drawn
But it's always darkest before the dawn"

06/06/2012

Quando não há muito mais a fazer, respirar





Está uma magnifica tarde sol.
Aqui dentro, sinto-me sufocar.
A roupa na corda!
Levantei-me
Desci as escadas, atravessei o corredor, abri a porta e saí.
Na rua está um sol quente e uma aragem leve e fresca.

Sentei-me no muro do jardim.
Descalcei os chinelos.
Dali, conseguia ouvir a Ingrid a cantar repetidamente All I can do is keep breathing...
Numa inspiração do momento, puxei a saia para cima, muito mais acima do comprimento dela, pus os óculos no decote da camisa e fechei os olhos.
Respirar...
Fundo.
Mais fundo...
Profundamente...

Sentia o sol consumir o cansaço dos meus olhos, aquecer as minhas pernas, massajar os meus pés, deixar-me a cara a ferver.
Fiquei ali tempos esquecidos.
A brisa brincava com as farripas do meu cabelo e eu deixei.

O sol não substitui aquilo de que sentimos falta mas aquece, e quando estamos quentes tudo é mais simples.

Respirar...
O sol...
Respirar mais...
A brisa...


Havendo falta do resto, temos sempre o sol.









[escrito em abril de 2008, postado aqui pela primeira vez em maio de 2009. curiosa rotação do sentir]

O menino sentado à mesa


O menino sentado à mesa escreve em complexa
concentração. Analisa todas variáveis do sono e pesa a
vontade de estar lá fora.
O menino sentado à mesa tem sonhos elevados à raiz
quadrada do trabalho que lhe exigem.
Desenha no papel curiosidades e navegações que ondulam
no sobe e desce da caneta.


05/06/2012

O campo de girassóis (ou só mais um dia mau)


Um dia disseste:
Vamos plantar um campo de girassóis.
Eu ri. O teu plano era disparatado, mas
tu insististe e eu acarinhei a ideia.
Preparei o terreno, tu semeaste a semente e
os girassóis nasceram.
Tu já não viste o que o campo produziu,
estavas demasiado ocupado a escrever versos,
sentado nas nuvens, comendo maçãs.
Eu fiquei com um campo de flores, a transbordarem 
do regaço, abundantes demais para as apanhar sozinha,
olhando as nuvens, colhendo caroços de maçãs.


01/06/2012

Porque nem sempre se deve beber do Letes


O silêncio espalha-se como leite derramado pelo chão, a respiração é rápida e leve porque qualquer movimento mais agressivo a pode quebrar. Os olhos perdem-se pelo espaço. Ela não vê nada, não ouve nada, não sente nada, só aquele contínuo de sofrimento que toma conta de todos os ossos e músculos e pedaços de si, aprisionado pelos lábios apertados na força do equilibrio que lhe foge. Não sabe o que pensa. Nega-se à realidade. Às veze veem-na andar, não sabem que são as pernas que a levam, que a carregam sem vontade de voltar. Fecha os olhos, perde-se no tempo.

-  Tens de esquecer e seguir em frente.

Duas orações que a agridem, copuladas na boa-vontade, que lhe abrem bruscamente os olhos e a fazem pestanejar. Esquecer. Seguir em frente. Esquecer. Pensar noutras coisa. Esquecer... O comentário piedoso que as bocas deveriam guardar para si. Não entende o sentido do que lhe dizem. Como é que se esquece? Como é que se continua a viver, fazendo de conta que uma parte do seu passado não existiu? Como é que se substituem as pessoas que se amaram?

Fecha os olhos, aquieta-se, suspende-se do mundo que a rodeia e continua a girar indiferente.

Sente-se agoniada, fisicamente enferma de uma chaga que lhe consome a alma.

Não entende de que serve viver se a existência de cada um é apagada no dia em que morre. Não entende para que se ama, se gosta, se cuida, se tudo o que resta é esquecer. Não entende esta violência que nos torna nada, nem pensamento, nem saudade, nem cicatriz na memória. Que legado é o nosso no mundo?

Ouve-os sem os escutar, os olhos secos. Quer gritar-lhes que melhor seria que nos deixássemos todos, vivêssemos isolados e sem contacto, desistíssemos de nos dar e de querer receber. Melhor seria que fôssemos apenas indivíduos sem nome, tornados lápides e números no cemitério da cidade. Não grita. Olha-os com tristeza e mágoa. Ignorantes! Não sabem nada, não veem que também eles serão esquecidos, que também a vida deles é inútil.

Continua calada, inerte. Num futuro que há de acontecer sem hora marcada, sabe que lamentará menos, chorará menos, sentir-se-á menos magoada. Esquecer, não esquecerá.

31/05/2012

Aos meus leitores*

A todos vocês que me seguem despudoradamente, deixando o vosso ícone na secção dos Seguidores (mais não seja para que eu também vos siga);

a todos os que seguem por email (que eu sei que os há);

a todos os que seguem em anónimo (façamos de conta que existem);

a todos os que pesquisam o nome do blogue em motores de busca (tantos ou então são sempre os mesmos);

a todos os que me leem no Google Reader (está reposta a verdade ;);

a todos os que vêm desesperadamente à procura das imagens da Ruth Marlene;

a todos os que andam à procura de nada e esbarram no espaço;


a todos eu deixo um incentivo: comentem, digam coisas, não tenham vergonha, não sejam tímidos. Não entrem mudos e saiam calados. Opinem como se não houvesse amanhã (vernáculo, não, porque eu não gosto), manifestem-se.

Eu sei que isto às vezes mais parece uma folha de uma revista de literatura de3ª categoria, mas não se deixem impressionar com isso. Aquilo é tudo copiado do dicionário.




* notável como eu me dou ares de importante, ao ponto de considerar que tenho leitores. A presunção parece que é como a água benta.

30/05/2012

A censura anda por aí





E tem uma Galeria própria, para quem quiser saber mais.

29/05/2012

Há dias em que tudo o que preciso é de barulho, para me esquecer que o silêncio que me deixaste ainda me ensurdece os sentidos.