14/05/2013

Espelho meu, espelho meu

A forma como olhamos para nós não é tábua rasa, nem depende em exclusivo da capacidade de nos reinventarmos a cada oportunidade. Grande parte do que acreditamos ser está-nos marcado qual tatuagem feita por outros, pelos seus comentários - nem sempre honestos, nem sempre amáveis -, pelas escolhas que nos incluem ou excluem, pelos silêncios que conseguem tantas vezes falar mais alto do que todas as palavras que já foram ou serão inventadas.

De tanto ouvirmos o que nos dizem, de tanto prestarmos atenção às opiniões de quem julga saber sempre mais, distorcemos a imagem que temos de nós: detestamos, muitas vezes, como pensamos, como agimos, como vivemos, como parecemos. Deixamos que o desejo desmedido de ser diferente, ou mais parecido com o que idealizamos, nos marque, nos limite, nos aprisione.

De tão convencidos que estamos de que somos mesmo assim, de que não temos remédio, de que isto é uma maldição, um fardo que temos de carregar, abrimos mão. Mão das pessoas que amamos porque não somos bons o suficiente para fazer parte das suas vidas. Mão dos projectos, das vontades mais íntimas, porque não somos suficientemente capazes de os levar a bom termo. Mão das coisas grandes e das coisas pequenas que queríamos e precisávamos porque alguém melhor do que nós é mais merecedor.

Vivemos na ditadura da insatisfação até ao dia em que capitulamos.

imagem: Two_Sides_of_Me_by_carrionshine