Não é verdade. O meu morto bebe-me todos os dias. Um pouco mais de cada vez.
Pegou em mim inteira e dispôs-me numa linha longa de pequenos copos de vidro, todos iguais, a bem do equilíbrio estético, numa transparência cintilante de matéria não terrena, em cima de um balcão de eternidade. Pouquinho em cada um, é preciso beber devagar, para não perder a clarividência. Pintou-me de vermelho rubro e amarelo ambar, aumentou-me o grau e assim me degusta entre pensamentos de compreensão holística. Até não sobrar mais nada.
* Título retirado do filme Mortinho por chegar a casa, de Carlos da Silva e George Sluizer.