30/06/2012

Curso rápido de gramática

Esclarecendo dúvidas de gramática

Nem só de literatura (cof cof) vive este espaço, pois que a linguística (arrepio, susto) também é contemplada, várias vezes chamada a ser atriz principal ou tema central de algumas entradas. Mais uma vez, este blogue assume o seu dever cívico de informar e contribuir para o crescimento intelectual dos seus incontáveis leitores.

Não sei se já ouviram falar da TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário), mas esta senhora tem dado dores de cabeça e de barriga a professores e alunos, nos últimos anos. Não bastavam as mudanças de programas, ortografia, estatutos, também a gramática tinha de dar um arzinho da sua graça e vir-nos complicar as contas.


Curso rápido de gramática 

Tenho lido muitas confusões ortográficas com -mos e -se. Aproveitando que estamos na onda dos esclarecimentos, dou uma ajuda.

- Maria, chupa-mos! (imperativa) - separa-se, porque é pronome direto e indireto aglutinado (me+os).

- Nós chupamos com gosto. (declarativa) - não se separa, porque é o verbo conjugado na 1ª pes. do pl.

- A jogar assim, a Seleção lixa-se. (declarativa) - separa-se, porque é conjugação pronominal reflexa, i.e. a seleção lixa-se a si mesma.

- Como eu queria que ele se lixasse! (exclamativa) - não se separa, porque é o imperfeito do conjuntivo.


Vá lá, não fiquem assim. Eu ensino o truque rápido que nunca engana.
Estão a ver não? Então, sempre que tiverem dúvidas, ponham-no na frase e ele diz-vos se -mos e -se têm tracinho ou não.
Querem ver?

- Maria, NÃO mos chupes!

- Nós NÃO chupamos com gosto.

- A jogar assim, a Seleção NÃO se lixa.

- Como eu queria que ele NÃO se lixasse!



Viram o que aconteceu quando há um hífen? Claro que viram, vocês enchem-me de orgulho.

Agora, ide continuar a escrever essas coisas lindas que escrevem, mas sem se enganarem, é que afinal a nossa pátria é a língua portuguesa.



[ Nota: Vale o mesmo para -te. Não valia a pena estar a escrevinhar mais coisas. É fim de semana, caramba, há coisas mais interessantes para se fazer. ]

29/06/2012

Spam à moda antiga

Para quem pensa que o spam é coisa moderna.


@

Vida no campo

A beleza da vida no campo - parte I

- O que é aquilo no caminho?
- É um pau.
- Está a mexer-se!
- Ah! Afinal é uma cobra.



A beleza da vida no campo - parte II

Se gostas de caminhar pelo campo, nunca pises os paus que vês no caminho. Às vezes não são paus, são cobras. Vivas ou mortas.

28/06/2012

As casas de chá

As casas de chá sempre foram muito importantes para a sociedade, criavam-se enredos, discutia-se política, faziam-se e desfaziam-se famas e honras. Nos salões, ostentavam-se joias, penteados, sedas e froufrous, era uma feira de vaidades dentro de portas, tão concorridas como as feiras de fama com tendas e produtos para venda.

As salas de espera nos hospitais e centros de saúde são hoje uma espécie de salões de chá. Há o dono do espaço que disponibiliza uma série de ofertas medicinais e reúne os mesmos frequentadores, encontro após encontro, consulta após consulta. Passeiam-se doenças e discutem-se tratamentos, avaliam-se as capacidades dos médicos e todos são entendidos naquilo de que falam. Certamente conhecem alguém que conhecia alguém, parente de alguém que teve aquele sintoma, que por sua vez originou aquela doença (sem questionar que seja o oposto) e tem necessariamente aquele tratamento e aquele medicamento.

Não falta nem o fazer, nem o desfazer da honra alheia.





27/06/2012

Hoje joga a Seleção

[ mas não me apetece escrever sobre futebol ]



Em frente ao espelho

Em frente ao espelho faço caretas,
arreganho os dentes à decência,
ponho a língua de fora à compostura
aaaaaaaah!!!!
Abro a boca mais ainda,
outra vez
aaaaaaaAAAAAAH!!!!
Espreito-me por dentro.
Espalmo as mãos na cara,
zombie de olhos arregalados sou!
Franzo o nariz, torço os lábios,
sou mostrengo arrepiado,        
Um, nenhum, cem mil, um milhão!
E se eu fosse loira?

26/06/2012

A minha avó

A minha avó sorri-me do papel da fotografia em
que habita, numa moldura em tons dourados e rosa pálido.
A avó que me sorri do papel tem ainda o rosto
de menina que não teve tempo de ser mulher,
entretida que ficou a pousar para a fotografia que a
aprisionou no dia em que a Lei lhe deu permissão
para crescer. A avó que me sorri do papel tem
os meus olhos – ou sou eu que tenho os olhos dela? – a 
mesma forma, a mesma cor acastanhada de escuro,
arredondada e grande. Partilha comigo o nariz, o feitio da testa, 
o jeito do cabelo apanhado e os lábios, mais fino o de cima,
mais cheio o de baixo. A avó que me sorri do papel, sentada à 
janela daquela moldura bonita, não sabe de mim, nem do
que nos aproxima, não sabe que são minhas também as suas 
pernas, de coxas cheias, apenas mais longas. A minha
avó sorri, mas eu não. Tenho nas mãos os brincos
dela, aqueles que ela julga usar no retrato em que
sorri, e sinto saudades dela, a avó que eu não conheci,
que não sabe de mim, que não sabe dos outros netos, que
não sabe que o filho hoje também é avô. A minha avó,
sorrindo no papel, foi-se embora cedo demais. 23 anos era
só o início do tanto que ainda havia para viver.

25/06/2012

Monção


O som do telefone estremeceu o silêncio da casa. Tocou uma vez, duas vezes, três vezes… quando é que desligam? Não suporto o som estridente daquele telefone, não desde que deixou de me chamar gentilmente, de me sussurrar “atende, é ele. Não o deixes esperar”, e passou a gritar-me que atenda porque é publicidade, é do trabalho, é a minha mãe! Calou-se.

Preciso de café, de uma caneca de café forte capaz de acordar um morto, preciso de despertar, sentir a energia que me falta, mesmo quando durmo 12horas seguidas. O calor líquido e a cafeína sempre me souberam consolar.

A rotina dos meus dias consome-me e tem-me feito tomar consciência de uma aparente impossibilidade física que é a de estar a andar em duas direções opostas. No momento em que me encontro, sinto-me nos antípodas de mim mesma, como se o dom da ubiquidade me tivesse sido dado por uma qualquer fada madrinha que se atrasou em fadar-me desde o berço. Como foi que aconteceu? Não sei. Mas aconteceu.

Passo os dias rodeada de pessoas, falo com elas, ensino-as, encorajo-as, levanto-lhes a moral, sou a melhor claque que alguma delas teve a sorte de encontrar. O meu telefone não para, o meu nome é pronunciado a toda a hora, relembram-me a montanha de papéis que tenho de ler-escrever-simplificar, passam-me circulares de reuniões e perdas de tempo, sou o epicentro de um terramoto que promete arrasar tudo à minha volta. Ainda assim, surpreendentemente constato que estou cada vez mais sozinha. Todos me querem, mas ninguém me quer na verdade.

Preciso de outra chávena de café. Se ao menos o telefone parasse de tocar…

Olho-me no espelho, a minha pele branca está lívida, as olheiras profundas e os lábios descolorados. Devia ir ao cabeleireiro, mudar o penteado, mudar a minha cara, mudar a minha vida. 

Gosto de acumular tralha. É um facto, extensível a grande parte dos seres que se dizem humanos, e desde pequena que o faço e guardo um sem fim de objetos a que chamei "tesouros", "preciosidades", "recordações". À medida que cresço, essa tralha acompanha-me em forma de peças de roupa em duvidoso estado, mas que ainda hão de ser moda; potes de asas quebradas; tampas sem frascos e frascos sem tampas; pedaços de tecido, botões, molduras que só precisam de um pouco de cola, espelhos lascados, ratos de computador cujo cabo ainda pode ser útil, eletrodomésticos vários, enfermos alguns, cadáveres a maioria; despensa, escritório, garagem cheia de nadas que ocupam todo o espaço e deixam de fora o que é realmente importante.

Maldito telefone que não se cala! E a minha pele cada vez mais triste, mais pálida…

Tenho de me livrar dessa tralha, arrumar a casa, reorganizar tudo, arejar o que é importante. Simplificar!

O mesmo com o coração. Atulhei-o com amizades doentias, sentimentos de rejeição, amores que não me quiseram, fragmentos de memórias menos boas, pedaços de mágoas, algumas angústias, medos q.b.. No somatório disto tudo, sobra-me pouco espaço para novas amizades, novos amores, novos sentimentos, até novas dores.

Esta falta de espaço isola-me, ou são os outros que me afastam? Dizem que sou complicada, que deveria viver a vida ao momento, num absurdo carpe diem que só serve para desculpar a irresponsabilidade! Querer dá trabalho e as pessoas são muito mais interessantes quando tudo está bem. As perguntas de circunstância “como estás?” aterrorizam-se que lhes respondam “mal, muito mal”. Quererá de facto alguém saber como o outro está, como se sente? E por que tenho eu de carregar o peso da miséria alheia, quando o meu peso me esmaga e a minha miséria me sufoca?

Ninguém quer saber de ninguém. A menos que se chame Dona Clarinda e exerça a profissão liberal da coscuvilhice pro bono. Pelo que passo os meus dias a dar, dar, dar, a dar-me e o que eu recebo em troca não equilibra os pratos da balança. Perdi já a conta das vezes em que os estou a ouvir, sorrindo, dizendo o que é certo e a minha mente vagueia por outros sítios, procurando outras pessoas, outros lugares, outras conversas. 

Há alturas em que as coisas pesam pesos terríveis. O momento antes de dormir é muitas vezes uma mistura de estranho e doloroso. Preciso de um espaço, de um momento, de uma bolha de ar onde possa respirar e sentir que estou viva. Preciso de largar o meu lastro, arrumar a casa, a vida, arrumar-me a mim.

O meu coração era enorme, tinha o tamanho do mundo, agora já não. 

21/06/2012

Havia um par de meias


No chão de madeira envernizada há um par de meias atirado ao
acaso, esperando pacientemente o momento de voltar
a abraçar os pés descalços. Sentem um estremecimento
de euforia no chão, sabem que são procuradas, desejadas
pela força da necessidade. Os pés caminham nus no chão
de madeira envernizada, suspirando pelo par de meias que
descalçaram horas antes - sentem a falta do abraço,
abalam-nos a saudade. Os pés encontram uma meia, mas o que
eles querem é o par. Um pé é feliz, o outro sente-se abandonado.
Impacientam-se os pés à procura da meia ausente.
Os olhos oferecem-se para, lá do alto, esquadrinharem o espaço.
Cansam-se. Impacientam-se os pés e os olhos. As mãos esticam-se
solícitas, tateiam o chão, remexem as coisas. Também elas se cansam.
Impacientam-se os pés, os olhos e as mãos. A boca, aborrecida
pela demora e pela fuga da meia, escancara-se: - viste a minha meia?
Ninguém sabe da meia, nem pés, nem olhos, nem mãos, nem boca.
Arrefece na espera, mingua de saudade o pé descalço. Preocupa-se
a meia achada. No chão de madeira envernizada deveria haver um par
de meias atirado ao acaso, esperando pacientemente o momento
de voltar a abraçar os pés descalços. Mas não. No chão de madeira
envernizada há uma meia atirada ao acaso. A outra suspendeu-se no cabide.
Fugiu do chão, passageira clandestina de um lenço que se pendurou
distraidamente e ri-se baixinho do trabalho que dá. Mas os
ouvidos ouviram-na, os olhos encontraram-na, a boca espantou-se,
as mãos seguraram-na e o pé suspirou e por fim aconchegou-se.
Para castigo, foi enfiada numa sapatilha.



[não precisas de perguntar, este é para ti (:]

20/06/2012


Já vivi um 
grande amor, já vivi 
uma grande paixão, já vivi 
um grande encantamento. Todos 
foram dolorosas perdas. Só resto eu.

19/06/2012

Tudo o que me apetece


Rest Under the Sun by ~ambie-bambi @ dA


Tudo o que me apetece é ficar assim.

18/06/2012

Coisas que me enchem de orgulho

Então não é que uma certa menina decidiu referir-me nos Agradecimentos da sua tese?
Emocionei-me, esta é que é esta.