De repente surgiram não sei quantos fogos à minha volta que tive de ir apagar - fui nomeada bombeira de serviço à revelia, uma espécie de senhora dos aflitos versão não-católica. Não sei bem como, talvez por excesso de exposição à desgraça, incendiei-me eu e deixei arder - é insuportável o esforço de me atirar acima um copo de água.
13/01/2014
Correspondência íntima XVI
12/01/2014
11/01/2014
10/01/2014
No facebook como na vida
Não interessa aumentar o número de «amigos» no facebook. Depois da euforia inicial, só se interage com os da casa, os de sempre, e os outros esbatem-se pelos feeds, presentes mas sem que se percebam.
09/01/2014
Entre os teus lábios é que a loucura acode
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| Ben Lamberty |
Entre os teus lábios
Eugénio de AndradeEntre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
08/01/2014
Cortem-lhes a cabeça!!
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| Michael Kutsche |
– Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva à Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas.
em «O homem sem cabeça», José Gomes Ferreira, As Aventuras de João Sem Medo.
07/01/2014
Ainda sobre a chuva
Here Comes The Rain Again - na voz de Macy Gray
Here comes the rain again
Raining in my head like a tragedy
Tearing me apart like a new emotion
Oooooh
I want to breathe in the open wind
I want to kiss like lovers do
I want to dive into your ocean
Is it raining with you
06/01/2014
Um barco abandonado
Os dias de chuva entristecem-me. A ausência do sol escurece-me na proporção do crepúsculo, a humidade do tempo desconsola-me. É difícil usar do engenho em dias assim, porque o constante cair da água, em cortinas de gotas ou fortes bátegas, desfaz os cenários frouxos do meu teatro mínimo. É um desconsolo à vista as manchas esborratadas do que pintei no papel de cenário, a realidade a galope conquistando as minhas vagas esperanças.
No meu monólogo triste, sou mar em fúria, sereia desfeita em espuma, um barco abandonado.
Barco Abandonado - Dulce Pontes e Ennio Morricone
Barco abandonado
Na voz do tempo, na margem do rio
Nesta lonjura
Na voz dos temporais
Anoitece um canto sombrio
Nas pedras deste cais
Há um adeus no meu olhar
Este meu barco prisioneiro
Há-de ser viageiro
No meio do mar
Barco abandonado
Na noite escura, na ronda do vento
Neste silêncio
Na voz dos temporais
Um lamento que a dor esqueceu
Nas sombras deste cais
Há um adeus dito a sorrir
Do céu, meu amor,
Ao céu que é meu e teu,
Um dia hei-de subir
Se te encontrar
05/01/2014
A inefável mágoa da contagem crescente
Nem um poema, nem um verso, nem um canto,
Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto
Amiga, noiva, mãe, irmã, amante,
Meu amigo está longe
E a distância é tão grande.
Gisela João - Meu amigo está longe
Voltámos aqui. Mais um ano, mais trezentos e sessenta e cinco dias de absurda estupefacção. Este ano, não consigo escrever nada, voltei ao estádio primeiro de quem se usa do que os outros escreveram, para poder dizer com sinceridade aquilo que sente. Não sei já como juntar as palavras soltas do dicionário num texto coeso, no mínimo, coerente, se tudo correr pelo melhor, juntando tudo, não querendo dizer nada; por isso, apropriei-me do que não era meu - como antes, antes de tudo, antes do nada. Talvez gostes da Gisela, não sei se estará ao nível de um fadista Meireles, mas é do norte e tem aquele ar selvagem de quem ainda não foi domado pelas regras da etiqueta - isto há-de valer de alguma coisa.
Há porém uma série de confissões que preciso de te fazer, que me pesam no lado do silêncio que guardo sobre ti, que preciso de arrumar, para me arrumar - ou desarrumar de vez, não sei, as certezas habitam areias movediças :
1) Tenho-me obrigado a esquecer, a bem da minha paz de espírito. Depois sinto-me culpada e lembro-me: lembro tudo, de chofre, de tirar o fôlego, a doer mesmo. Só quando sinto que o meu coração ainda bate com força, fico em paz - ainda não te esqueci.
2) Até agora não consegui falar de ti sem chorar, por isso, não falo de ti. Às vezes menciono-te vagamente como «o que aconteceu», que é uma forma cobarde de me proteger de mais explicações e de salvar algumas lágrimas. Creio firmemente que nunca o conseguirei fazer, que haverá sempre muita emoção no mencionar do teu nome e na evocação de quem foste.
3) Estou a ficar doida. Só assim explico que continue a escrever-te espécies de cartas num espaço público, onde qualquer pessoa pode ler, contrariando tudo o que sou: a minha reserva permanente sobre a minha vida e a dos outros e as minhas convicções, porque contra tudo aquilo em que acredito espero, de alguma forma, que me consigas ler e saibas, por fim, tudo o que não fui a tempo de dizer.
4) Já consegui arrumar os teus livros.
5) Devias ter pensado mais em nós, quando decidiste morrer para sempre.
02/01/2014
Desejos para o ano vindouro
Os meus desejos são secretos.
Não que não tos possa dizer, não que o sejam
só agora que o ano velho se despede cansado e
o novo ano fervilha de imprudência infantil.
São secretos os meus desejos.
Não que não os saibas já, não que não os
suspeites no baloiçar dos meus passos,
no riso dos meus olhos, no vacilar dos meus versos.
Secretos os meus desejos são.
Escrevo-os em pedaços de papel, rasgados
de cadernos alheios e dobro-os em mil dobras,
pequeninas como os meus desejos nunca serão.
Guardo-os nos bolsos, com as chaves de casa
e o mapa da cidade. Lavro-os nas paredes
do sótão onde me escondo da existência pálida
e teço teias à volta do coração.
Desejos meus secretos são.
Não que não tos possa dizer, não que o sejam
só agora que o ano velho se despede cansado e
o novo ano fervilha de imprudência infantil.
São secretos os meus desejos.
Não que não os saibas já, não que não os
suspeites no baloiçar dos meus passos,
no riso dos meus olhos, no vacilar dos meus versos.
Secretos os meus desejos são.
Escrevo-os em pedaços de papel, rasgados
de cadernos alheios e dobro-os em mil dobras,
pequeninas como os meus desejos nunca serão.
Guardo-os nos bolsos, com as chaves de casa
e o mapa da cidade. Lavro-os nas paredes
do sótão onde me escondo da existência pálida
e teço teias à volta do coração.
Desejos meus secretos são.
Publicado originalmente em Cais das Letras
A intensidade da chuva
A intensidade da chuva raia já o absurdo. Não haverá sol suficiente no novo ano, para secar todas as colchas e os lençóis de linho arrumados nos baús. As fotografias, como as recordações, ficaram irremediavelmente manchadas. As cores escorreram de tudo onde a água cai - a vida é uma tela em branco, onde até os traços do carvão começam a perecer.
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