Os dias de chuva entristecem-me. A ausência do sol escurece-me na proporção do crepúsculo, a humidade do tempo desconsola-me. É difícil usar do engenho em dias assim, porque o constante cair da água, em cortinas de gotas ou fortes bátegas, desfaz os cenários frouxos do meu teatro mínimo. É um desconsolo à vista as manchas esborratadas do que pintei no papel de cenário, a realidade a galope conquistando as minhas vagas esperanças.
No meu monólogo triste, sou mar em fúria, sereia desfeita em espuma, um barco abandonado.
Barco Abandonado - Dulce Pontes e Ennio Morricone
Barco abandonado
Na voz do tempo, na margem do rio
Nesta lonjura
Na voz dos temporais
Anoitece um canto sombrio
Nas pedras deste cais
Há um adeus no meu olhar
Este meu barco prisioneiro
Há-de ser viageiro
No meio do mar
Barco abandonado
Na noite escura, na ronda do vento
Neste silêncio
Na voz dos temporais
Um lamento que a dor esqueceu
Nas sombras deste cais
Há um adeus dito a sorrir
Do céu, meu amor,
Ao céu que é meu e teu,
Um dia hei-de subir
Se te encontrar