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06/01/2014

Um barco abandonado

Os dias de chuva entristecem-me. A ausência do sol escurece-me na proporção do crepúsculo, a humidade do tempo desconsola-me. É difícil usar do engenho em dias assim, porque o constante cair da água, em cortinas de gotas ou fortes bátegas, desfaz os cenários frouxos do meu teatro mínimo. É um desconsolo à vista as manchas esborratadas do que pintei no papel de cenário, a realidade a galope conquistando as minhas vagas esperanças.

O mar da Figueira rugiu o dia todo, atirou-se onda após onda contra os limites de pedra que alguém plantou ao longo da marginal. O mar da Figueira parecia querer deixar de ser mar, para ser gente, qual Ariel em fúria, caminhar na areia, dormir nos hotéis, descansar nas esplanadas. Os seus dedos violentos arrancaram pedaços de muro, na agonia de não poderem deixar de ser o que são - dedos de mar, braços de água, corpo de espuma, cabelos de algas, boca insaciável de peixe e de homens.

No meu monólogo triste, sou mar em fúria, sereia desfeita em espuma, um barco abandonado.





Barco Abandonado - Dulce Pontes e Ennio Morricone


Barco abandonado
Na voz do tempo, na margem do rio
Nesta lonjura
Na voz dos temporais
Anoitece um canto sombrio
Nas pedras deste cais

Há um adeus no meu olhar
Este meu barco prisioneiro
Há-de ser viageiro
No meio do mar

Barco abandonado
Na noite escura, na ronda do vento
Neste silêncio
Na voz dos temporais
Um lamento que a dor esqueceu
Nas sombras deste cais

Há um adeus dito a sorrir
Do céu, meu amor,
Ao céu que é meu e teu,
Um dia hei-de subir
Se te encontrar

07/11/2013

House of no regrets

Sei que o conceito casa está em mim muito enraizado, não só enquanto espaço físico, mas como sinónimo de abrigo, família. Sei também que tenho a necessidade, até há pouco tempo inconsciente, de planear, organizar, arrumar o meu espaço, como forma de me arrumar por dentro. Por isso, a minha casa tem sido um projecto meu - bastante imperfeito na sua execução -, como aplicação prática da metáfora da criação do ninho: pintar, arrumar, restaurar, todos estes trabalhos têm passado pelas minhas mãos e, na verdade, não era capaz de substituir os objectos que lá tenho por outros novos, mas impessoais. É também por isso que vou resistindo a abrir as portas a terceiros, pelo menos, não pelo tempo mais do que suficiente para que a conheçam, sem a conhecerem.

Veio esta divagação a propósito de ontem ter esbarrado com esta música da Dulce Pontes, incluída no álbum Focus que gravou com Ennio Morricone, em 2003.

É uma boa definição de casa. A diferença está nos muitos arrependimentos que guardo nas gavetas e nas prateleiras.


House of no regrets - Dulce Pontes e Ennio Morricone


The house where I was born still stands for who I am
Every stone laid is a bridge made to my past

The house where I grew tall towers over me
Shadows bring everything back in soft light
I wouldn't change yesterday, not in my life
And so I live in a house of no regrets

There are many rooms inside my head
Corridors that wind through time, never end
They are journeys meant to be
Every house is part of me

The house where I found love lingers
Sends me shivers, like the first time
Stairways I climb to the heights

The house where I grow old will be free of ghosts
From what I've done, I won't run, come the dark night
I wouldn't change yesterday, not in my life
The years show, I've lived in a house of no regrets