31/10/2013

Por gentileza, caros leitores

Cliquem aqui.
Agora procurem a página 58.
Leiam até à página 61.
Depois contem como foi.

29/10/2013

Escrevo-te com o fogo e a água

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.



António Ramos Rosa
Volante Verde 
Moraes Editores - 1986

Afinal não sofro de marasmo

«O assunto é simples: o autor da Divina Comédia sofreria de narcolepsia, um estado neurológico caracterizado, sobretudo, por sintomas de sonolência e distanciamento.»


Francisco José Viegas, «Ler Ramos Rosa», in Ler, nº 128, pág. 5, referindo um estudo do professor Giuseppe Plazzi.

Sou uma péssima seguidora de blogues

Eu, rapariga honesta para além de simples, me confesso: sou uma terrível seguidora de blogues.
Não sei que me aconteceu, talvez tenha a ver com excesso de cafeína ou mais um cabelo branco descoberto por estes dias, mas quase não comento os blogues que sigo. Se é certo que nem todos os textos me impelem ao comentário - quer seja por uma questão de gosto pessoal, fraca identificação com o assunto ou preguiça -, outros há que me fazem ler, pensar, repensar-me e emitir opiniões. Só que estas estão a ficar arquivadas na minha memória e não tanto na vossa caixa de comentários. E eu leio! Garanto-vos que leio tudo, mesmo que não recebam visitas minhas (não sou de intrigas, mas a culpa é do Feedly), e sinto uma espécie de sentimento de culpa - a mesma que estou a tentar expiar nesta assumpção pública da minha falha -, tudo porque sou honesta. Para além de simples, claro está.

28/10/2013

Coração agrilhoado

Vou assaltar um banco, por amor,
que o meu amor é muito grande
e exigente, não se contenta com
uma cabana, nem com um chá
e bolachinhas.

Vou assaltar um banco, por amor,
que o amor «tudo sofre, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta».
Tudo se lhe perdoa.
Para pena, já bem basta a do coração.

Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo!




Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
E ai Deus, se verrá cedo!

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amado,
por que hei gran cuidado!
E ai Deus, se verrá cedo!

Martin Codax, CV 884, CBN 1227




O «ide» tinha de vir de algum lado

Há quem se lembre de todos os filmes que viu, dos discos que ouviu, dos pintores maiores de cada movimento, dos escritores que fizeram escola, de versos soltos dos poemas que são substrato de muitos outros, de nomes de actores e pormenores que atestam indiscutivelmente a sua sapiência e elevado nível cultural.

Haver, há. Para grande pena minha, não me incluo neste rol. Os nomes fogem-me com a mesma rapidez das árvores, quando o comboio passa por elas; escoam-se como água no ralo, e tudo o que fica é uma vaga lembrança, um resíduo indefinido.

Hoje, ao ler «Let’s look o trailler do Herman Enciclopédia», da Anabela Mota Ribeiro, percebo - não sem espanto - de onde me vem a expressão «ide ...» que tantas vezes já escrevi em textos deste blogue. Foram horas a consumir este programa e a marca ficou, mesmo que em conversas de socialização faça a triste figura de não saber dizer coisa nenhuma.

27/10/2013

Apaziguamento

Estou ensonada. Não por causa de uma recente privação do sono, que a noite até foi mais comprida. É como se o corpo estivesse finalmente a relaxar de meses e meses de tensão permanente. Como se a minha mente caminhasse enfim para um descanso prévio que lhe permita encarar com serenidade as mudanças decisivas que espreitam ali, ao virar daquela esquina que se vai aproximando a passos de gigante.

Qual o índice de resistência do material de que sou feita? Alto e nada desprezável.

Tenho sono. Um sono que transcende a minha resoluta vontade de me manter acordada e me embala, como se a cama fosse berço, como se a cama fosse barco.

Ao fim de muitos meses, o corpo tem sono. Esta noite dormirá apaziguado.

Dance dance dance

A música que os meus pés dançam, quando a cabeça não sabe ordenar o que a boca quer dizer.


dance_by_dzmajce


Having trouble telling
How I feel
But I can dance, dance, dance
Couldn't possibly tell you
How I mean
But I can dance, dance, dance
«Dance, dance, dance», Lykke Li

26/10/2013

A mansão do meu amor tem portas duplas

the door by NuclearSeasons

VI

A mansão do meu amor tem portas duplas,
Abertas de par em par.
Agora que se dana zangada
Eu queria ser o seu guarda
E receber as chicotadas da sua língua.
Assim poderia ouvi-la quando está zangada,
Como um ouriço novo a chiar de terror.


Poemas de amor do Antigo Egipto, Tradução de Helder Moura Pereira

24/10/2013

Let the rain fall

the_rain_waltz_by_lilibloody-d5dfc0z

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.
Alberto Caeiro