03/09/2012

O adeus diz-se devagar

Descobri num instante que valeu uma vida que o meu coração está na única casa onde não posso voltar. A primeira.



'Cause they say home is where your heart is set in stone  
where you go when you’re alone 
Is where you go to rest your bones  
It’s not just where you lay your head  
It's not just where you make your bed


Descoberta no incrível blogue http://mundocadentro.blogspot.pt/ 

30/08/2012

Em estreia mundial!!!

O treinador -Ideias ao Cubo


Deixem que vos fale desta gente. Lá pelos ano de 2008, dois irmãos com tempo livre a mais e horas de sono a menos, inspirados pelos humoristas que eram a alternativa na altura, pegaram na máquina de filmar e filmaram-se em sketches de humor improvisado, para divertir os serões da família.

Ora, um dia em que era preciso criar um número especial em grupo, para contornar a vergonha da exposição pública ao vivo, experimentaram filmar umas cenas e mandar.

Em 2009, arrancava oficialmente o projeto Ideias ao Cubo Produções e, desde então, as curtas têm sido vistas um pouco por toda a Europa, Brasil, África e Américas. Eles são conhecidos como os rapazes das curtas e eu encho-me de orgulho cada vez que os elogiam.

Senhoras e senhores, eles são: o irmão mais velho dos mais novos, o irmão mais novo, o vizinho de cima, as namoradas e o irmão de uma das namoradas, o pai, a mãe, o avô, a avó, o primo, os putos, os pais dos putos e todos os que forem precisos, mais não seja para emplastrarem.

As gravações correm as casas de toda a gente, os lugares são-me bastante familiares. Os adereços são o que está mais à mão e a caracterização é a ver como dá mais jeito.

Quem diria que estes garotos que eu vi nascerem iam dar nisto?

Eu também lá apareço, quase sempre como a mãe malvada... Enfim, acho que me querem dizer qualquer coisa, só ainda não percebi o quê. :o)



29/08/2012

Nem vozes de milhões de anjos

Podem expressar a minha gratidão...

28/08/2012

Define joy

Define joy - Darko


Cry to me, now cry to me,
just as long as I see and it sets me free
'Cause we're two stupid sides of the same lie
I still don't know how, you can make me cry

27/08/2012

O sono


São dez da noite e o corpo tem sono. O corpo não está cansado, apenas tem sono, tem vontade de dormir mil anos, mil descansados anos, encantado no encantamento do encanto de não ser consciente enquanto dorme. O corpo tem medo de beijos. E de príncipes. O corpo tem medo de beijos e de príncipes porque o corpo tem medo de acordar. Acordar é igual a estar vivo. Estar vivo é uma fadiga que o corpo não tolera. Quer por isso o sono, deseja Hipnos, embriagado pelas promessas do vazio, receia Morfeu, a semi-inconsciência do sonho. Escuridão. Dormir sem luz. Não incomodar. A luz incomoda o corpo. O corpo tem medo de beijos, de príncipes e da luz. A luz é o impacto da consciência que sacode o corpo, tortura o corpo, afronta o corpo. Pudesse o corpo descansar no silêncio límbico. Silêncio. O barulho ao contrário. A confusão apaziguada. O escape da opressão pressionada contra o corpo. O despertador rasga o silêncio. O corpo não gosta do despertador. O corpo tem medo de beijos, de príncipes, de luz, e de despertadores. O corpo tem sono. O tempo decorrido desde que o corpo começou a desejar o sono, cansou-o. Agora o corpo tem sono e está cansado. O corpo não consegue adormecer. A cabeça teve uma ideia.

26/08/2012

Houve Shakespeare no castelo

e eu adorei!


Um espectáculo concebido com grande inteligência, que manteve o público a girar pelo castelo de Montemor 2h15m, sem se sentar e sem que lhe doessem as pernas. Um guarda-roupa cheio de imaginação e um aproveitamento do espaço que nos deixou maravilhados.
Deu para rir (do lados das comédias foi um fartote), deu para pensar e ficar sério (as tragédias assim o favoreciam). No fim, toda a gente junta para assistir às duas últimas peças na encosta do castelo.



Se conseguir, em setembro, vou ver as comédias.
Desta vez, houve ocasião para muita coisa, até para perder a fita no chão escuro, antes de Otelo, e para um "para tudo que está ali a minha fita"! Enfim, só eu...

24/08/2012

Universo feminino

23/08/2012

Gares do Poente


Tudo o que me podia ter corrido bem ou mal aconteceu numa estação de comboio. Para ser justa e sincera, nem tudo, houve alguns momentos deliciosos em terminais dos autocarros, mas fora esses, as estações dos comboios representam o início e o fim das minhas sofridas relações amorosas. Têm de acontecer. É bom que aconteçam. Nem todas são contos de fadas. Nem todas são descidas aos infernos. Acontecem. Começam, duram o seu tempo e depois terminam. Entretanto há uma série de lugares e um incontável número de coisas que se tornam inesquecíveis. Exagero, não é um número incontável, eu é que me engano e esqueço o que contei e conto as mesmas coisas vez após vez.

Há um conselho recorrente na fase de rescaldo de um amor perdido: nunca voltar ao lugar onde fomos felizes, ou infelizes, acrescento eu. Tentei muito tempo seguir essa máxima sem notar melhoras em lidar com a bagagem do passado que me pesa toneladas. Se o evitar não ajuda, é no enfrentar que se há de ter algum tipo de resultado. Por isso, decidi enfrentar os meus fantasmas e visitar cada uma dessas estações, sentar-me em cada um dos bancos e recordar todos os momentos tatuados no tecido da minha memória, tão profundamente que, por muito que os queira eliminar, deixaram marcas eternas.

Hoje foi um desses dias. Depois do pequeno-almoço, peguei no leitor de mp3, nos óculos de sol, apertei o casaco, compus o cachecol e caminhei todos os passos necessários até chegar àquele banco em particular e me sentar a observar quem passa. Gosto de me sentar a ver as pessoas passar, há uma infinidade de pessoas apressadas a saírem e a subirem para comboios que chegam e partem no tempo de um ai. Trazem malas ao ombro, mochilas às costas, malas de rodas apressadas. Vão concentradas num objetivo que tanto pode ser sair da estação e diluir-se pela cidade, como entrar noutro comboio rumo ao desconhecido ou simplesmente conseguir apanhar o cavalo de ferro que resfolga de impaciência na linha 2, sentido Lisboa.

Gosto do som dos trolleys no cimento, o arrastar cadenciado pelos passos, imagino-os cães obedientes, seguindo os donos pela trela, cheios de vontade de correr pela gare, esticar as pernas, serem por fim livres. Pelo menos aquela bagagem pode ser facilmente poisada. É com notório alívio que os seus donos a fazem descansar ao seu lado. Sei que é assim, sentia o mesmo em todas as viagens que fazia, ansiava pelo momento em que finalmente poisaria aquele peso tremendo que me endurecia os ombros, esquecendo-me dele até à estação de saída.

Se ao menos as malas do passado fossem tão facilmente esquecidas. O assunto das malas e das bagagens deu-me que pensar muito tempo, foi até bastante angustiante, por ter chegado a pensar que nunca me livraria de alguns pesos. Depois a vida muda, a realidade choca-nos e perdemos tudo: as malas, o medo, a coragem, vai tudo. Por uns tempos.

Nestas coisas de malas e bagagens, quem nos conhece nunca é bom conselheiro, nem que trabalhasse numa loja de uma reputada marca de malas de viagem. Já se sabe, os ditos funcionários da loja de uma reputada marca de malas não são os mais indicados para nos darem conselhos sobre as mesmas, não devemos esquecer que eles querem vender, daí que o objetivo seja convencer-nos a levar sempre a mais cara, mesmo que não seja necessariamente a melhor. A opinião deles visa o lucro, é tendenciosa por princípio. A opinião de quem nos conhece visa desvalorizar os nossos carregos. Ou transportamos o passado em grande estilo ou vivemos como se não existisse. Nenhuma das opções me agrada. Resta-me ir substituindo as malas conforme a necessidade, aliviando até o peso de algumas, mas carregando-as sempre nos braços, até doer, para não me esquecer que as minhas decisões têm um preço que pode ser demasiado alto para o prazer que me deram.

Lembro que estava um dia de sol e calor no dia em que me sentei neste banco pela primeira vez. Nesse dia eu intuía já que o fim estava ali ao virar da curva, tão real e destruidor quanto a máquina de um comboio. Inocentemente ignorei a intuição e enchi-me de esperanças. Até àquele dia de inverno, anos depois, muito frio, em que o vento nos cortava os lábios e avermelhava a pele, subia pela roupa e gelava os ossos. Até àquele dia de inverno em que tivemos de nos esconder atrás das placas de informação, para nos abrigarmos daquele vento gelado, até àquele comboio que chegou, até àquele adeus que me pesou nas mãos por tempos que só o medo me impede de medir, e ainda pesa.

Há uma criança a chorar, ao colo da mãe. Acabou de passar um comboio sem paragem na linha onde há de chegar outro que vai parar e onde vai embarcar. A fúria com que passou quase a arrancou dos braços da mãe, fez voar pontas de cachecóis, abrir casacos mal apertados, segurar os sacos e as malas com mais força, fechar os olhos e virar as costas, para minimizar os danos. Mas a criança teve medo, medo que aquela fúria a levasse consigo e o colo da mãe se tornasse uma saudosa recordação do passado, a memória de um lugar onde tinha sido plenamente feliz.

Foi num dia cinzento de inverno que eu disse o adeus mais triste de que tenho memória. Lembro tudo, o estacionamento da estação, a fila para comprar bilhete e as explicações sobre horários, trocas de linhas, preços e o tempo do trajeto. "Não fica cara a viagem". Não ficava. Não se repetiu. Lembro do café em frente, do balcão alto, das mesas de madeira escura, da televisão a fazer companhia ao silêncio. Lembro de nós sentados naquela mesa, à espera que o tempo passasse. Lembro que os teus olhos se escondiam dos meus e eu não sabia porquê. "Tudo o que te disse é verdade. Quero tudo. Quero a sério." Lembro daquele abraço apertado que durou menos tempo que o necessário - devia ter durado uma semana inteira. Lembro que o comboio chegou, as pessoas correram pela gare, eu peguei os sacos. "Quando chegares, liga. Adeus." Lembro tudo o que veio depois e que nunca irei esquecer.

Por trás dos óculos escuros, há lágrimas magoadas que teimam em fugir, sempre que penso nisto. Talvez fosse mais sensato deixar de frequentar estes lugares, melhor seria deixar de lembrar. Há momentos em que o passado me é tão estranho que nem o reconheço, outros em que mal o lembro. Ainda assim, pesa-me horrores e sinto que, mais do que nunca, estou presa neste passado assustador. Parece-me tudo demasiado presente, ao mesmo tempo muito distante, como se as coisas não me acontecessem a mim e eu fosse só uma espectadora de um mal-amanhado teatro de aldeia, onde só há tragédias de faca e alguidar e os atores são piores do que o argumento. 

 "O comboio que vai dar entrada na linha 1 é o Alfa Pendular com destino a...". Vão embarcar. Todas aquelas pessoas sabem exatamente para onde vão. Invejo-as. Eu não sei. Não sei para onde devo comprar o bilhete, nem o número do comboio que me há de levar. Lá vão elas, com mais ou menos bagagem. A vida tem destas coisas, feitas as contas acabamos a levar o passado para todo o lado e as pessoas que conhecemos como uma constante companhia.

You mended a broken heart

Something Beautiful - ODI

Remember the Winter’s sky,
Your breath, in the cold blue sky,
The warmth from your lips I felt that day,
I remember the coat your wore,
The smell of the clothes you wore
You patched me up, took my weight

Definitivamente, o inverno é quando tudo acontece. O bom e o mau

http://www.odimusic.co.uk/

22/08/2012

Uma manhã tranquila (cont.)


Podemos prever o dia em que o caos começa, com dificuldade acertamos no dia em que atinge o auge. Desenha-se nas pequenas coisas, nos pequenos esquecimentos, nos pequenos desleixos, nos pequenos sarcasmos que se intrometem nas conversas em público. Começa sempre com pequenas coisas, não vem de repente, não acontece de imprevisto. Há sempre a possibilidade de prever e de evitar. Nem sempre se presta atenção aos indícios, nem sempre se evita.

Ele sabia que ela estava a pensar acabar com aquilo que tinham - não tinha como definir melhor a história que ambos arrastavam há anos, uma história que começou num acaso, se desenvolveu entre o tumulto e resistia por causa de uma frustrante química que os queimava em fogo lento. Ia deixá-lo. Percebia-o pelas conversas que iam encurtando e circulando à volta de banalidades. Percebia-o pela forma como se despedia e pelos sorrisos que rareavam. O caos estava no início e ele não tinha como o impedir. Compôs o cabelo, ao espelho. Lembrou-se das mãos delas a desenharem aquele mesmo gesto. Suspirou. Estava eminente, isso ele sabia.

Ela tinha-lhe dito muitas coisas, ela tinha deixado muitas por dizer. Ninguém diz tudo, ninguém sabe de si com certezas absolutas. Ele dissera mais do que tinha querido e calara mais do que era necessário. As palavras são sempre de menos quando se quer convencer alguém a ficar, são sempre de mais quando se quer explicar o que não tem explicação. Ele sabia que ela nem sempre estava consciente do impacto que causava nos outros e perdoava-a por isso, por aquela mistura de inocência e ignorância que a faziam ser assim, como ele gostava. Pegou no livro descuidadamente poisado em cima da mesa. Tinha-o ido buscar por muitos motivos, porque gostava de o ler, porque era do seu autor preferido, sem admitir, contudo, que o tinha feito porque ela também o tinha lido e tinha citado uma frase desconcertante que o estremeceu. Entre eles não haveria Paris, mas tinha havido Lisboa e aquele livro e outros do mesmo autor e pequenas confidências que valiam o mundo. Estava a secá-la, isso ele também sabia.

Era um solitário. Gostava de se sentar no silêncio escuro e pensar, gostava de pensamentos torturantes e tortuosos, gostava de pensar nela. Não gostava quando os olhos dela ficavam tristes e eles ficavam muitas vezes tristes. Esfregou os olhos com as mãos, também ele estava cansado. Tentou concentrar-se na leitura, mas a luz fraca e a dor de cabeça que se insinuava impediam-no de se concentrar. Depois havia as coisas ditas e os mal-entendidos que persistiam, por muito que tentasse esclarecê-los. Acusou-o de a ter como o seu vício privado. Sabia que o tinha dito com mágoa, com deceção. Explicou-lhe que não, que ela não estava a avaliar as coisas como deviam de ser, vícios daqueles tinha tido muitos - quase todos privados - mas nenhum deles era ela. "Sabes que és muito mais do que isso. Os meus vícios posso largá-los bem, que sei que virão outros iguais atrás. Já tu... sei que quando te perder de vez não voltarei a ter ninguém igual. Estás num lugar da minha vida que eu não consigo bem definir, mas sei apenas que é bom e quero que por lá fiques". Ela não acreditava, outra coisa que ele sabia.

Na vida dele não cabiam pessoas. Não precisava delas, tinha muito em que pensar, tinha muito que fazer, tinha compromissos e planos e mais compromissos e ainda mais planos. As pessoas atrapalhavam-no. Gostava de estar com ela, dos beijos que trocavam, da loucura com que ela planeava aqueles momentos roubados ao tempo, de saber que ela o desejava tanto quanto ele a ela. Indiscutivelmente gostava do que faziam quando a porta da rua se fechava. Mas o que o completava verdadeiramente não era nenhuma dessas partes isoladamente, era a experiência de ESTAR com ela, como um todo. Desde o primeiro momento em que diziam olá e trocavam um beijo tímido, até ao último instante em que se despediam com um beijo desesperado, talvez com receio de que fosse o último de todos. Ainda assim, não sabia lidar com a presença constante dela, por isso se esquivava e doseava o tempo que lhe dava. As pequenas coisas somavam-se, como ele o sabia.

Ela estava no limite. O auge do caos. Nada daquilo era justo para ela. O combinado era deixá-la seguir com a sua vida, esperar que ela conhecesse outras pessoas que a preenchessem e lhe fizessem bem. Foi o que tinha tentado fazer durante anos. Deixou-a ir uma e outra vez. Geriu a raiva de saber que havia outros, mesmo que fossem melhores do que ele. Ouviu-a apaixonada, ouviu-a desapontada. Era nestas alturas que complicava as promessas feitas e a puxava, e se puxava, para o lado mais íntimo da sua vida. Estavam a repetir os erros do passado, a deixar que a vontade ultrapassasse a razão, a prometer o que não conseguiam cumprir e, com isto, iam-se envenenando um ao outro. Isto não augurava nada de bom, o que ambos sabiam.

A noite escorreu nas horas com a lentidão de quem não tem por que se apressar, sem vontade de ceder o seu lugar à aurora. Ele sentado, com a roupa da véspera, o livro no colo, a luz enfim apagada, os olhos abertos numa insónia crónica, à espera. A persiana corrida a esconder a timidez do sol que por fim acordara, o trabalhar do computador a sobrepor-se ao silêncio, os olhos abertos, uma calma estranha. Uma hora a procurar com preguiça outra hora. Plim. Uma mensagem na caixa do correio eletrónico. O corpo a levantar-se com esforço, as mãos a abrirem a tampa do computador. O email dela no remetente, nenhum assunto. "Olá".

Por fim, o caos. Mas isso ele já sabia.

21/08/2012

Uma manhã tranquila


O dia que se escolhe para dizer adeus não deve ser ao acaso. Por isso, esperou por uma manhã tranquila, de vento calmo e sol a meia haste, para resolver de vez aquilo que a consumia. Aquilo, a paixão que a fizera feliz o tempo mais do que permitido estava resumida a um pronome indefinido, o que nem era despropositado, uma vez que tinha sido assim que se sentira a maior parte do tempo que durou aquela estranha aventura.

Naquela manhã, assim que abriu os olhos e pestanejou para se habituar à escuridão do quarto, sem a qual era impossível dormir profundamente, soube que, independentemente do tempo que estivesse, lhe era necessário escrever o ponto final da novela ultrarromântica em que se transformara a sua vida amorosa. Levantou-se de um salto, a procrastinação não era bem-vinda, lavou a cara, apanhou o cabelo num carrapito, enfiou um vestido de florido algodão e armada de uma caneca de café sentou-se em frente do computador.

Bebeu um gole de café, enquanto esperava que o programa abrisse, e olhou a janela. O dia que escolhemos para dizer adeus não deve ser ao acaso. Seria muito cruel fazê-lo num dia de sol e calor, esses dias pedem reencontros e beijos e abraços apertados e a paixão a espalhar-se pela pele. Esses dias são para andar pelas ruas de mãos dadas, para sentar nos bancos do jardim, para trocar alheados beijos enquanto o semáforo dos peões não fica verde. Dizer adeus num dia assim seria contrariar a vontade, o que não resolveria a questão. Bebeu outro gole de café e suspirou, o seu computador também estava cansado, acordava preguiçosamente, talvez precisasse de cafeína informática. Já os chuvosos e frios dias de inverno também deviam ser evitados, basta já a dor da despedida, não é preciso intensificar essa dor com a tristeza cíclica da natureza. Por isso, a manhã em que tinha acordado era perfeita.

Gostava do seu cantinho. Era acolhedor e delicado. Poder-se-ia dizer demasiado influenciado por revistas de decoração e programas de remodelação, mas não deixava, por isso mesmo, de ser um espaço de serenidade em tons pastel, salpicado por tecidos de miúdas flores, iluminado por uma enorme janela que chamava o seu olhar repetidamente, pedindo-lhe que se perdesse na profundidade do que os seus olhos podiam alcançar e se alheasse daquilo que sabia ter de fazer. À sua frente a página em branco e um teclado negro, prontos para levarem a mensagem final. Gostaria de poder escrever aquela carta à moda antiga, numa folha de papel timbrado, caligrafia elegantemente vestida de negro, onde ele pudesse ler as manchas que as suas lágrimas escreveriam. Choraria, sabia que sim. Por muito necessária que seja a despedida, não se faz sem sofrimento. Como um penso que se agarra à pele com a força da cola e dói e deixa marca, às vezes sangra, quando é arrancado, mesmo quando as mãos que o puxam são delicadas e a intenção é não magoar.

Bebeu mais um gole de café. Estava a divagar. A atitude resoluta que a acordou arrefecia como o líquido negro e levemente açucarado dentro da caneca amarela. Respirou fundo. Abriu o email. Ignorou todas as mensagens. Clicou em Nova Mensagem - o que tinha para escrever não podia ser resposta a outra mensagem, era um novo começo e o definitivo fim -, fechou os olhos para se concentrar. Abriu-os e começou:


Olá,

Acho já estar em condições de te explicar aquilo que não sabia muito bem como dizer e que, por isso, tenho andado a evitar. Mas está lá, está sempre lá e eu sei que tu sabes que não digo, e eu sei que finges não entender, hoje é o dia para enfrentar este bicho-papão e trazer à luz este lado negro.
Estou cansada, tu sabes que estou cansada, percebe-lo na extensão das conversas que diminui na proporção em que aumenta a minha fadiga. Não sei onde começou, se na alma e se espalhou ao corpo, se no corpo e contaminou a alma, não sei, o que sei é que está lá. Aposto que sorriste. O meu desconhecimento de tudo o que me diz respeito começa a ser irritante, pelo menos para mim é, gostava de ter certezas e dizer-te que "é assim e assim, por isto e por aquilo" e pronto. Mas não sei. Se calhar não sorriste, ficaste só mais um bocadinho triste. Não sei. 
Há uma coisa que eu sei, o que preciso de te explicar, de deixar claro, de resolver, e o que sei é que o meu cansaço vem de uma violência que eu faço a mim mesma. No fundo, tu não tens culpa, nenhum teve culpa, sou eu que o faço a mim. Não consigo não investir emocionalmente nas pessoas, para mim não há coisas pela metade, não há estar de vez em quando, não há ir estando, não há amigos coloridos ou friends with benefits, como queiras, para mim há pessoas de quem gosto e com quem quero estar ou não há ninguém. Por isso, não consigo perspetivar começar a relacionar-me com alguém ou a desenvolver algum tipo de interesse por outra pessoa, se continuamos com uma promessa sem prazo de ser cumprida, se continuamos a alimentar isto que há entre nós, se tu continuas a insinuar-te na minha vida e nas minhas emoções. Sinto-me a trair alguém no meio disto tudo, e não estou certa de não ser eu a mais traída por mim mesma. 
Eu não sei gerir relacionamentos com demasiadas regras e proibições. Estou cansada de que o tempo que me dedicam tenha de ser contado. Cansada de ficar horas à espera de um email, de um telefonema fortuito, de controlar as minhas ansiedades porque não posso falar com a outra pessoa livremente, cansada de depender do tempo do outro. É isto que me cansa, me esgota, tem dado cabo de mim. É isto que eu não posso deixar que continue, Ligar o computador e controlar o desânimo porque não respondeste. Esperar pelas não sei quantas horas, porque costumas responder também àquela hora. Depois passa um dia, passa outro. E eu a ficar para trás. Ficar com o coração a bater quando o telefone toca ou apita, porque és tu e depois não és. Porque hoje tens trabalho, porque amanhã estás com os amigos, porque depois é o teu dia de fazeres qualquer coisa. E eu a ficar para trás. E eu a deixar de fazer o que quero e preciso, porque estou à tua espera. Passei os últimos anos da minha vida à espera do tempo de alguém. E o meu tempo? E a minha vontade? E a minha necessidade? Acabou, por mim, não consigo mais isto. 

Vais dizer-me que eu já sabia, que nunca me escondeste nada, que eu aceitei as tuas regras. Tens razão, tens toda a razão. Por isso é que é uma violência que faço contra mim mesma. Por isso, hoje é o dia em que paro de me fazer mal. 

Não te posso prometer que voltaremos a falar. O mais certo é que não volte a acontecer. Entenderás. Talvez não. Outra incógnita. Mas eu tenho de ir,

Adeus.


Introduziu o destinatário, clicou em Enviar. Enviar esta mensagem sem assunto?, ok, não se resume uma vida em duas ou três palavras. A sua mensagem foi enviada. Respirou de alívio. Pesquisou todos os emails que trocaram, selecionou-os e clicou em Apagar, depois foi aos Contactos e removeu o endereço dele. A manhã continua tranquila, amanhã dizem que vai estar sol.