Clementine - Luísa Sobral
17/10/2016
13/10/2016
Machos e fêmeas
Educada superiormente num local onde, segundo os eruditos, «os grelos cresciam pelas paredes», cedo me conformei com o favorecimento do exíguo macho em detrimento da abundante fêmea. Passados que estão os anos da inocência, continuo a assistir a isto: viveremos muitos anos numa sociedade machista, apoiada pelo poder feminino. Agora, como antes, as maiores assimetrias foram causadas pelas mulheres.
12/10/2016
Na gravidade dos meus dias
Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.
Rui Costa, em A Nuvem Prateada das Pessoas Graves
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.
11/10/2016
07/10/2016
Nas setas grogues do Cupido
Gostava de ler definições de amor. Agradavam-lhe particularmente as que descreviam com pormenor o enamoramento das almas, o poder de um olhar que se cruzava, o inesperado que acontecia, a facilidade com que a vida de duas pessoas mudava, por culpa das setas certeiras de Cupido.
Falava da paixão com a propriedade de quem tinha lido muito e tomado como seu o que era de outros, já que as setas que voavam em todas as direcções, acertavam em todos, menos nela. Durante esse tempo, oscilou no medo de ser incapaz de se apaixonar e o desejo crescente de o fazer. Por isso, ainda se lembrava com todos os pormenores da primeira vez que lhe aconteceu confirmar em nome próprio o tanto que lera – e percebeu que ficava aquém.
Falava da paixão com a propriedade de quem tinha lido muito e tomado como seu o que era de outros, já que as setas que voavam em todas as direcções, acertavam em todos, menos nela. Durante esse tempo, oscilou no medo de ser incapaz de se apaixonar e o desejo crescente de o fazer. Por isso, ainda se lembrava com todos os pormenores da primeira vez que lhe aconteceu confirmar em nome próprio o tanto que lera – e percebeu que ficava aquém.
Aceitou que lhe era muito difícil apaixonar-se, da mesma forma que aceitou que, sempre que se apaixonava, o sentimento durasse anos e quase outros tantos a ser arrumado nas gavetas do esquecimento. No entanto, ao contrário de tudo o que lera, não eram as mãos trementes, nem o coração descompassado, muito menos o sorriso que se colava à cara, que lhe confirmavam que se apaixonara. Essa confirmação vinha da intensidade da preocupação.
Quando começava a preocupar-se com as coisas simples de um homem: se comia, se dormia, se o dia corria bem, se andava feliz, se precisava de ajuda, se lhe faltava um carinho, se se se…, era certo que aquele homem tinha conseguido quebrar a barreira de discreto distanciamento que erguia à sua volta.
Por incontáveis vezes engolia o cansaço, escondia a decepção com outras coisas, quebrava a vontade de estar em silêncio e não falar com ninguém, apenas para estar disponível para ele, porque ele precisava. Claro que ser assim acabava por passar a ideia de ter uma resistência às coisas e umas «costas largas» que honestamente não tinha, porque depois ficava só ela com o seu lastro numa mão, e o lastro dele na outra. Sozinha, a soterrar-se no peso do mundo.
Havia também um denominador comum que a fazia compreender que a paixão tinha acabado (ou que tinha conseguido extingui-la): a não preocupação.
Quando já não se preocupava com o que se passa na vida daquele homem que lhe tinha sido tão essencial, sabia que tinha acabado. Na verdade, sabia que estava gasta, tinha-se deixado consumir pelas exigências alheias, até não haver mais nada.
06/10/2016
Selfie 2
![]() |
| Homenagem a Helmut Newton por Richard Ramos, para a GQ |
(só para o FATifer resmungar um bocadinho)
05/10/2016
Teoria de Atar as Pontas - prurido ocasional
Distraidamente revejo-lhe a figura vertical, o jeito do riso
que lhe semicerra os olhos. Pergunto-me: como foi possível amar tanto alguém
que me quis tão pouco.
04/10/2016
Podia-não-podia
Podia explicar os meus dias, a essência da solidão de que são feitos. Podia explicar com detalhe os desapontamentos que sobraram quando a ilusão ruiu. Também podia explicar, para além da dúvida razoável, a angústia que se esconde debaixo de horas cobertas de pó, porque é tudo demasiado pesado para uns ombros só. Podia explicar o detalhe do medo, o resquício da saudade, a curva do cansaço. Mas não posso, Tenho uma sombra roxa no pulso -- é tudo o que posso dizer.
03/10/2016
01/10/2016
Acho que fui eu que escrevi isto
e nem sei porquê....
Os nossos desgostos como leitores não podem ser idênticos aos embaraços dos poetas, e nenhum crítico consegue alguma vez afirmar a prioridade de um modo digno e justo.
Os nossos desgostos como leitores não podem ser idênticos aos embaraços dos poetas, e nenhum crítico consegue alguma vez afirmar a prioridade de um modo digno e justo.
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