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22/05/2020

A selva é redonda

Hoje, uma turma do 5.º ano dizia não gostar de poesia, porque é só corações. E eu lembrei-me de um poema que fala de macacos e bananas e partilhei com eles. Depois, deu uma saudadezinha...



A selva é redonda


Os macacos comem bananas porque
era a fruta que tinham mais à mão.
Se tivessem mais à mão morangos, os
macacos comeriam na mesma bananas,
porque os morangos são muito difíceis de
descascar. As bananas são comidas por
macacos porque são os animais com mais
mãos que têm ali à mão. As bananas não
têm mãos mas têm casca, que é uma espécie
de mão à volta da banana. As bananas prefe-
riam ter mãos mas saiu-lhes antes casca.
Ser casca não deve ser fácil, passar a vida
a ser deitado fora. Os árbitros de futebol
têm duas mãos, uma para cada cartão.
Os macacos também arbitram as bananas,
comendo-as. Os macacos não mostram
os cartões às esposas. Preferem seduzi-las
usando a inteligência. Não sei como vim
parar à selva. Talvez tenha corrido demais
atrás da bola.


Rui Costa

12/10/2016

Na gravidade dos meus dias

Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.


Rui Costa, em A Nuvem Prateada das Pessoas Graves

04/01/2016

E quando as perdemos estão sempre / Ao nosso lado

Há pessoas que nos morrem mais depressa
do que outras.
Há pessoas que nos morrem e lentamente nos
levam aos pedaços para parte incerta.
Há pessoas que nos põem um fruto negro
no lugar do coração.




O pão
Rui Costa

Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.


(04-01-2015)

15/12/2015

A trapezista

 
 


Começou a subir aos telhados.
Começou a resolver neles muito tempo.

(Primeiro, os dedos na janela mais acima.
Depois, era o cabelo que subia.
Um pulso a içar a alma para outra cidade.)

Daqui vê-se tudo.
Os gatos deitam-se e lambem-me os pés.

Os pés sobem molhados pela chuva.
Os homens congeminam negócios estendidos nas mulheres.

As crianças gritam dentro das casas quando os sonhos
lhes arrancam pedaços das costas.

Os homens caminham com quadros pendurados nos joelhos
As pessoas escrevem artigos nas revistas
sobre o que seria o mundo se alguém do outro lado as ouvisse

E é então que eu saio
e sobre os ombros das árvores disponho a economia
cravando-lhe os dentes ou
roçando apenas o meu sexo
no trapézio

Inclino-me sobre a sua demência particular
neste dia emparedado entre sucessos e crisântemos
e as crises
e ouço as ruas onde lá em baixo uma pessoa
ajeita um pouco melhor os ossos

Aquela mulher fabricou uma cozinha resistente a tudo
atravessou os séculos assoberbada de electrodomésticos
inexpugnáveis – ao fim-de-semana envolvia-os em celofane e espanava
um pouco melhor os filhos.

Mais à frente o parque onde as estratégias se apresentam -
o presidente à frente, seguido pelo hidrogénio ou o hélio
– conforme a posição do sol no buço da democracia –
e o écran reflectindo o écran e a
maresia.

Aqui no alto rodo os pés e alongo mais os braços.
Nos primeiros meses estendia-me com o corpo para baixo e deixava
o sangue inundar a cabeça. Via manchas vermelhas da
menstruação por entre os amigos que prometia esquecer.
Eles traziam-me os seus corpos nus e eu aquecia as suas unhas
cravadas pelo vidro.

Dizem: se os videntes permanecem firmes perante pequenos tiranos
podem chegar a suportar a presença do incognoscível.
Todo o conhecimento é o resultado de uma deslocação.
Se é verdade que todos os caminhos são iguais?
Sim. Pois não te conduzem a lugar nenhum.
Se quiseres fazer como o feiticeiro índio da tribo iaqui,
perguntarás: e esse caminho tem coração?

Perdi a minha agenda de fenómenos electromagnéticos.
Não sei por isso de que lado esperar
este súbito irromper
da melancolia.



rui costa
metphoria
guimarães2012
fundação cidade de guimarães
outubro 2012

 

19/01/2014

Natureza humana

É possível deter o momento, fazê-lo entrar na nossa concha, falar-lhe ao ouvido e contorcê-lo, golpeá-lo no sítio que mais dói só para depois o deixar ir outra vez e ficar só silêncio e ausência e mais nadinha.

Só podia ser de quem é

18/10/2013

«diz-me se te dói»

Até onde sinto, dói por dentro e por fora.

Se é verdade que todos os caminhos são iguais?
Sim. Pois não te conduzem a lugar nenhum.
«A trapezista», Rui Costa



Título: Sulscrito, º 2, verão 2008, Revista de literatura

25/01/2012

eu às vezes apetece-me que vocês sejam felizes hoje

ACIDENTE I
[HELDERIANA VIRULENTA]

eu às vezes apetece-me que vocês sejam felizes hoje,
roubando aos bocados. Como gotas de sono a morder alto,
rebentando nas asas.
Às vezes procuro chamar a atenção, isto é, por vezes decido morrer
para sempre. Sem anzóis a cair dos braços movendo o ritmo do ar.
E sem pena, horizontal a tudo. Então costumo ver os amigos encostados
uns aos outros, lavando árvores. Ou entrando pelo sangue, com as mãos
todas a dar olhos.
Lembro-me de vocês quando decido morrer para sempre.
E quando sou eterno, comendo folhas sentado.
Sei que há paredes brancas onde as éguas não entram. Ficamos
às vezes à conversa nos rios infinitos, chorando lentamente
uma felicidade louca. E somos loucos perguntando, chovendo
no coração louco. E nada existe que não seja apavorado e
tremendo.

Mas tu sabes. Eu quero que tu oiças. As nuvens são inteligentes
e é por elas que as nossas mãos recebem. Por tudo quanto não existe,
pondo pedras demoradas junto ao lugar do amor. Tantos mortos,
dizes,
órgãos repartidos por tanta nenhuma coisa. Nada. Tanto.
Eu sou louco e compreendo. Eu tenho o meu orgulho e a minha força.
Canso-me. Uso as minhas mãos. Deixo o coração ser alternado
e comestível. E o vento passa lá fora e eu passo cá dentro e lá fora.
E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras.
Neste extremo lugar dos homens,
                                                          coroado de tudo.


in Costa, Rui (2009). As Limitações do Amor São Infinitas. Sombra do Amor Edições