17/06/2016

O atropelo da maravilha #2

Continuando na senda das coisas impensáveis, depois de ver um conto meu publicado, chega a rádio. É, rádio... nunca me passou pela cabeça, mas a partir da próxima sexta-feira será possível ouvir uma rubrica minha numa rádio perto de mim (de certeza que está longe de vocês todos).

Tem sido uma experiência desafiadora pesquisar, escrever, gravar, escolher músicas..., também cansativa e às vezes frustrante, mas ver tudo certinho e direitinho encheu-me de satisfação. 

Mantenho para mim que tenho uma voz estranhíssima e começo já a detectar certos tiques de pronúncia que depois me soam mal. É mais uma experiência.


15/06/2016

O ciclo do pó

Primeiro és pó em estado sólido. Barro duro. Confias a medo nas mãos que te seguram, desejas que não te larguem, enquanto estremeces cada vez que os dedos perdem a força e quase cais. És barro, frágil como o pó solto. Depois, sentes a água ensopar-te os cabelos, escorrer pelas costas, cair-te aos pés. O medo engoliu o desejo, as mãos deixaram-te ao desamparo na rua e seguiram a sua vida, em silêncio. És barro mole. Desfazes-te lentamente debaixo da humidade do tempo, não és mais do que uma papa informe. Que te sobra? Criares duas mãos hesitantes e reconstruires-te, enquanto aguardas com paciência pelos raios do sol. Hás-de voltar a ser duro.

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Rome
avril 2016
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Rome Caput Mundi
Lambert Moiroux, Villa Borghese, Rome, avril 2016

14/06/2016

Da minha vida sentimental

Tenho a confirmação de que a minha vida sentimental está uma lástima, quando vejo um casal idoso a trocar beijos na rua e fico cheia de inveja.


De pernas para o ar

No meu poema ficaste
de pernas para 
o ar 
(mas também eu 
já estive tantas vezes) 

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão 
do meu poema 
e os pés tocando o título 
(a haver quando eu 
quiser) 

(...)


Ana Luisa Amaralin «366 poemas que falam de amor»

11/06/2016

De memória

untrustyou:  Jordan Tiberio
Jordan Tiberio

Conheço de memória o teu corpo.
É contra a luz que o vejo nítido.

A distância que vai do meu corpo
à tua ausência
é um nada de caminho
apertado.


Cala-te, Mundo!

Já não posso ouvir o teu grasnar constante de quem só tem boca e não tem ouvidos. Eu acho, eu acho, eu acho... Experimenta perder-te umas horas -- pela minha rica saúde.

08/06/2016

A praia

Vejo frequentemente fotografias da praia onde te ensinei a palavra gaivota e me ensinaste a palavra saudade. É uma praia comprida, acompanhada por um corredor de madeira que salva os pés do incómodo da areia e passeia o tempo a mais.

As gaivotas voaram soltas nessa manhã fria de Inverno e tu saboreaste-lhes o nome numa língua que desconhecias. Passeaste o meu tempo a mais no chão de madeira e deixaste-me o incómodo da tua ausência. Nunca mais voltei àquela praia.

07/06/2016

Hesitações momentâneas

06/06/2016

O Universo quer falar-me

tantas são as vezes em que tropeço nesta imagem. Deve ser bonito, deve... (o que não é bonito é aquela vírgula ali a dar cabo de tudo)


04/06/2016

Jardim da Sereia, num Inverno de felicidade

Dizem-nos que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Como se o regresso fosse capaz de destruir a memória mágica que ficou desse tempo.

Não concordo. Acredito que devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Uma e outra e outra vez. Todas as necessárias para nos lembrarmos que houve um dia em que atingimos um ponto tão alto no grau da felicidade que se colou à memória, para não mais de lá sair. Um momento irrepetível, ainda que se repita o lugar e quem lá está, 

É obrigatório voltar nos dias da descrença. É imperativo lembrar ao coração que o que aconteceu sem contar há-de muito bem voltar a acontecer. Mesmo que não se repita quem lá vai.

tão bonita e bem tirada que só podia ser minha...

02/06/2016

Lembranças dos dias bons

Meu amor de longe - Raquel Tavares


Começava uns dias antes. As mãos tremiam e transpiravam, o coração acelerava, o estômago contraía-se de nervoso. A roupa era escolhida, o itinerário, as refeições, tudo pensado ao pormenor. Na véspera, dormia mal, em deliciosa antecipação. No dia, o cabelo era cuidadosamente lavado e a pele borrifada pelo perfume que lhe dera. Era sempre assim, quando ele vinha. Ou quando ela ia lá.