São pequenos reizinhos, impantes de poder, pondo e dispondo à sua vontade. Confundem respeito com submissão e falham em entender que a autoridade de que se gabam cabe ao posto que ocupam, não à pessoa que são.
13/05/2015
12/05/2015
No fim de tudo
Quando uma mulher se veste, não se veste só para si, ou para os outros, nem para o homem a quem espera, mais ou menos secretamente, provocar. Todos os dias de manhã, enquanto combina peças, cores, formas, materiais, uma mulher veste-se para a ocasião. Ela sabe que uma escolha bem feita pode fazer toda a diferença entre um dia bom e um dia desastroso. Não acreditam?
Ontem, enquanto me vestia, tive de considerar várias variáveis: uma viagem de comboio, um percurso a pé, deambulações num centro comercial e um jantar com várias pessoas, noutra cidade. Era preciso que a escolha fosse confortável, não muito quente, elegante e prática ao mesmo tempo. Eu, como sou simples, decidi-me pelo vestido preto consideravelmente curto e saltos altos. Achei, numa linha de pensamento pouco explícita que a bainha subida ia bem com o calor que transpirava na rua, o preto ser sempre elegante e os saltos de salto porque preciso de renovar as escolhas mais frescas e eram os que estavam mais à mão.
Para não parecer que ia para um funeral, um casaco salmão, a chegar aos joelhos, muito leve, muito fluido. Maquilhagem nenhuma, só um ligeiro bronzeado que já se nota e rímel, camadas e camadas de rímel -- gosto de pestanas dramáticas, bem teatrais, que gritam «maquilhagem» por todos os cílios. E, se com um vestidinho preto eu nunca me comprometo, com dois muito menos.
O dia foi pródigo em ocasiões que seria uma chatice enumerar. Mas a última, caríssimos, essa foi de me levar à histeria, não fosse a minha escolha avisada de indumentária.
Depois de sobreviver a uma espera de mais de meia hora por um comboio, num apeadeiro perdido nos campos do Baixo Mondego, a ouvir bocas de uns trabalhadores da EDP e a encarnar as bochechas; depois de ter conseguido manter os saltos presos aos sapatos durante a caminhada de vinte minutos pelos passeios mal calcetados da Figueira -- odeio a calçada portuguesa! --; depois de ter finalmente desbloqueado um dos telemóveis reminiscentes e de ter conduzido para Coimbra, com um trânsito infernal, uma operação STOP, muito calor e uns sapatos a darem-me cabo dos pés; depois de tudo isto, quando já me dirigia serenamente para o jantar e a escassos metros de estacionar; depois disto, caríssimos, a desfazer a última curva depois dos semáforos, quando foi preciso meter a primeira, o pedal da embraiagem fica em baixo, o carro começa aos solavancos e eu só tive tempo de o enfiar para o único estacionamento livre de uma rua apinhada de carros e em obras, antes de ele estacar de vez.
-- O teu pai vai matar-nos!
Disse a minha mãe, para ajudar à festa. E o carro quase, quase, bem estacionado, mas assim ainda com a traseira de fora, e tudo a apitar, porque eu, que sou simples e tinha um vestido que mal me tapava as pernas, não tinha dois dedos de testa para estacionar mais à frente!
Respirei três vezes, pedi ajuda a pessoas amigas que já estavam no jantar e liguei para a assistência em viagem.
Meia hora depois apareceu o taxista que nos haveria de trazer de volta para casa -- como ele conduzia mal!, e o reboque.
Foi então que a minha escolha se revelou acertadíssima. Do reboque saiu um rapaz todo composto, cabelo espetado, muito moreno, aperto de mão forte, que carregou sozinho a minha Peugeot 306, deu um ligeiro ar de riso, certamente a pensar «mulheres!», e ainda me deixou o número do telemóvel -- foi só porque precisava de saber onde estava, ainda assim...
No fim disto tudo, pensei para comigo, pelo menos tinha um vestido curto e saltos altos.
11/05/2015
Correspondência íntima XX
E onde está a memória do coração? Para mim, durante muito tempo, a separação, mesmo quando era eu a provocá-la, era como uma espécie de morte.
A memória do coração transita para a memória por si só. Claro que guardo um carinho enorme, talvez uma espécie de amor, pelos homens que amei e perdi, mas é só. Essa dor, como se a separação fosse uma espécie de morte, já desapareceu. Ou atenuou até à imperceptibilidade.
A memória do coração transita para a memória por si só. Claro que guardo um carinho enorme, talvez uma espécie de amor, pelos homens que amei e perdi, mas é só. Essa dor, como se a separação fosse uma espécie de morte, já desapareceu. Ou atenuou até à imperceptibilidade.
08/05/2015
Tanta virtualidade mata
Não é preciso viver num sítio recôndito para sentir a solidão. Nem é preciso viver numa ilha para sofrer o complexo de ilhéu. Basta que haja um ahahah escrito em vez de um riso solto; um aparelho que cospe sons, em vez de um corpo que fala com as mãos, os olhos, a boca; cafés de faz-de-conta em salas assépticas de azul e branco, em vez de cadeiras que se arrastam pelo chão e chávenas que batem nos pires. Basta que falte o abraço apertado, a conversa solta, o real em andamento. Tanta virtualidade mata. A mim anda-me a matar devagarinho.
07/05/2015
Lista para quando atingir o sucesso # 2
Este país adoptou um modelo de gestão baseado no mistério: toda a gente sabe que para tudo há muita burocracia envolvida, só não sabe realmente qual é.
06/05/2015
Há relações que não se podem deixar a meio
Sabemos por experiência comprovada que nem todas as relações que iniciamos chegam a bom porto. Não tem de ser mau ou lamentável, se pensarmos que muitas foram bastante questionáveis de pontos tão diversos que seria uma canseira elencá-los. Por isso, pode a desistência ser um bom fim a dar a grande parte dos vínculos. Não a todos, certamente.
Por volta dos seis anos, iniciei uma relação de muito amor e companheirismo com a minha corda de saltar. A intensidade era tal que a levava para todo o lado e conseguia fazer o percurso casa-escola primária, escola-primária-casa em saltitos certos e incansáveis. Tínhamos sido feitas uma para a outra e tínhamos tudo para dar certo.
Sucedeu-nos o que sucede todos, a certa altura, sem que saiba explicar bem como ou porquê, desinteressei-me dela e ela de mim. Creio que a culpa terá sido do elástico, que surgiu na minha vida lá pelos dez anos, mas não posso assegurar. O certo é que eu segui outras vias -- mais tarde veio a piscina, depois as intermináveis caminhadas, depois um ginásio ou outro, depois a falta de vontade até para mexer os olhos -- e a corda foi usada para outros fins (acho que acabou no tractor do meu pai).
Em Setembro do ano passado, porque precisava de me enfiar num vestido de cerimónia e ficar bem nas fotografias do casamento do meu irmão do meio, de quem também fui madrinha, enchi-me de coragem, surripiei uma corda que acho que até tinha comprado muitos anos antes, fiz alongamentos e aquecimentos, que a idade não perdoa, e tentei com todas as minhas forças voltar à paixão incial.
Muitos saltos depois, muita falta de ar depois, muita transpiração e umas pernas um bocadito mais firmes depois, voltámos a olhar-nos com a mesma ternura de antigamente. Era desta que íamos viver o sonho americano!
Entretanto chegou o frio e a chuva e, adivinhem lá!, a coisa esfriou.
Mas esta semana! Ah, esta semana isto vai mudar!
| esta sou eu, quinhentos anos a saltar à corda depois, em jejum perpétuo |
p. s.: desejem-me carregadões de sorte e mandem-me uma botija de oxigénio, sff.
05/05/2015
absolutely fabulous
fábula de
carla
colheres e compotas não te
afastam da acidez do poema:
resiste em ti essa dualidade
latente, não poderes adoçar
a palavra que se sabe amarga
por josé luís, ali, no blogue de leitura obrigatória, novas cartas de marear
Este homem, este homem! Então não é que ele até parece que sabe? ((:
Sou péssima a criar títulos
Dizem-me «não gosto do título, furos abaixo do poema» e eu, que sou rapariga humilde, para além de simples, concordo. Tenho sempre muitas dificuldades com os títulos e tenho pena.
Se alguma vez discordarem de algum que leiam, em qualquer dos blogues, digam e dêem sugestões. Aceitá-las-ei com toda a alegria.
04/05/2015
Os dias têm-se revoltado
| Nigel Scott - Tirage, United Kingdom - 1996 |
uma revolta que veio com a força de uma nortada,
agredindo tudo em redor com chicotes feitos de água
02/05/2015
He Gave Me the Brightest Star
| Adrian Borda ~ “He Gave Me the Brightest Star” |
a forma branca dos sonhos puros
01/05/2015
Lista para quando atingir o sucesso # 1
Nestes últimos meses em que tenho tentado pôr de pé um projecto que muito acarinho, percebi duas coisas:
Pode ser que seja assim com toda a gente. Pode ser que seja só porque é comigo.
- os que me estão mais próximo são os que menos querem saber do que faço;
- os que me estão mais longe são os que mais querem saber do que faço.
Pode ser que seja assim com toda a gente. Pode ser que seja só porque é comigo.
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