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21/03/2019

O grande mistério que há na luz do dia



Assim que te despes - Cristina Branco
poema: David Mourão-Ferreira

Assim que te despes
As próprias cortinas
Ficam boquiabertas
Sobre a luz do dia

Os teus olhos pedem
Mas boca exige
Que te inunde as pernas
Toda a luz do dia

Até o teu sexo
Que negro cintila
Mais e mais desperta
Para a luz do dia

E a noite percebe
Ao ver-te despido
O grande mistério
Que há na luz do dia

27/11/2016

O meu amor

Edouard Boubat- Ile Saint-Louis, Paris, 1975







O meu amor - Cristina Branco (Sensus, 2003)
Chico Buarque

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele inteira fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

16/09/2016

O que chega pelo correio

Chegaram hoje, à hora do almoço, pelo correio tradicional. Vinham todos juntos dentro do mesmo envelope. Ao contrário de todos os livros que compro, não os abri, não os cheirei, não os folheei. Continuam como um conjunto de livros que estranhamente têm o meu nome na capa e, a partir daqui, tudo parece deslocado.




Instantes depois, chegou pelo correio electrónico, a Menina - da Cristina Branco. Tivessem estes livros outro nome na capa e seriam a companhia perfeita um do outro.

07/09/2011

Preso no fundo do rio

Tive um coração, perdi-o - Cristina Branco
(Amália Rodrigues, José Fontes Rocha)

Tive um coração, perdi-o.
Ai, quem mo dera encontrar,
Preso no fundo do rio
ou afogado no mar.

Quem me dera ir embora,
ir embora sem voltar!
A morte que me namora
já me pode vir buscar.

Tive um coração, perdi-o.
Ainda o vou encontrar,
Preso no lodo do rio
ou afogado no mar.

03/03/2011