14/04/2015

Sabem aquela história das pedras e do castelo que toda a gente pensa que é do Pessoa mas não é? Pois.

Durante quatro anos, que me lembre, fomos injectados com doses cavalares de vírus pró-empreendedorismo. Não nos disseram com ar paternalista, não, gritaram-nos que era preciso sair da zona de conforto e bater punho, bater em quem tivesse de ser, desde que alcançássemos o cume do Evereste que era ter um negócio próprio.

Ao fim deste tempo todo, depois de muitas hesitações, medos, «isto não é para mim», e neuroses semelhantes, lá me decidi. Começo um micro-negócio, coisa caseirinha, e deixo ir a ver onde isto me leva. Para meu grande espanto, «isto» despertou uma onda de entusiasmo familiar, como não me lembro de alguma vez ter visto, por isso, mesmo que queira deixar o embrião de negócio em águas de bacalhau, já não me deixam.

No entanto, para crescer não se pode estar dependente de vendas porta-a-porta, nem de uma carteira de clientes que inclui a família e alguns amigos, é preciso ter um plano de expansão e fazer-se à vida. Mas a vida é madrasta e, ontem, entonteceu-me de tal forma que cheguei ao fim do dia quase como tinha começado -- e digo quase porque a dor nos pés e o cansaço das pernas era muito superior. 

Pretendia uma informação muito simples: com quem tenho de falar e o que tenho de fazer para participar em feiras de artesanato do concelho vizinho. Ninguém sabe. Nem juntas, nem câmara, nem turismo -- ninguém. Acontecem, toda a gente sabe, como é que nem por isso. Lá desencantei um número de telefone que, talvez!, seja de quem me pode ajudar.

Bem sei que sair da zona de conforto implica entrar numa zona de desconforto, só não precisava de ser uma zona tão mal organizada. Pelo menos conseguiram deixar-me com vontade de bater, ainda não decidi se em mim, se em pessoa alheia.

Hoje, quando acordei, estava assim meio a sentir-me «rai's parta isto tudo», depois entrei na página do meu micro-negócio e vi duas mensagens que me tinham deixado, uma pública e outra privada. Entre elogios e encomendas, a minha alma lá se animou. As pernas e os pés é que continuam a latejar. 

10/04/2015

Viver do ar

Partilho um texto da Maria do Rosário Pedreira, editora da Leya e poetisa que muito aprecio, sobre um assunto que me toca também. Não que seja escritora famosa a quem solicitam textos em troca da gentileza de se terem lembrado de mim, mas revejo-os e, de certa forma, é uma das minhas profissões, logo, uma forma de ganhar a vida. Há, no entanto, quem resista a ver as coisas por este prisma e insista em me dar textos, currículos, cartas de apresentação, trabalhos da faculdade, para a mão, para eu ler e ver se está tudo bem, sem nunca me perguntarem se levo caro ou barato. Afinal, custa alguma coisa dar um jeitinho? Custar, não custa, o que custa é dar muitos jeitinhos e continuar sem ter como pagar as contas.


Quando eu comecei a trabalhar no ramo editorial, a maioria dos escritores com obra publicada tinha um emprego fixo e escrevia nas horas vagas (como não havia tantas solicitações como há hoje e a televisão só tinha dois canais, era mais fácil arranjar tempo). No entanto, hoje os escritores querem viver exclusivamente do que escrevem (que é, também, o seu trabalho) e, porque o País é pequeno, raramente o que tiram das vendas dos respectivos livros é suficiente para se sustentarem, tendo por isso de se lançar à escrita de guiões, artigos de jornal, recensões, peças de teatro, etc. Mas não é fácil, claro; primeiro, porque estas manobras os afastam muitas vezes das obras que estão a compor; depois, porque estão sempre a ser solicitados para escrever sobre tudo e mais alguma coisa, de borla! Pois, pois... Eu queria ver se alguém tinha lata de convidar um economista ou um médico para escrever ou falar sobre um assunto específico sem lhe pagar... A um escritor, porém, quase nunca se toca no assunto do dinheiro, como se ele vivesse do ar e fosse sua obrigação oferecer de mão beijada todos os seus textos. É, na verdade, escandaloso – e a verdade é que muitas vezes, ao convidarem escritores para discursarem neste ou naquele evento, ainda acham que lhes estão a fazer um favor e a dar uma oportunidade para promoverem os seus livros. Eu, por exemplo, estou a sempre a receber pedidos para fazer prefácios em livros de poetas estreantes, mas mais recentemente também me pediram artigos que me obrigariam a uma investigação séria sem mencionar o pagamento uma única vez. Fiquei até agradavelmente surpreendida quando há uns meses uma instituição me convidou para ler e falar de poesia e me disse logo que pagava. Mas foi uma excepção e não parece que ninguém lhe siga o exemplo. Escrever será pior do que fazer contas em quê?

Maria do Rosário Pedreira,  no seu blogue Horas Extraordinárias

09/04/2015

A nobreza da desistência, ou como eu não percebo nada disto

Adriana Lima
 
Desisti.
Eu sei que não posso desistir de nada, tenho de ser resistente, resiliente como as baratas, com a capacidade de sacrifício de uma parturiente. É assim que se vêem os fortes, que se escolhem os capazes, que se separam os meninos dos homens -- ou as meninas, das mulheres --, sofrendo e resistindo. Eu sei.

Quanto maior a adversidade, maior a satisfação de a ultrapassar. Oh alegria tremenda em derrotar o Adamastor. Oh gáudio dos vencedores que superam os vencidos. Oh vida a minha, que estou à beira de um ataque de nervos!

Desistir, nunca! Resistir, sempre!

Sei, mas desisti. Desisti de tentar entender a porcaria do Access e de fingir que os números e as contas são o meu caminho intuitivo. Se não for o Excel a salvar-me a vida, é bom que fique rica depressa, para pagar a quem me faça os cálculos.

08/04/2015

A chuva chegou

A chuva chegou cá acima. Anunciou-se com pingos grossos e espaçados, fez fugir os gatos do sono aquecido pelo chão, arrancou a roupa do estendal à força de mãos apressadas. A chuva chegou cá abaixo. De repente contínua, insistente, fria, desabando do céu, como se fosse Inverno. A chuva chegou e trouxe com ela o sono pesado do abandono, um desejo de aconchego, os sapatos fechados.


Uma questão de paixões

Enquanto reviro as caixas com as canetas e os clips, na procura, prevejo eu, frustrada de uma mola para prender um maço de papéis, encontro no fundo de uma um pequeno papel rasgado de um canto de um caderno, dobrado em três, com uma letra miudinha escrita a lápis. Sei, mesmo antes de ler o papel, do que se trata, quem o escreveu e quando. Sorrio -- são estas pequenas coisas que quase me fazem lamentar ter desistido da minha primeira paixão.

Depois, numa coincidência digna de um filme, cai mais uma encomenda na caixa do correio e eu lembro-me por que me permiti seguir outras paixões.

Do lado de fora do papel, lê-se: «Vai passando, mas não leias.»; do lado de dentro, «olá stora!».

E ainda dizem que ler não faz bem à saúde




Depois de contemplar leituras tão atentas, estou apta a comprovar que o meu ritmo cardíaco atinge velocidades boltianas e que os meus pulmões expelem ar qual Airbus A 380.






O apelo de um homem a ler é irresistível. Claro que o charme passa pela sábia escolha do título, um Armani que lê Paulo Coelho arrisca-se a ser imediatamente descartado.





05/04/2015

No primeiro dia da semana

Cross_Roads_by_christians


«Ele não está aqui, porque já ressuscitou»

Mateus 28, 6





04/04/2015

Em conformidade com a época

Posso afirmar com toda a certeza que sofro um tipo de morte que não é bem morte, só cansaço de parecer que não se está vivo. Espero ressurgir entre amanhã e o Domingo. Talvez lá para segunda...




p.s.: é fácil entender o grau de cansaço, olhando para o espaço temporal mencionado: «entre amanhã e o Domingo», que é exactamente o mesmo dia...

03/04/2015

A hora nona

Cross_Roads_by_christians


«E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras; e abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados»

02/04/2015

Filmes de animação

Sempre gostei de filmes de animação. Era uma forma barata e prática de entreter os meus irmãos mais novos, sem custo algum. Ainda hoje descansam num canto do móvel da televisão as VHS dos filmes que fizeram história cá em casa. Era até costume, sempre que a minha mãe me visitava em Lisboa, trazer um filme para os miúdos, e aquelas cassetes eram vistas e revistas até à insanidade, até se decorarem as falas, os gestos, as músicas -- na altura em que o Youtube ainda não cantava, rodávamos a fita para a frente e para trás até pensarmos ter escrito a letra da música, certinha e direitinha. Um dos momentos altos foi ver o Tarzan, na sala grande do Colombo, para gáudio dos miúdos e meu, há que dizê-lo com toda a frontalidade.

Claro que no início era a Disney, depois veio a Pixar, a seguir a Dreamworks. Depois a Disney papou a Pixar e quem ganha é quem gosta de bons filmes de animação que deixaram, há muito, de ser só para crianças.

Por falar em Dreamworks, são deste estúdio alguns dos filmes mais amados, tão amados que ainda hoje me lembro de falas e cantarolo as músicas -- sim, quando estou sozinha ou distraída, dá-me para as cantorias. São eles O Príncipe do Egipto; José, o Rei dos Sonhos e Spirit.

Como curiosidade, até porque este palavreado todo servia para isso, um vídeo que mostra a evolução do logótipo ao longo de vários filmes.





Só mais uma coisita, os supra-mencionados «miúdos» são actualmente dois rapagões de 28 e 25 anos, um com 1,83 m e o outro com 1,89 m...

01/04/2015

Chegadas

Hoje foi dia de chegada de encomendas. Primeiro vieram os frascos da Colher, depois chegaram os livros que encomendei no sítio da Presença, aproveitando um campanha fantástica «leve 4, pague 1». É um dia feliz.