«E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras; e abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados»
Sempre gostei de filmes de animação. Era uma forma barata e prática de entreter os meus irmãos mais novos, sem custo algum. Ainda hoje descansam num canto do móvel da televisão as VHS dos filmes que fizeram história cá em casa. Era até costume, sempre que a minha mãe me visitava em Lisboa, trazer um filme para os miúdos, e aquelas cassetes eram vistas e revistas até à insanidade, até se decorarem as falas, os gestos, as músicas -- na altura em que o Youtube ainda não cantava, rodávamos a fita para a frente e para trás até pensarmos ter escrito a letra da música, certinha e direitinha. Um dos momentos altos foi ver o Tarzan, na sala grande do Colombo, para gáudio dos miúdos e meu, há que dizê-lo com toda a frontalidade.
Claro que no início era a Disney, depois veio a Pixar, a seguir a Dreamworks. Depois a Disney papou a Pixar e quem ganha é quem gosta de bons filmes de animação que deixaram, há muito, de ser só para crianças.
Por falar em Dreamworks, são deste estúdio alguns dos filmes mais amados, tão amados que ainda hoje me lembro de falas e cantarolo as músicas -- sim, quando estou sozinha ou distraída, dá-me para as cantorias. São eles O Príncipe do Egipto; José, o Rei dos Sonhos e Spirit.
Como curiosidade, até porque este palavreado todo servia para isso, um vídeo que mostra a evolução do logótipo ao longo de vários filmes.
Só mais uma coisita, os supra-mencionados «miúdos» são actualmente dois rapagões de 28 e 25 anos, um com 1,83 m e o outro com 1,89 m...
Hoje foi dia de chegada de encomendas. Primeiro vieram os frascos da Colher, depois chegaram os livros que encomendei no sítio da Presença, aproveitando um campanha fantástica «leve 4, pague 1». É um dia feliz.
Dás reviravoltas ao corpo e à imaginação para afastar a tristeza. Mas quem te disse que é proibido estar triste? A verdade é que, muitas vezes, não há nada mais sensato que estar triste; todos os dias acontecem coisas, aos outros e a nós, que não tem remédio, ou melhor, que tem esse antigo e único remédio de nos sentirmos tristes.
Não deixes que te receitem alegria, como quem prescreve uma temporada de antibióticos ou colheres de água do mar em estômago vazio. Se deixares que te tratem a tua tristeza como se fosse uma perversão ou, na melhor das hipóteses, uma doença, estás perdida: além de triste, irás sentir te culpada. E tu não tens culpa de estar triste. Não é normal que sintas dor quando te cortas? Não arde a pele se te dão uma chicotada?
Pois, do mesmo modo, o mundo, a vaga sucessão dos factos que acontecem (ou dos que não acontecem) criam um fundo de melancolia. Já o dizia o poeta Leopardi: «tal como o ar enche os espaços entre os objectos, assim a melancolia enche os intervalos entre um prazer e outro».
Vive a tua tristeza, tactei-a, desfolha-a nos teus olhos, molha-a com lágrimas, envolve-a em gritos ou em silêncio, copi-a em cadernos, anota-a no teu corpo, anota-a nos poros da tua pele. Pois só se não te defenderes fugirá, por momentos, para outro lugar que não o centro da tua íntima dor.
E para saboreares a tua tristeza vou recomendar-te também um prato melancólico: couve flor em brumas. Trata-se de cozer em vapor de água essa flor branca, triste e consistente. Devagar, com aquele odor que tem o próprio hálito que a boca exala nas lamentações, ela vai-a cozendo até amaciar. E em volta em bruma, no seu vapor fumegante, põe-lhe azeite e alho e alguma pimenta, e salga-a com lágrimas que sejam tuas. Então saboreia-a devagarinho, mordendo-a do garfo, e chora mais, e chora ainda, que aquela flor acabará por ir chupando a tua melancolia sem te deixar seca, sem te deixar tranquila, sem te roubar a única coisa que é tua naquele momento, a única coisa que já ninguém te poderá tirar, a tua tristeza; mas com a sensação de teres partilhado com essa flor imarcescível, com essa flor absurda, pré-histórica, com essa flor que os noivos nunca pedem nas floristas, com essa flor de couve que ninguém põe nas jarras, com essa anomalia, com essa tristeza florescida, a tua própria tristeza de couve-flor, de planta triste e melancólica.
Héctor Abad Faciolince in Receitas de Amor para Mulheres Tristes, Ed. Presença
"A morte de alguém nunca nos compensa da falta que nos fará, ainda que a obra deixada seja bastante e nos pareça completa. É uma merda. A morte de alguém é uma merda. Quando nos agarramos aos poemas é porque não nos podemos agarrar a mais nada."
valter hugo mãe, "autobriografia imaginária", in JL, 8-21 de fev. 12
As músicas têm o poder de nos permitir apropriar da criação alheia sem nos comprometermos demasiado. Simplificando: facilitam-nos valentes actos de cobardia.
, na sede de culpar o piloto suicida, na família a quem exigem as respostas que não tem?
Alguém questiona a devastação que vai na vida dos que ficaram com as consequências de um acto que não foi seu?
Será assim tão difícil um pouco de humanidade, e um pouco de silêncio, enquanto se juntam as notas de culpa que não trarão cento e cinquenta pessoas à vida?
Aprender a solidão é uma tarefa solitária. Aprende-se quando se aceita que não há livro que preencha, música que console, corpo que abrace. Só uma total e omnipresente ausência de tudo.
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado. Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo. ─ Temos um talento doloroso e obscuro. construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Escolho este poema pela evocação de outro poeta cuja perda foi irreparável.