15/09/2014

Ah, se eu pudesse!


O mundo vive bem sem ser informado ao pormenor das minhas actividades diárias. O mundo real e o virtual, está bem de ver, que entre ambos não dista assim tanta diferença como a que nos querem convencer. À medida que luto com o shift, a tecla A e o acento grave, chego à nobre conclusão de que qualquer dos mundos até agradece que guarde recato sobre o que faço da minha vidinha. 


E eis-nos chegados ao recato, esse substantivo singular, que o dicionário não me diz de onde vem mas é bastante explícito no seu significado: 1. Resguardo; segredo. 2. Prudência. 3. Lugar escondido. 4. Honestidade, pejo, modéstia.

Aconselha-me, por isso, a prudência que guarde segredo das minudências dos meus dias. Para ser honesta, melhor é que as mantenha resguardadas, digo, num lugar escondido, e nem é bem por modéstia, é mesmo por pejo de dar a conhecer tal volume de insignificâncias.

Só por isto não vos faço saber que vou experimentar fazer compota de pêra. Não fora o recato, caríssimos, e escarrapacharia tudo aqui, com reportagem fotográfica e tudo. Assim não podendo ser, guardo silêncio.

11/09/2014

10/09/2014

as mentiras que te conto são mentiras em que não te minto

Correspondência - Ermo


Todas estas palavras más serão palavras de dor
Que quem se maltrata, se maltrata por amor
Perdoa-me esta vã, triste dialética
Mas o meu coração não me cabe nesta métrica

Chegasse a força humana para descrever o que eu sinto
Que as mentiras que te conto são mentiras em que não te minto
Que te importa o meu amor? Eu sou só mais um pretendente
Que canta a pretensão que toda a gente sente

Toda a gente sente, incorrespondente.

Todas estas palavras más só descrevem o que eu sinto
Te maltratam por amor as mentiras em que não te minto
Perdoa este vão triste pretendente
Que o meu coração só sabe o que sente

Só sabe o que sente, incorrespondente. 
Toda a gente sente, incorrespondente.

Descoberto ali na página da Antena 3.

Sobre a morte deve guardar-se silêncio

Há certas mortes das quais não falo, pela simples razão de já ter dito tudo o que sentia sobre elas. Na escala de medição da perda, há os que a sentem no limite e um pouco mais além. Esses são aqueles a quem certas morte pesarão como chumbo, mesmo quando a maioria já se tiver esquecido de quem morreu.

08/09/2014

Eu pleonasmito, tu pleonasmitas, todos pleonasmitamos

A “pleonasmite” é uma doença congénita para a qual não se conhecem nem vacinas nem antibióticos. Não tem cura, mas também não mata. Mas, quando não é controlada, chateia (e bastante) quem convive com o paciente.

O sintoma desta doença é a verbalização de pleonasmos (ou redundâncias) que, com o objectivo de reforçar uma ideia, acabam por lhe conferir um sentido quase sempre patético.


Definição confusa? Aqui vão quatro exemplos óbvios: “Subir para cima”“descer para baixo”“entrar para dentro” e “sair para fora”.

Já se reconhece como paciente de pleonasmite? Ou ainda está em fase de negação? Olhe que há muita gente que leva uma vida a pleonasmar sem se aperceber que pleonasma a toda a hora.

Vai dizer-me que nunca “recordou o passado”? Ou que nunca está atento aos “pequenos detalhes”? E que nunca partiu uma laranja em “metades iguais”? Ou que nunca deu os “sentidos pêsames” à “viúva do falecido”?

Atenção que o que estou a dizer não é apenas a minha “opinião pessoal”. Baseio-me em “factos reais” para lhe dar este “aviso prévio”de que esta “doença má” atinge “todos sem excepção”.

O contágio da pleonasmite ocorre em qualquer lado. Na rua, há lojas que o aliciam com “ofertas gratuitas”. E agências de viagens que anunciam férias em “cidades do mundo”. No local de trabalho, o seu chefe pede-lhe um “acabamento final” naquele projeto. Tudo para evitar “surpresas inesperadas” por parte do cliente. E quando tem uma discussão mais acesa com a sua cara metade, diga lá que às vezes não tem vontade de “gritar alto”: “Cala a boca!”?

O que vale é que depois fazem as pazes e vão ao cinema ver aquele filme que “estreia pela primeira vez” em Portugal.

E se pensa que por estar fechado em casa ficará a salvo da pleonasmite, tenho más notícias para si. Porque a televisão é, de “certeza absoluta”, a “principal protagonista” da propagação deste vírus.

Logo à noite, experimente ligar o telejornal e “verá com os seus próprios olhos” a pleonasmite em direto no pequeno ecrã. Um jornalista vai dizer que a floresta “arde em chamas”. Um treinador de futebol queixar-se-á dos “elos de ligação” entre a defesa e o ataque. Um “governante” dirá que gere bem o “erário público”. Um ministro anunciará o reforço das “relações bilaterais entre dois países”. E um qualquer “político da nação” vai pedir um “consenso geral” para sairmos juntos desta crise.

E por falar em crise! Quer apostar que a próxima manifestação vai juntar uma “multidão de pessoas”?

Ao contrário de outras doenças, a pleonasmite não causa “dores desconfortáveis” nem “hemorragias de sangue”. E por isso podemos “viver a vida” com um “sorriso nos lábios”. Porque um Angolano a pleonasmar, está nas suas sete quintas. Ou, em termos mais técnicos, no seu “habitat natural”.

Mas, como lhe disse no início, o descontrolo da pleonasmite pode ser chato para os que o rodeiam e nocivo para a sua reputação. Os outros podem vê-lo como um redundante que só diz banalidades. Por isso, tente cortar aqui e ali um e outro pleonasmo. Vai ver que não custa nada. E “já agora” siga o meu conselho: não “adie para depois” e comece ainda hoje a “encarar de frente” a pleonasmite!

Ou então esqueça este texto. Porque afinal de contas eu posso estar só “maluco da cabeça”.


Autor desconhecido em.

05/09/2014

A minha vida dava uma banda sonora #23

A diferença maior entre um amor e uma paixão é a permanência e o detalhe. Um amor faz-nos companhia por mais tempo, mesmo morto, e deixa-nos mais memórias pormenorizadas de cheiros, sabores, gestos, palavras, o que for. Não é uma qualquer paixão que os substitui, alguns podem nem chegar a sê-lo.

Comfortable – John Mayer

I can't remember what went wrong last september
Though I'm sure you'd remind me if you had to

01/09/2014

Arruinaste o meu prazer pela leitura.



Arruinaste o meu prazer pela leitura.

Depois de ti não houve mais livros. Não houve mais configurações das personagens masculinas, não houve mais inflexões de voz adivinhadas ou gestos imaginados. Todos -- qualquer que seja o seu nome, a compleição, a cidade onde vive, a língua que fale -- são tu. És tu que persegues os maus, salvas as donzelas, cavalgas na terra dos índios, passeias de bengala pelas capitais, és capitão de exércitos, mestre de barcos, astronauta destemido. Pertencem-te todos os dilemas, todas as depressões, as ousadias e as cobardias. São sempre os teus olhos, as tuas mãos, o teu encolher de ombros, o teu rir.

A cada página virada, a cada avanço na narração, somos nós que viramos dias, saltamos para a frente, por cima dos excedentes literários e das descrições enfadonhas. São nossos todos os diálogos, somos nós que nos enganamos, nos complicamos, nos descompreendemos; como são nossas as piadas, as despedidas, as discussões, as chegadas. És tu a arrastares-me para a ficção e eu a ir sem resistência.

Arruinaste o meu prazer pela leitura. Depois de ti não houve mais livros.

31/08/2014

The man I love

Para terminar um Domingo que foi empalidecendo com o Sol.

Devics - The Man I Love

No dia em que isto estiver escrito de vez, vou suspirar de alívio.

30/08/2014

Tu eras também uma pequena folha

Tu eras também uma pequena folha

Pablo Neruda

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

29/08/2014

Goodbye, so long, I'm moving on

Apaguei a conta no Facebook. Foi aos pouquinhos. Comecei por apagar a página do Cais; depois foram os álbuns das fotografias com os poemas e as notas que ainda resistiam no arquivo; a seguir as páginas de que gostava; continuei pelas pessoas que seguia; logo depois todas as fotografias e imagens menos a da capa e do perfil; continuei, eliminando todos os amigos à excepção de um; apaguei todas as mensagens da caixa; decidi-me a apagar as imagens da capa e perfil; desamiguei o último amigo; fui às definições de segurança e cliquei em «desactiva a tua conta»; expliquei-me pela última vez, confirmei a decisão e fechei o perfil com a chave.

O Facebook, como um amante incrédulo, espera que volte em breve. Eu espero não ter motivos para regressar.


Goodbye to all my yesterdays

28/08/2014

Fanatismo

Damian Hovhannisyan

Fanatismo
Florbela Espanca

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver! 
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida! [...]