
Arruinaste o meu prazer pela leitura.
Depois de ti não houve mais livros. Não houve mais configurações das personagens masculinas, não houve mais inflexões de voz adivinhadas ou gestos imaginados. Todos -- qualquer que seja o seu nome, a compleição, a cidade onde vive, a língua que fale -- são tu. És tu que persegues os maus, salvas as donzelas, cavalgas na terra dos índios, passeias de bengala pelas capitais, és capitão de exércitos, mestre de barcos, astronauta destemido. Pertencem-te todos os dilemas, todas as depressões, as ousadias e as cobardias. São sempre os teus olhos, as tuas mãos, o teu encolher de ombros, o teu rir.
A cada página virada, a cada avanço na narração, somos nós que viramos dias, saltamos para a frente, por cima dos excedentes literários e das descrições enfadonhas. São nossos todos os diálogos, somos nós que nos enganamos, nos complicamos, nos descompreendemos; como são nossas as piadas, as despedidas, as discussões, as chegadas. És tu a arrastares-me para a ficção e eu a ir sem resistência.
Arruinaste o meu prazer pela leitura. Depois de ti não houve mais livros.